Mercúrio ameaça 951 comunidades indígenas e ribeirinhas na Amazônia, aponta análise

Uma extensa análise sobre a presença de mercúrio na Amazônia revela a dimensão de uma ameaça que atravessa fronteiras e acompanha o curso dos rios.

A investigação conduzida pela Mongabay Latam identificou 249 comunidades indígenas e ribeirinhas do Brasil, Bolívia e Peru que já apresentaram exposição ao mercúrio em estudos científicos. Outras 702 comunidades foram classificadas como potencialmente em risco, embora ainda não tenham sido avaliadas da mesma forma.

Somados, são 951 territórios comunitários inseridos no mapa de ameaça construído pela investigação ao longo das bacias dos rios Madeira, Beni e Madre de Dios.

Para dimensionar o problema, a equipe analisou 39 estudos científicos publicados entre 1997 e 2024, georreferenciou comunidades, cruzou informações sobre focos de mineração e acompanhou a rota potencial da contaminação ao longo de 2.763 quilômetros de rios amazônicos.

O levantamento reúne ainda 7.725 amostras de mercúrio em pessoas e 5.939 amostras de tecidos de peixes, oferecendo uma das visões mais abrangentes já produzidas sobre a exposição ao metal pesado nessa parte da Amazônia.

249 comunidades já apresentaram exposição

A diferença entre os dois grupos identificados pela investigação é fundamental.

Nas 249 comunidades, existem estudos científicos com amostras de moradores que demonstram exposição ao mercúrio. Quase todas apresentaram resultados superiores aos valores considerados seguros utilizados como referência pela Organização Mundial da Saúde nos estudos analisados.

Já as outras 702 comunidades não podem ser consideradas comprovadamente contaminadas.

Elas foram identificadas por análise geoespacial porque estão situadas em áreas onde a exposição é considerada plausível, próximas aos três rios estudados e entre pontos de mineração e comunidades onde a presença do metal já foi detectada.

Por isso, os pesquisadores consultados pela investigação recomendam classificá-las como populações potencialmente em risco até que exames possam determinar a situação dos moradores.

A distinção evidencia outro problema: centenas de comunidades vivem em áreas consideradas vulneráveis sem saber qual é o nível de mercúrio presente em seus corpos.

Madeira conecta Brasil ao problema transfronteiriço

No Brasil, a investigação se concentrou principalmente na bacia do rio Madeira, que atravessa Rondônia e Amazonas e está hidrologicamente conectada aos rios Beni, na Bolívia, e Madre de Dios, no Peru.

Essa conexão ajuda a explicar por que a contaminação não respeita fronteiras nacionais.

O mercúrio liberado ou mobilizado em uma parte do sistema fluvial pode ser transportado para áreas situadas rio abaixo.

Segundo Luis Fernández, professor e pesquisador de Biologia da Wake Forest University e um dos especialistas que assessoraram a investigação, a conexão entre os três rios torna plausível um risco transfronteiriço e justifica analisar a contaminação na escala da bacia.

A equipe da Mongabay acompanhou essa rota por mais de 2,7 mil quilômetros.

Peixe é uma das principais vias de exposição

O problema chega às pessoas principalmente por meio de um alimento essencial para inúmeras populações amazônicas: o peixe.

Quando o mercúrio alcança os ambientes aquáticos, parte dele pode ser transformada em metilmercúrio, uma forma altamente tóxica capaz de entrar na cadeia alimentar.

Organismos menores absorvem a substância e são consumidos por peixes. Esses animais, por sua vez, servem de alimento para espécies maiores.

O processo provoca bioacumulação e biomagnificação: a concentração do contaminante aumenta nos organismos e pode se tornar maior à medida que avança pela cadeia alimentar.

Por essa razão, espécies predadoras tendem a apresentar concentrações mais elevadas.

A investigação analisou 5.939 amostras de tecidos de peixes coletadas entre 1997 e 2024 e encontrou espécies com concentrações elevadas de mercúrio nas três bacias estudadas.

Foram identificadas pelo menos 19 espécies no Brasil, 15 na Bolívia e duas no Peru nessa situação.

Para comunidades onde o pescado constitui uma das principais fontes de proteína, a contaminação cria um dilema particularmente grave: reduzir o consumo pode significar abrir mão de um alimento fundamental para a segurança alimentar e para a cultura local.

Lago Puruzinho está entre os casos mais preocupantes

Um dos exemplos brasileiros abordados pela investigação está no Lago Puruzinho, no Amazonas.

A comunidade ribeirinha é estudada há mais de duas décadas por pesquisadores da Universidade Federal de Rondônia (Unir).

Moradores como Raimundo Nonato dos Santos e Maria Rogelina Soares da Silva dos Santos passaram anos consumindo espécies pescadas no próprio lago até que pesquisas começaram a revelar concentrações elevadas de mercúrio.

Os estudos realizados na comunidade registraram alguns dos maiores níveis encontrados na bacia do Madeira.

A descoberta produziu mudanças na alimentação das famílias, que passaram a evitar ou reduzir o consumo de determinadas espécies.

O caso demonstra uma característica preocupante da contaminação: a fonte de exposição pode estar distante do local onde vivem as pessoas afetadas.

Não é necessário que exista garimpo dentro de uma comunidade para que o mercúrio chegue aos peixes consumidos pelos moradores.

Terra Indígena Karipuna também enfrenta o problema

Em Rondônia, a investigação acompanhou ainda a situação do povo Karipuna.

O líder indígena Adriano Karipuna relatou uma combinação de dois problemas: a diminuição da quantidade de peixes disponíveis e a preocupação com a contaminação daqueles que ainda são capturados.

A situação amplia os impactos sobre comunidades que dependem dos rios não apenas para alimentação, mas também para atividades culturais e para sua própria organização territorial.

Na prática, o mercúrio transforma um recurso tradicionalmente associado à segurança alimentar em potencial fonte de exposição a uma substância tóxica.

702 comunidades vivem sem saber se estão contaminadas

Para localizar populações que poderiam estar expostas sem terem sido avaliadas, a investigação georreferenciou as comunidades já estudadas e os focos ativos de mineração nas três bacias.

Em seguida, foram identificadas localidades situadas a até dois quilômetros das margens dos rios e posicionadas entre áreas de mineração e comunidades onde a exposição já havia sido constatada.

O resultado foi a identificação de 702 comunidades potencialmente em risco.

Luis Fernández ressalta que os dois quilômetros constituem um critério exploratório de seleção espacial, e não uma fronteira absoluta para a exposição.

Isso porque o risco pode alcançar distâncias maiores por meio da pesca, das cheias sazonais, do deslocamento dos peixes e das redes de comércio e troca de alimentos.

Assim, as 702 comunidades representam locais onde novos estudos e avaliações sanitárias seriam necessários para confirmar ou afastar a exposição.

Brasil tem centenas de comunidades sem avaliação

A investigação evidencia uma grande lacuna de informações no lado brasileiro da bacia.

Ao responder aos questionamentos da Mongabay, o Ministério da Saúde informou que, nos últimos 20 anos, foram registrados 30 casos de intoxicação por mercúrio no Amazonas e 12 em Rondônia, mas não detalhou as comunidades onde ocorreram.

Esses registros oficiais não representam necessariamente a dimensão da exposição apontada pelos estudos científicos, já que uma coisa é detectar mercúrio em pesquisas populacionais e outra é registrar formalmente um caso de intoxicação no sistema de saúde.

A ausência de avaliações sistemáticas deixa comunidades potencialmente expostas sem diagnóstico sobre a quantidade do metal presente no organismo de seus moradores.

Garimpo de ouro está no centro da contaminação

O mercúrio é historicamente utilizado na mineração de ouro porque se liga ao metal precioso e facilita sua separação de outros materiais.

O problema surge quando a substância é liberada no ambiente.

Uma vez nos rios, o contaminante pode percorrer grandes distâncias e entrar na cadeia alimentar, fazendo com que os impactos ultrapassem os locais onde ocorre diretamente a atividade garimpeira.

No Brasil, a investigação aponta ainda dificuldades no controle da circulação ilegal do produto.

Embora normas tenham restringido a importação e utilização, o próprio governo reconhece a existência de um mercado clandestino envolvendo empresas de fachada, falsificação documental e contrabando.

Em 2024, segundo os dados levantados pela Mongabay, o Brasil ainda importou oficialmente 12 toneladas de mercúrio.

Brasil ainda enfrenta lacunas na implementação da Convenção de Minamata

O país é signatário da Convenção de Minamata sobre Mercúrio, tratado internacional criado para proteger a saúde humana e o meio ambiente dos efeitos do metal.

Apesar disso, informações obtidas pela investigação por meio de pedidos de acesso à informação apontaram lacunas na implementação de medidas específicas.

O Ministério do Meio Ambiente informou à Mongabay que o Brasil não possuía, naquele momento, um plano setorial vigente para implementação da Convenção de Minamata relacionado ao problema investigado.

A apuração também identificou ausência de estudos governamentais abrangentes sobre a contaminação por mercúrio na bacia do Madeira.

Essa falta de informações oficiais contrasta com a quantidade de pesquisas acadêmicas que vêm detectando exposição em populações amazônicas há décadas.

Pesquisas existem há quase três décadas

Os estudos reunidos pela investigação foram publicados entre 1997 e 2024.

Ou seja, a presença de mercúrio em comunidades amazônicas não constitui um fenômeno descoberto recentemente.

A novidade está na tentativa de reunir resultados dispersos, padronizar as informações e visualizar geograficamente a extensão potencial do problema.

A Mongabay conseguiu confirmar que pelo menos sete dos estudos utilizados haviam sido encaminhados às autoridades competentes dos três países.

Segundo a investigação, apenas um deles, no Peru, resultou em uma ação concreta diretamente associada ao estudo.

Um problema que atravessa fronteiras

Ao colocar lado a lado os dados de Brasil, Bolívia e Peru, a análise evidencia que o mercúrio deve ser compreendido como um problema de escala amazônica.

Os rios que transportam água, peixes e pessoas também podem transportar contaminantes.

E as populações que sofrem as consequências nem sempre estão próximas dos pontos onde o mercúrio foi originalmente liberado.

Das 951 comunidades identificadas pela investigação, 249 possuem evidências científicas de exposição e outras 702 estão localizadas em áreas consideradas potencialmente vulneráveis.

Essa diferença precisa ser preservada para não transformar risco em diagnóstico.

Mas ela também evidencia a principal lacuna revelada pelo levantamento: centenas de comunidades amazônicas vivem em áreas onde a exposição ao mercúrio é plausível sem que seus moradores tenham sido avaliados para saber se o metal já chegou aos seus corpos.

A investigação transforma estudos produzidos ao longo de quase três décadas em um mapa regional de uma ameaça invisível — uma contaminação capaz de viajar pelos rios e chegar à mesa de populações que dependem deles para viver.

By emprezaz

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