Redação Planeta Amazônia
Famílias extrativistas que vivem na Floresta Nacional de Humaitá, no sul do Amazonas, iniciaram uma nova etapa do projeto Sanear Amazônia, iniciativa voltada à ampliação do acesso à água de qualidade e ao saneamento em comunidades tradicionais da região.
A fase envolve a capacitação comunitária em gestão da água e saúde ambiental, preparando os moradores para a implantação e utilização das tecnologias sociais previstas pelo programa.
Mais do que instalar estruturas físicas, a proposta é fazer com que as próprias comunidades compreendam o funcionamento, a gestão e os cuidados necessários para garantir a qualidade da água utilizada no consumo humano e nas atividades produtivas.
A iniciativa faz parte de uma estratégia mais ampla que deverá alcançar 3.690 famílias de territórios extrativistas em cinco estados da Amazônia Legal: Acre, Amapá, Amazonas, Pará e Rondônia. O projeto é financiado com recursos do Fundo Amazônia.
Água em abundância não significa água segura
O desafio enfrentado pelas comunidades amazônicas evidencia uma realidade que pode parecer contraditória.
Mesmo vivendo em uma região marcada pela abundância de rios, lagos e igarapés, inúmeras famílias de áreas rurais e extrativistas não dispõem de sistemas adequados de tratamento e abastecimento de água.
O próprio diagnóstico do Sanear Amazônia aponta que a falta de saneamento, a contaminação de corpos hídricos por atividades como garimpo ilegal, uso de agrotóxicos e descarte inadequado de resíduos aumentam os riscos relacionados ao consumo da água.
As mudanças climáticas e a intensificação das estiagens também acrescentam pressão sobre a disponibilidade de água de qualidade para essas populações.
O problema não termina no consumo humano. A disponibilidade hídrica interfere ainda na agricultura familiar, criação de animais, segurança alimentar e capacidade de geração de renda das comunidades.
Formação vem antes da implantação das tecnologias
A capacitação realizada na Flona de Humaitá integra o processo que antecede a instalação das tecnologias sociais de acesso à água.
A metodologia adotada pelo Sanear Amazônia combina infraestrutura com formação e acompanhamento das famílias.
Em outras comunidades amazônicas que já avançaram nessa etapa, o percurso formativo foi organizado em três frentes: Gestão Comunitária da Água e Saúde Ambiental; Gestão da Água para Produção de Alimentos; e Formação Técnica para Construção das Tecnologias.
A ideia é que o conhecimento técnico dialogue com a experiência acumulada pelos moradores sobre rios, igarapés, períodos de cheia e seca e outras características dos territórios.
Essa participação é considerada importante para que as soluções instaladas possam continuar funcionando depois da implantação.
Sanear Amazônia prevê 3.690 tecnologias de acesso à água
Em sua configuração atualmente contratada pelo Fundo Amazônia, o projeto prevê a implantação de 3.690 tecnologias sociais de acesso à água, uma para cada família contemplada nos cinco estados.
As ações são destinadas especialmente a comunidades rurais de baixa renda e povos e comunidades tradicionais.
Além da infraestrutura para acesso à água, o projeto inclui atividades formativas, acompanhamento individual e coletivo e iniciativas destinadas à inclusão social e produtiva.
A estratégia utiliza conhecimentos e modelos desenvolvidos no âmbito do Programa Cisternas, adaptando tecnologias sociais às condições encontradas nos territórios amazônicos.
Projeto recebeu R$ 49,2 milhões até 2026
O Sanear Amazônia é financiado pelo Fundo Amazônia, administrado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Dados oficiais do Fundo mostram que o projeto foi aprovado em junho de 2025 e contratado no mesmo mês.
Até abril de 2026, haviam sido realizados dois desembolsos: R$ 3,09 milhões em agosto de 2025 e R$ 46,19 milhões em abril deste ano, totalizando aproximadamente R$ 49,29 milhões.
O prazo previsto para utilização dos recursos vai até dezembro de 2027.
A execução é realizada pelo Memorial Chico Mendes, com participação de organizações selecionadas para atuar diretamente nos diferentes territórios.
Projeto alcança cinco estados amazônicos
As ações não estão restritas ao Amazonas.
A abrangência inclui comunidades do Acre, Amapá, Amazonas, Pará e Rondônia, com foco em territórios onde a dificuldade de acesso a sistemas convencionais de abastecimento torna necessárias soluções adaptadas à realidade local.
A chamada pública que deu origem à iniciativa foi direcionada a áreas como Reservas Extrativistas (Resex), Florestas Nacionais (Flona), comunidades remanescentes de quilombos e projetos de assentamento agroextrativistas.
Esses territórios apresentam características distintas das cidades, onde normalmente existem redes centralizadas de abastecimento.
Distâncias, dispersão das moradias, acesso predominantemente fluvial e variações entre períodos de cheia e seca exigem soluções específicas.
Água também é condição para manter o extrativismo
A iniciativa associa o acesso à água à permanência das famílias nos territórios e à manutenção das atividades produtivas.
Segundo a estrutura oficial do projeto, melhorar a disponibilidade de água deve contribuir para produção sustentável, segurança alimentar e geração de renda, além de fortalecer cadeias de valor da sociobiodiversidade.
Essa relação é especialmente relevante em comunidades onde agricultura familiar, pesca e extrativismo estão diretamente vinculados às condições ambientais.
Sem água segura para consumo e produção, aumentam as dificuldades para manter atividades econômicas e garantir alimentação adequada.
Por isso, o Sanear Amazônia trata o saneamento também como instrumento de inclusão social e produtiva.
Flona de Humaitá vive momento de mudanças
A capacitação ocorre em um momento de atenção crescente sobre a Floresta Nacional de Humaitá.
Nesta semana, o Serviço Florestal Brasileiro assinou os contratos de concessão das Unidades de Manejo Florestal II e III da Flona, abrangendo 162,7 mil hectares.
Com os novos contratos, as três unidades de manejo existentes dentro da Floresta Nacional passam a totalizar 200,9 mil hectares sob manejo florestal sustentável.
Os contratos têm duração de 40 anos e, segundo o Ministério do Meio Ambiente, preveem investimentos e recursos destinados também a projetos socioambientais nas comunidades do entorno.
A chegada da etapa de capacitação do Sanear Amazônia acrescenta outra dimensão ao debate sobre desenvolvimento sustentável no território: garantir condições básicas de vida às populações que dependem da floresta.
Saneamento como questão de saúde
A qualidade da água está diretamente relacionada à prevenção de doenças transmitidas pela água e pelos alimentos.
Por isso, entre os resultados esperados oficialmente pelo Sanear Amazônia está justamente a contribuição para controle e prevenção dessas enfermidades.
A experiência recente do projeto na Reserva Extrativista Verde para Sempre, no Pará, demonstra como essa abordagem funciona. Entre 24 e 28 de agosto, moradores das comunidades Juçara, Arimum e Por Ti Meu Deus receberam a primeira formação em gestão da água e saúde ambiental.
A capacitação abordou qualidade da água e prevenção de doenças, relacionando conhecimentos técnicos às práticas cotidianas das famílias.
Na Flona de Humaitá, a etapa agora iniciada segue essa lógica de preparar os moradores para participar da implementação e posteriormente da gestão das soluções de abastecimento.
Em uma região reconhecida mundialmente pela dimensão de seus recursos hídricos, o desafio colocado pelo projeto é elementar: fazer com que a água existente nos territórios amazônicos também possa chegar às famílias em condições adequadas para beber, produzir alimentos e viver com segurança.

