Mapeamento revela avanço do cacau na Amazônia e identifica 121 mil hectares cultivados

Um novo mapeamento realizado na Amazônia brasileira identificou cerca de 121 mil hectares cultivados com cacau no Pará e em Rondônia. O levantamento, divulgado nesta terça-feira (25) pela Embrapa, utiliza imagens de satélite, radar, inteligência computacional e verificações em campo para revelar onde e de que forma a cacauicultura está avançando na região.

Os resultados mostram duas realidades distintas. Enquanto o Pará consolidou a liderança nacional e ampliou em 33,26% sua área mapeada entre 2022 e 2024, Rondônia ganhou pela primeira vez um levantamento territorial completo e se destacou pela predominância dos Sistemas Agroflorestais (SAFs).

Além da dimensão econômica, o estudo aponta uma característica ambiental relevante: 96% das áreas alteradas cultivadas com cacau no Pará e 98% em Rondônia estavam em locais desflorestados antes de 2020. Segundo os pesquisadores, os dados indicam que a expansão observada ocorre principalmente sobre áreas anteriormente modificadas, como pastagens e vegetação secundária, em vez de estar associada à abertura recente de floresta nativa.

Pará concentra mais de 116 mil hectares de cacau

O Pará responde pela maior parcela da área identificada.

O levantamento atualizado para 2024 encontrou 116.436 hectares cultivados em 61 municípios paraenses. Em 2022, eram 87.309 hectares. Em apenas dois anos, portanto, foram incorporados aproximadamente 29,1 mil hectares, crescimento de 33,26%.

A expansão, contudo, chamou a atenção dos pesquisadores pela forma como ocorreu.

Dos novos hectares identificados entre 2022 e 2024, 63% foram classificados como monocultivo a pleno sol, enquanto 37% estavam inseridos em Sistemas Agroflorestais, nos quais o cacau é cultivado em associação com espécies florestais e frutíferas.

Para o pesquisador Adriano Venturieri, da Embrapa Amazônia Oriental e principal autor do estudo, essa diferença indica a necessidade de ampliar incentivos aos sistemas agroflorestais, devido à diversificação e aos serviços ecossistêmicos proporcionados pelo modelo.

Medicilândia lidera mapa da produção paraense

O levantamento também permite visualizar os principais territórios ocupados pela cultura.

Medicilândia aparece com 35.203 hectares e concentra a maior área mapeada no Pará. Na sequência estão Uruará, com 17.024 hectares; Brasil Novo, com 10.162 hectares; Altamira, com 7.301 hectares; e Tomé-Açu, com 6.981 hectares.

Os quatro primeiros municípios estão associados ao eixo da Transamazônica e ao oeste paraense. Tomé-Açu, no nordeste do estado, é apontado pela pesquisa como referência na utilização de Sistemas Agroflorestais.

A estrutura fundiária identificada também evidencia a importância dos pequenos produtores: das 31.843 áreas mapeadas no Pará, 84,65% possuem até cinco hectares. Cerca de 74,55% estão inseridas em propriedades com até 50 hectares.

Rondônia tem 62% do cultivo em sistemas agroflorestais

Em Rondônia, o levantamento representa uma novidade: é a primeira vez que o estado recebe um mapeamento territorial completo de sua cacauicultura.

Foram identificados 5.340 hectares cultivados em 51 municípios.

A configuração rondoniense é diferente da encontrada no Pará. Nas áreas antropizadas cultivadas com cacau, 62% — aproximadamente 3.310 hectares — estão inseridas em Sistemas Agroflorestais. Os outros 38%, ou 2.029 hectares, correspondem ao cultivo a pleno sol.

A agricultura familiar também possui forte presença. O estudo identificou 38.108 áreas, das quais 75% estão concentradas em parcelas de até cinco hectares.

Jaru lidera o estado, com 832,13 hectares, seguido por Porto Velho, com 352,87 hectares; Theobroma, com 305,43 hectares; Ouro Preto do Oeste, com 297,41 hectares; e Mirante da Serra, com 260,28 hectares.

Norte já responde por metade do cacau brasileiro

A dimensão territorial revelada pelo estudo acompanha a crescente importância econômica da cultura na Amazônia.

Dados do IBGE apresentados pela Embrapa indicam que a Região Norte responde atualmente por 50% da safra brasileira de cacau, com produção próxima de 148 mil toneladas diante de aproximadamente 297 mil toneladas produzidas nacionalmente.

O Pará é o maior produtor do Brasil, com cerca de 137,5 mil toneladas de amêndoas secas. O volume equivale a 46% da produção nacional e a 92% de todo o cacau produzido no Norte.

Rondônia ocupa a segunda posição regional e a quarta nacional, com aproximadamente 8,6 mil toneladas. Apesar de possuir uma área consideravelmente menor, o estado apresenta produtividade média superior a 1.250 quilos por hectare, uma das maiores do País.

Satélites e inteligência computacional ajudaram a encontrar os cacaueiros

Mapear a cultura em plena Amazônia apresentou um desafio particular aos pesquisadores.

As copas dos cacaueiros, principalmente quando cultivados em ambientes sombreados, podem apresentar características semelhantes às de florestas nativas e vegetação secundária quando observadas remotamente.

Para contornar essa dificuldade, os pesquisadores combinaram sensoriamento remoto, imagens de radar, dados provenientes de diferentes satélites, inteligência computacional e auditorias realizadas diretamente em campo.

Imagens com resolução espacial de 50 centímetros permitiram observar detalhes suficientes para diferenciar áreas de cacau a pleno sol daquelas integradas a Sistemas Agroflorestais.

As informações obtidas remotamente foram posteriormente verificadas por meio de expedições realizadas em dez municípios das regiões da Transamazônica e do Nordeste Paraense, além de municípios de Rondônia.

Cacau aparece como alternativa para áreas já degradadas

Um dos principais resultados do levantamento surgiu quando os pesquisadores cruzaram o mapa dos cacaueiros com dados do TerraClass e do Prodes, sistema do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) utilizado para monitorar o desmatamento amazônico.

O cruzamento indica que a expansão identificada está ocorrendo predominantemente sobre áreas já alteradas, especialmente antigas pastagens e vegetação secundária.

No Pará, 96% das áreas alteradas com cacau estavam em locais desflorestados antes de 2020. Em Rondônia, o índice chega a 98%.

A Embrapa aponta, nesse contexto, a possibilidade de o cacau atuar como instrumento de restauração produtiva, recuperando solos e devolvendo capacidade econômica a áreas anteriormente degradadas.

O levantamento identificou ainda 11.444 hectares no Pará e 148,78 hectares em Rondônia nos quais o cacau é cultivado diretamente sob a cobertura de florestas nativas utilizadas como sombreamento natural.

Mapeamento também mira mercado internacional

Saber exatamente onde o cacau é produzido ganhou importância não apenas ambiental, mas comercial.

O Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR) estabelece restrições à entrada de determinadas commodities associadas a áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020.

O levantamento identificou que 3,9% do cacau em áreas antropizadas no Pará e 2% em Rondônia foram implantados em locais desmatados após 2021.

A localização georreferenciada das lavouras pode, portanto, auxiliar produtores e exportadores na rastreabilidade e na avaliação da conformidade socioambiental da produção destinada ao mercado internacional.

Segundo Venturieri, o desafio para a Amazônia não está simplesmente em aumentar a quantidade de hectares plantados, mas em garantir que essa expansão seja acompanhada de sustentabilidade, qualidade territorial e capacidade competitiva.

Estudo será apresentado na ExpoCacau

Os resultados completos serão apresentados nesta quarta-feira, 26 de agosto, durante a ExpoCacau 2026, em Ilhéus, na Bahia. O evento deve reunir mais de seis mil participantes e aproximadamente 60 expositores ligados à cadeia produtiva.

O trabalho recebeu o título de “Mapeamento das áreas da cacauicultura nos estados do Pará e Rondônia: implicações para o desenvolvimento territorial” e foi elaborado por pesquisadores da Embrapa Amazônia Oriental, Universidade do Estado do Pará (Uepa) e Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG).

Ao revelar onde estão as lavouras, quais sistemas produtivos predominam e sobre quais áreas elas avançam, o estudo fornece uma nova ferramenta para acompanhar uma atividade que já responde por parcela expressiva da produção agrícola amazônica.

Os dados também reforçam uma perspectiva importante para o futuro da economia regional: a expansão do cacau pode gerar renda e recuperar áreas anteriormente degradadas, mas o modo como essa expansão ocorrerá será determinante para definir seus benefícios ambientais e sociais.

By emprezaz

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