Mercúrio nos peixes muda alimentação de comunidades ribeirinhas na Amazônia

Redação Planeta Amazônia

O peixe, alimento que durante gerações sustentou comunidades indígenas e ribeirinhas da Amazônia, tornou-se também uma das principais vias de exposição ao mercúrio utilizado na mineração de ouro. Na bacia do rio Madeira, famílias já começaram a modificar a própria alimentação depois que exames revelaram concentrações elevadas do metal em seus organismos.

Uma investigação da Mongabay Latam, baseada na análise de 42 estudos científicos publicados entre 1997 e 2024, reuniu mais de 7 mil amostras de mercúrio em seres humanos e 5,9 mil em peixes coletadas em áreas amazônicas do Brasil, Peru e Bolívia.

Os dados indicam que moradores de pelo menos 249 comunidades indígenas e ribeirinhas estiveram expostos à contaminação ao longo de 27 anos. Outras 702 comunidades estão em áreas consideradas de risco por estarem localizadas entre focos de mineração ilegal e locais onde pessoas já apresentaram mercúrio no organismo.

No Brasil, a investigação estima que moradores de pelo menos 286 comunidades indígenas e ribeirinhas ainda desconhecem a quantidade de mercúrio presente em seus corpos e os riscos decorrentes da exposição contínua.

No Puruzinho, peixe deixou de ser consumido como antes

Uma das situações mais preocupantes foi identificada na comunidade Lago do Puruzinho, localizada a cerca de 20 quilômetros de Humaitá, no Amazonas.

Cerca de 170 pessoas vivem na comunidade e, durante décadas, consumiram diferentes espécies de peixe encontradas no lago.

O problema é que, embora não exista mineração de ouro dentro do Puruzinho, suas águas estão conectadas ao rio Madeira, onde o garimpo utiliza mercúrio. O metal pode ser transportado pelo sistema fluvial e acumulado nos organismos aquáticos, chegando posteriormente aos seres humanos por meio da alimentação.

É o que aconteceu com a pescadora e dona de casa Maria Rogelina Soares da Silva dos Santos.

Ela participa há 26 anos de estudos realizados pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR) sobre os efeitos da contaminação por mercúrio nos peixes e na população.

Quando os exames mostraram concentrações elevadas do metal em seu cabelo, a família decidiu reduzir drasticamente o consumo de espécies que faziam parte de sua alimentação cotidiana, especialmente o tucunaré.

Níveis chegaram a mais de 12 vezes o limite da OMS

Um estudo publicado em 2024 identificou entre moradores do Lago do Puruzinho concentrações médias de mercúrio no cabelo variando entre 15,61 e 25,81 miligramas por quilograma.

O limite de segurança utilizado como referência da Organização Mundial da Saúde (OMS) no estudo é de 2 miligramas por quilograma.

Isso significa que, no extremo superior da média registrada, a concentração chegou a quase 13 vezes o valor de referência. Os pesquisadores classificaram os níveis encontrados como alguns dos mais elevados já registrados na bacia do Madeira.

Outros estudos considerados pela investigação analisaram aproximadamente 76 amostras humanas e mais de 2 mil amostras de peixes relacionadas ao Lago do Puruzinho.

Os resultados apontaram concentrações de mercúrio entre três e sete vezes acima do limite seguro da OMS entre as pessoas avaliadas. Tucunarés e curimatãs aparecem entre as espécies afetadas.

Peixe é principal caminho do mercúrio até o organismo

O problema ocorre devido a um processo conhecido como bioacumulação.

Uma vez introduzido no ambiente, o mercúrio pode ser transformado em metilmercúrio, sua forma orgânica, e incorporado pelos organismos aquáticos. À medida que pequenos animais são consumidos por outros maiores, a substância vai se acumulando ao longo da cadeia alimentar.

Peixes predadores podem apresentar concentrações mais elevadas.

Ronaldo de Almeida, pesquisador da UNIR e coautor de diferentes estudos sobre o Madeira, explica que o pescado acaba sendo a principal via de ingestão de mercúrio para as populações amazônicas analisadas.

O metilmercúrio preocupa particularmente porque possui baixa taxa de eliminação pelo organismo humano e pode se acumular ao longo do tempo.

Segundo Almeida, a exposição prolongada está associada a problemas neurológicos, cardiológicos e de orientação, entre outros danos à saúde.

“A gente estava numa inocência”

Raimundo Nonato dos Santos, marido de Maria Rogelina e presidente da Associação de Desenvolvimento da Comunidade do Lago do Puruzinho, vive às margens do lago há 55 anos.

Durante grande parte da vida, peixes como pintado e tucunaré fizeram parte da alimentação da família.

A percepção mudou depois dos resultados das pesquisas.

Raimundo descreveu à Mongabay que os moradores viviam em uma espécie de “inocência”, sem saber que o metal pesado poderia estar sendo incorporado ao organismo através de um alimento consumido durante toda a vida.

O dilema é particularmente complexo porque simplesmente retirar o peixe da alimentação não é uma solução simples.

Para muitas comunidades amazônicas, o pescado constitui a principal fonte de proteína, além de possuir importância cultural e econômica.

A professora Renata Vieira Guacebe, moradora do Puruzinho e bolsista em pesquisas da UNIR, continua consumindo peixe três ou quatro vezes por semana. Ela relata preocupação sobre como as famílias poderão manter sua alimentação tradicional caso a contaminação continue avançando — e até mesmo sobre a segurança da água utilizada pelos moradores.

Em Calama, mercúrio supera quatro vezes limite de referência

O problema se estende para Rondônia.

Na comunidade ribeirinha de Calama, estudos analisados pela investigação encontraram uma concentração média de 9 microgramas de mercúrio por grama de cabelo entre 34 moradores avaliados.

O valor é mais de quatro vezes superior aos 2 microgramas por grama utilizados como referência de segurança pela OMS.

A realidade local revela também uma contradição social.

Parte dos moradores depende direta ou indiretamente da mineração de ouro para sobreviver, enquanto a mesma atividade está associada à introdução do mercúrio no ambiente.

A investigação encontrou ainda moradores que demonstram desconfiança em relação aos riscos apontados pelos estudos e continuam consumindo pescado normalmente.

Terra Indígena Karipuna enfrenta contaminação e escassez de peixes

A situação também preocupa os indígenas Karipuna, em Rondônia.

A Terra Indígena Karipuna possui aproximadamente 153 mil hectares e abriga 63 pessoas. Além das invasões para exploração ilegal de madeira e caça, os indígenas enfrentam redução da disponibilidade de peixes e preocupação crescente com a contaminação.

Segundo o líder indígena Adriano Karipuna, há cerca de dez anos era possível capturar grandes quantidades de pescado em pouco tempo. Atualmente, os indígenas podem passar seis horas pescando e conseguir apenas quatro peixes.

O pirarucu, tradicionalmente consumido pelos Karipuna, também entrou no centro das preocupações.

Um estudo publicado em 2022 encontrou mercúrio nos tecidos musculares de exemplares analisados. Os pesquisadores alertaram para a bioacumulação da substância considerando a importância do peixe na alimentação das populações ribeirinhas e também seu amplo consumo nos centros urbanos amazônicos.

Eduardo Bessa, professor de Biologia da Universidade de Brasília (UnB), explica que o problema ganha dimensão justamente porque o mercúrio se acumula nos tecidos dos peixes — inclusive na musculatura consumida pelas pessoas.

Além disso, peixes migratórios podem circular por áreas influenciadas por diferentes afluentes e transportar consigo a contaminação acumulada.

Adriano Karipuna defende a realização de exames em toda a população da Terra Indígena, incluindo idosos, crianças e adolescentes, além da análise de diferentes espécies de peixes consumidas pela comunidade.

Brasil ainda não tem plano setorial vigente para Convenção de Minamata

O Brasil é signatário desde 2013 da Convenção de Minamata sobre Mercúrio, tratado internacional destinado a controlar o uso, a comercialização, as emissões e a liberação da substância.

A convenção foi promulgada no país em 2018.

Apesar disso, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) informou à Mongabay que o Brasil ainda não possui um Plano Setorial vigente de implementação da Convenção de Minamata.

O Ministério de Minas e Energia (MME) prepara o Plano Nacional de Ação para a Mineração Artesanal e em Pequena Escala de Ouro, o Pan-mape. A proposta prevê diagnóstico das práticas de mineração, alternativas tecnológicas ao mercúrio, assistência técnica e reforço da fiscalização e do controle sobre a substância. A minuta está em consulta pública até 9 de setembro.

O processo, entretanto, recebeu críticas do Ministério Público Federal (MPF).

Segundo o órgão, dos 1.145 entrevistados durante a fase inicial do levantamento, 1.051 eram garimpeiros e 51 gestores, enquanto nenhum indígena, ribeirinho ou representante de organização socioambiental foi ouvido nessa etapa.

Governo diz não ter ação específica para mercúrio no Madeira

Outro dado chama atenção diante da dimensão do problema.

O MMA informou que mantém, em parceria com outros órgãos federais, ações de monitoramento ambiental relacionadas ao mercúrio em terras indígenas Yanomami, em Roraima.

Entretanto, segundo as respostas fornecidas à investigação, não há atualmente uma ação específica para a contaminação por mercúrio no rio Madeira.

A pasta afirmou ainda não possuir estudos, relatórios ou análises próprios sobre a contaminação na bacia e informou que, no momento da resposta, não havia medidas ou orçamento destinados especificamente ao enfrentamento do problema no Madeira.

Já o Ministério da Saúde informou que, nos últimos 20 anos, foram registrados 30 casos de intoxicação por mercúrio no Amazonas e 12 em Rondônia, ressaltando que os números correspondem às internações estaduais e não constituem um levantamento específico da população da bacia do Madeira.

Contaminação ameaça alimento central da vida amazônica

Os números ajudam a revelar uma dimensão do garimpo ilegal que não aparece apenas nas imagens de dragas, balsas ou áreas degradadas.

O mercúrio lançado nos sistemas fluviais pode percorrer longas distâncias, entrar na cadeia alimentar e atingir comunidades que não possuem atividade de mineração dentro de seus territórios.

No Lago do Puruzinho, essa realidade já alterou algo profundamente ligado ao modo de vida amazônico: a relação das famílias com o peixe.

Reduzir o consumo de tucunaré, pintado, pirarucu ou outras espécies não representa simplesmente substituir um item do cardápio. Para comunidades que dependem historicamente da pesca, significa modificar uma fonte essencial de proteína, uma atividade econômica e práticas transmitidas entre gerações.

A investigação mostra, assim, que os impactos do mercúrio podem permanecer muito depois de uma draga deixar determinado ponto do rio.

O metal entra nos organismos, acumula-se nos peixes e pode transformar um dos alimentos mais importantes da Amazônia em uma fonte silenciosa de exposição para as próprias populações que dependem dos rios para sobreviver.

By emprezaz

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