Projeto de R$ 20 milhões usa IA e mercado de carbono para manter 14 mil hectares de floresta em pé em Roraima

Uma área de 14 mil hectares de Floresta Amazônica em Caracaraí, Roraima, que estava sob perspectiva de desmatamento legal para expansão da produção de soja, tornou-se palco de uma experiência que tenta demonstrar que conservar a vegetação nativa também pode ser economicamente competitivo.

Com investimento de R$ 20 milhões, o projeto combina mercado de carbono, monitoramento de incêndios com inteligência artificial, segurança jurídica da propriedade e ações voltadas às comunidades que vivem da coleta da castanha-do-Pará no entorno da floresta.

A iniciativa é desenvolvida pela ZEG (Zero Emission Goal), empresa paulista especializada em soluções de descarbonização.

O estoque de carbono da área ainda não foi comercializado, mas o projeto recebeu classificação AA da agência BeZero. Segundo a ZEG, trata-se da primeira nota duplo A concedida a um projeto de carbono na Amazônia e também da primeira, em escala mundial, para um projeto de desmatamento evitado.

Área poderia ser convertida para produção de soja

A origem do projeto está diretamente relacionada às regras de proteção da vegetação nativa em Roraima.

Pelo Código Florestal, imóveis rurais situados em áreas de floresta na Amazônia Legal devem, como regra, manter 80% de Reserva Legal.

A legislação, entretanto, admite que estados com mais de 65% de seu território ocupado por unidades de conservação de domínio público e terras indígenas possam reduzir essa exigência para até 50%, quando possuírem Zoneamento Ecológico-Econômico aprovado nos termos legais.

Roraima concluiu seu zoneamento em 2022. No caso da propriedade de Caracaraí, isso criou a possibilidade jurídica de destinar metade da área à produção agropecuária.

Segundo Carlos Jacob, diretor-presidente da ZEG, o proprietário, um produtor rural de soja de Goiás, havia solicitado autorização para realizar a supressão legal da vegetação.

A empresa tomou conhecimento do processo e apresentou uma alternativa: conservar a floresta e buscar retorno econômico a partir do carbono armazenado na vegetação.

O produtor aderiu à proposta.

Direito sobre área foi cedido por 40 anos

Antes de iniciar a comercialização dos estoques de carbono, o projeto passou por uma etapa de regularização e segurança jurídica.

Foi realizada uma reconstrução da cadeia dominial da propriedade, destinada a verificar o histórico da titularidade e reduzir riscos relacionados à posse da terra.

O proprietário também realizou a cessão do direito real de superfície por 40 anos, período correspondente à duração prevista do contrato para comercialização dos estoques de carbono.

A preocupação jurídica está relacionada a um dos principais problemas enfrentados pelo mercado voluntário de carbono florestal nos últimos anos.

Segundo Carlos Jacob, entre 2021 e 2023, o setor passou por uma crise de credibilidade associada, entre outros fatores, à superestimação da quantidade de emissões evitadas e à comercialização de créditos relacionados a áreas com sobreposição a terras públicas.

O modelo desenvolvido em Roraima tenta responder a essas fragilidades combinando regularização fundiária, certificação independente e monitoramento permanente da floresta.

Torre com inteligência artificial monitora incêndios

O fogo é apontado pelos responsáveis pelo projeto como um dos principais riscos para a manutenção dos estoques de carbono.

Para enfrentá-lo, uma torre de 60 metros de altura foi instalada na área.

No topo da estrutura, uma câmera associada a um sistema de inteligência artificial realiza o monitoramento da floresta e consegue identificar possíveis focos de incêndio.

Segundo Cineone Silva, coordenador de operações de campo da ZEG, a câmera completa uma rotação de 360 graus em aproximadamente três minutos. Quando o sistema identifica um foco, gera um relatório indicando a localização para que as equipes possam ser deslocadas.

As 20 pessoas que integram a equipe local receberam treinamento da brigada interna de incêndio.

Como o alcance do equipamento ultrapassa os limites da propriedade, brigadas comunitárias de dois assentamentos vizinhos também receberam atualização de treinamento para combate ao fogo.

A tecnologia, nesse caso, não serve apenas para proteger árvores. Um incêndio de grandes proporções poderia comprometer o próprio estoque de carbono que sustenta economicamente o projeto.

Conservação mantém coleta de castanha por 36 famílias

A decisão de manter a floresta também teve consequência direta para as comunidades do entorno.

Cerca de 36 famílias de assentamentos vizinhos, que utilizam a coleta da castanha-do-Pará como fonte de renda, puderam continuar entrando na área para desenvolver a atividade extrativista.

Entre os moradores está João Inácio Neto, que aprendeu a coletar castanhas ainda criança com o pai.

O extrativista relatou à Agência Brasil ter acompanhado, nos últimos 15 anos, a transformação da região com o avanço do agronegócio e da soja. Quando soube que a propriedade havia sido vendida, temeu que os moradores perdessem também o acesso aos castanhais.

Com a conservação da área, a coleta foi mantida.

Mas o projeto foi além da simples autorização de acesso à floresta.

Extrativistas criaram associação para negociar produção

As famílias receberam capacitação e apoio para criação da Associação Agroextrativista do Município de Caracaraí (Agrocar).

A organização permitiu que os extrativistas passassem a reunir a produção e negociar coletivamente a castanha, em vez de depender exclusivamente da venda individual para atravessadores.

Eliane de Sena, extrativista e secretária da Agrocar, afirma que a organização coletiva melhorou a dinâmica da última safra e abriu perspectivas para conseguir preços mais vantajosos.

A venda conjunta permite reunir maior volume, organizar a pesagem e ampliar o poder de negociação das famílias.

Segundo Carlos Jacob, preços melhores também podem criar condições para aperfeiçoar a logística e o transporte da produção e possibilitar maior aproveitamento dos produtos derivados da castanha.

Nesse aspecto, o projeto conecta duas formas de gerar valor econômico com a mesma floresta: de um lado, o carbono mantido na vegetação; de outro, os produtos da sociobiodiversidade utilizados pelas populações locais.

Projeto investiu R$ 20 milhões

O investimento total informado para implantação do empreendimento chegou a R$ 20 milhões, valor que inclui a estrutura de conservação e o processo de certificação dos estoques de carbono.

O projeto utiliza certificação da Verra e auditoria da Earthood, além da avaliação de qualidade dos créditos realizada pela BeZero.

O estoque de carbono ainda não chegou ao mercado.

Mesmo antes da comercialização, entretanto, a classificação AA obtida pelo projeto é apresentada pela empresa como um indicador de qualidade capaz de aumentar a confiança de potenciais compradores.

Mercado de carbono tenta superar crise de confiança

A experiência em Roraima ocorre em um momento de transformação do mercado voluntário de carbono.

Projetos de desmatamento evitado partem, de forma simplificada, da ideia de demonstrar que determinada floresta corria risco real de ser derrubada e que uma intervenção tornou possível mantê-la preservada.

A quantidade de emissões de gases de efeito estufa que deixaria de chegar à atmosfera pode então ser convertida, conforme metodologias específicas e processos de certificação, em créditos negociáveis.

É justamente a demonstração desse cenário hipotético — o que aconteceria com a floresta sem o projeto — que historicamente provoca debates sobre a integridade de determinados créditos.

No caso de Caracaraí, a existência de uma possibilidade legal de supressão da vegetação e do pedido feito pelo proprietário é utilizada pelo projeto como parte da fundamentação do risco de desmatamento.

Floresta em pé precisa competir economicamente

A experiência também coloca uma questão maior para o futuro econômico da Amazônia.

Em áreas privadas onde a legislação permite a conversão de parte da vegetação, conservar significa disputar economicamente com atividades capazes de gerar retorno a partir da substituição da floresta.

O projeto de Caracaraí tenta inverter essa lógica combinando diferentes elementos: receita potencial dos créditos de carbono, proteção contra incêndios, valorização dos produtos florestais e inclusão das comunidades extrativistas.

A experiência ainda precisará enfrentar uma prova decisiva: os estoques de carbono certificados ainda não foram comercializados.

Por isso, embora os resultados iniciais indiquem avanços na conservação e na organização dos extrativistas, a sustentabilidade financeira de longo prazo dependerá também da capacidade de transformar os créditos certificados em receita.

Se isso ocorrer, os 14 mil hectares de Caracaraí poderão servir como um exemplo concreto de uma das questões centrais para a Amazônia contemporânea: como fazer com que manter a floresta em pé seja economicamente mais atraente do que derrubá-la.

By emprezaz

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