Estudos econômicos colocam na balança os recursos necessários para descarbonizar e adaptar o país e os impactos associados ao avanço da crise climática; Amazônia ocupa posição estratégica nesse processo
Transformar a economia brasileira para reduzir emissões de gases de efeito estufa, adaptar cidades aos eventos extremos e ampliar atividades produtivas de baixo carbono exigirá investimentos públicos e privados de longo prazo.
O desafio envolve recursos para energia, infraestrutura resiliente, recuperação ambiental, agricultura de baixo carbono, indústria, mobilidade, inovação e bioeconomia.
Mas o debate econômico sobre a transição ecológica apresenta também o outro lado dessa conta: não realizar os investimentos necessários não significa eliminar os custos. Significa conviver com perdas e riscos associados à intensificação das mudanças climáticas.
Secas, enchentes, ondas de calor e outros eventos extremos já fazem parte do cenário considerado pelo próprio Plano Nacional sobre Mudança do Clima (Plano Clima 2024–2035), principal instrumento brasileiro para orientar ações de mitigação e adaptação.
Nesse contexto, estudos desenvolvidos para avaliar o Plano de Transformação Ecológica (PTE) procuram medir se o investimento necessário para mudar a economia pode ser acompanhado por ganhos em produção, emprego e renda.
Transição ecológica não envolve apenas energia
Embora frequentemente associada à substituição dos combustíveis fósseis por fontes renováveis, a transformação ecológica proposta pelo governo brasileiro possui alcance mais amplo.
O Plano de Transformação Ecológica está organizado em seis eixos: Finanças Sustentáveis; Adensamento Tecnológico; Bioeconomia e Sistemas Agroalimentares; Transição Energética; Economia Circular; e Nova Infraestrutura Verde e Adaptação.
A estratégia utiliza instrumentos financeiros, fiscais, creditícios e regulatórios para direcionar recursos públicos e privados para atividades consideradas compatíveis com uma economia de baixo carbono.
Entre as iniciativas relacionadas ao plano estão o Fundo Clima, títulos soberanos sustentáveis, mercado regulado de carbono, Eco Invest Brasil, Taxonomia Sustentável Brasileira e mecanismos de financiamento por meio do BNDES e da Finep.
O objetivo declarado pelo governo é combinar redução das emissões com modernização produtiva, inovação e geração de empregos.
Mais de R$ 500 bilhões mobilizados
O volume financeiro envolvido já alcançou centenas de bilhões de reais.
Balanço divulgado pelo Ministério da Fazenda em julho de 2026 aponta que, até 2025, mais de R$ 500 bilhões haviam sido mobilizados entre expansão das fontes públicas e atração de capital privado para financiamento sustentável.
O montante não representa simplesmente dinheiro gasto diretamente pelo governo. Ele reúne diferentes mecanismos utilizados para mobilizar recursos destinados à transformação ecológica.
Entre eles estão instrumentos de mercado, crédito, recursos públicos e mecanismos concebidos para atrair capital privado nacional e internacional.
A estratégia parte do reconhecimento de que a escala da transição necessária dificilmente poderá ser financiada exclusivamente pelo orçamento público.
Estudo projeta cerca de 2 milhões de empregos
Um dos trabalhos utilizados para avaliar economicamente essa transformação foi desenvolvido pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA/PAGE) e pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com o Ministério da Fazenda.
Os pesquisadores construíram um modelo macroeconômico dinâmico e multissetorial para simular diferentes graus de implementação das políticas do Plano de Transformação Ecológica.
Foram analisados nove cenários, considerando efeitos sobre PIB, renda per capita, emprego, desigualdade, emissões de gases de efeito estufa e qualidade dos habitats.
Nos cenários modelados, a implementação integral do plano pode criar cerca de 2 milhões de empregos até 2035, além de contribuir para o crescimento econômico e acelerar a redução das emissões brasileiras.
Trata-se de uma projeção resultante da modelagem, e não de empregos já criados pelo programa.
Agricultura brasileira está no centro da transformação
O estudo possui uma particularidade importante para o Brasil.
Diferentemente de várias grandes economias, onde a produção e o consumo de energia representam parcela predominante das emissões, a estrutura brasileira possui forte participação das mudanças no uso da terra e da agropecuária.
Por isso, o modelo desenvolvido pela UFRJ incorporou módulos específicos para agropecuária, transportes, energia elétrica e qualidade dos habitats.
Entre as políticas analisadas aparecem agricultura e pecuária sustentáveis, recuperação de pastagens, eficiência energética, eletrificação, biocombustíveis, plantio florestal e tratamento de resíduos animais.
Essa característica coloca a conservação das florestas e a transformação da produção rural no centro da estratégia climática brasileira.
Amazônia pode transformar biodiversidade em atividade econômica
É justamente nesse ponto que a Amazônia assume papel estratégico.
Um dos seis eixos do plano é dedicado à bioeconomia e aos sistemas agroalimentares, com a proposta de gerar renda a partir dos recursos biológicos sem depender da destruição dos ecossistemas.
Entre as iniciativas oficiais estão incentivo a produtos florestais não madeireiros, sistemas agroflorestais, manejo sustentável, pagamento por serviços ambientais, concessões florestais e investimentos em pesquisa e desenvolvimento de biotecnologias.
O plano também inclui o Centro de Bionegócios da Amazônia, a retomada do Fundo Amazônia e o Arco da Restauração.
A lógica econômica é fazer com que a manutenção da floresta em pé tenha capacidade de gerar renda e competir com atividades que dependem da conversão da vegetação.
Para a Amazônia, portanto, a transição ecológica não se limita à redução de emissões. Ela envolve uma disputa sobre qual modelo econômico será capaz de produzir riqueza na região nas próximas décadas.
Adaptação também exige bilhões
Outra frente da transformação é preparar cidades e infraestrutura para condições climáticas mais extremas.
O eixo de infraestrutura verde e adaptação do Plano de Transformação Ecológica inclui medidas relacionadas a enchentes, secas, deslizamentos e ondas de calor.
Dentro das iniciativas federais associadas a essa agenda, o governo informa que o Novo PAC prevê R$ 15 bilhões para prevenção de desastres, incluindo contenção de encostas e drenagem, além de investimentos em saneamento e urbanização.
Esses gastos ajudam a demonstrar uma característica importante da adaptação climática: parte dos investimentos não tem como objetivo impedir a mudança do clima, mas reduzir os danos quando seus efeitos ocorrerem.
Estradas, sistemas de drenagem, abastecimento de água, redes elétricas e cidades precisam ser preparados para condições diferentes daquelas consideradas quando muitas dessas infraestruturas foram construídas.
O custo da inação também entra na conta
É nesse ponto que a discussão sobre o “custo” da transição ganha outra dimensão.
Investir em descarbonização e adaptação requer recursos. Mas comparar esse valor apenas com um cenário em que nada é gasto produz uma conta incompleta.
A ausência de adaptação não elimina enchentes, secas, ondas de calor ou perdas produtivas. Em um cenário de agravamento climático, esses eventos podem gerar despesas com reconstrução, interrupção de atividades econômicas, infraestrutura danificada e resposta emergencial.
Por isso, análises econômicas sobre clima costumam trabalhar com dois lados: o custo de agir e os riscos econômicos associados a não agir.
No caso brasileiro, a própria política climática federal parte do diagnóstico de que secas, enchentes, ondas de calor e elevação do nível do mar exigem ações coordenadas de adaptação.
Transição pode produzir ganhos econômicos, segundo modelagem
Os resultados da modelagem realizada pela UFRJ e pelo PNUMA/PAGE apontam que, nos cenários estudados, políticas de transformação ecológica podem ser acompanhadas por crescimento do PIB, aumento da renda per capita, criação de empregos, redução das emissões e melhora na qualidade dos habitats.
Isso não significa que toda política ambiental necessariamente produza retorno econômico positivo ou que os custos desapareçam.
Os resultados dependem das hipóteses utilizadas, do grau de implementação das medidas e das condições macroeconômicas consideradas nos nove cenários.
A conclusão central da modelagem é mais específica: nos cenários analisados, desenvolvimento econômico e redução de emissões não aparecem necessariamente como objetivos incompatíveis.
Quem vai financiar a transformação?
A escala dos investimentos coloca o financiamento entre os principais desafios.
A estratégia brasileira tenta combinar recursos públicos, bancos de desenvolvimento, mercado de capitais e investidores internacionais.
A Plataforma Brasil de Investimentos Climáticos e para a Transformação Ecológica (BIP), por exemplo, foi criada para ampliar investimentos destinados à descarbonização, ao uso sustentável dos recursos e à melhoria da qualidade de vida. O BNDES atua como secretariado da iniciativa.
A política de finanças sustentáveis também busca utilizar incentivos e desincentivos de acordo com os impactos ambientais e sociais das atividades econômicas.
O desafio será transformar essa arquitetura financeira em projetos executados em escala suficiente para alterar efetivamente a trajetória das emissões e aumentar a resiliência do país.
Para a Amazônia, a conta é ainda mais estratégica
A discussão sobre o custo da transição possui uma dimensão particular na Amazônia.
A região reúne grandes estoques de carbono, biodiversidade, recursos hídricos e possibilidades econômicas associadas à floresta. Ao mesmo tempo, enfrenta pressões relacionadas ao desmatamento, incêndios, secas e necessidade de infraestrutura e geração de renda.
Nesse cenário, a transição ecológica brasileira depende não apenas de instalar novas fontes de energia ou eletrificar transportes.
Depende também de encontrar mecanismos capazes de atribuir valor econômico à conservação, financiar atividades sustentáveis, recuperar áreas degradadas e tornar comunidades e cidades mais resistentes aos eventos extremos.
A transição terá custos e exigirá escolhas sobre a destinação de recursos públicos e privados.
O ponto levantado pelos estudos que embasam esse debate é que existe também uma conta associada à ausência ou ao atraso dessas transformações.
Para o Brasil — e especialmente para a Amazônia —, a discussão econômica sobre clima passa, portanto, menos pela ideia de escolher entre “gastar ou não gastar” e mais por definir onde, quando e como os recursos serão aplicados diante de riscos climáticos crescentes.

