A falta de saneamento básico e a destinação inadequada do lixo não representam apenas problemas de saúde pública. Elas também contribuem para as mudanças climáticas e tornam cidades e comunidades mais vulneráveis a secas, enchentes, contaminação da água e outros eventos extremos.
Dados reunidos pelo Observatório do Clima mostram que o setor de resíduos brasileiro foi responsável pela emissão de 95,7 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO₂e) em 2024, crescimento de 3,6% em comparação com o ano anterior. Abrema
O aumento foi associado principalmente ao tratamento de efluentes domésticos e industriais e à disposição final dos resíduos sólidos.
Ao mesmo tempo, milhões de brasileiros continuam sem acesso adequado a serviços essenciais. Cerca de 90 milhões de pessoas não têm acesso a esgoto tratado e 32 milhões ainda consomem água sem tratamento adequado, segundo números do Instituto Trata Brasil citados no levantamento. Abrema
O cenário evidencia uma relação que ganha cada vez mais importância diante da emergência climática: melhorar o saneamento e a gestão dos resíduos pode simultaneamente reduzir emissões, proteger a saúde e aumentar a capacidade de adaptação das populações.
Brasil despeja volume equivalente a milhares de piscinas de esgoto por dia
A dimensão do problema aparece no chamado Esgotômetro, mantido pelo Instituto Trata Brasil.
Segundo os dados apresentados pelo Observatório do Clima, aproximadamente o equivalente a 5,4 mil piscinas olímpicas de esgoto sem tratamento é despejado diariamente na natureza no Brasil. Abrema
As consequências chegam diretamente à saúde.
Somente em 2024, aproximadamente 340 mil pessoas foram internadas por doenças associadas à falta de saneamento, entre elas diarreia e leptospirose.
Os números utilizados pelo Trata Brasil são provenientes do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa), ligado ao Ministério das Cidades, e do Datasus, do Ministério da Saúde. Abrema
A ausência de tratamento adequado também contamina rios, solos e lençóis freáticos — justamente fontes das quais muitas comunidades dependem para obter água.
Amazônia exige soluções diferentes das grandes cidades
O desafio ganha características particulares na Amazônia.
Comunidades rurais, ribeirinhas e isoladas podem estar localizadas próximas a grandes rios e, ainda assim, enfrentar dificuldades para acessar água própria para consumo humano.
Para Angelo Lima, secretário-executivo do Observatório das Águas, resolver esses problemas nem sempre significa construir grandes sistemas convencionais de infraestrutura.
Em comunidades isoladas, intervenções menores e adaptadas às condições locais podem produzir resultados mais rápidos.
Como exemplo, Lima menciona filtros de nanotecnologia distribuídos pelo Projeto Saúde e Alegria em comunidades amazônicas, capazes de tornar a água potável. Para o tratamento de esgoto em áreas rurais, outra alternativa são as fossas biodigestoras.
A discussão reforça a necessidade de considerar as particularidades territoriais na busca pela universalização do saneamento.
Uma solução adequada para uma região metropolitana pode não ser economicamente viável ou tecnicamente apropriada para uma comunidade amazônica distante dos grandes centros.
Quase um terço dos municípios ainda utiliza lixões
O problema também está na destinação do lixo.
Apesar de a coleta alcançar 93% dos domicílios brasileiros, aproximadamente 4,7 milhões de residências ainda queimavam seus resíduos em 2024.
Além disso, quase 32% dos municípios brasileiros ainda destinam resíduos sólidos para lixões, segundo os dados apresentados na reportagem.
A permanência desses locais possui implicações climáticas.
A decomposição de resíduos orgânicos em ambientes sem tratamento adequado produz metano, gás de efeito estufa com elevado potencial de aquecimento.
Documento com propostas do Observatório do Clima aponta que, em 2023, 31,9% dos municípios ainda utilizavam lixões a céu aberto, estruturas que, além de emitirem metano, podem contaminar águas subterrâneas.
Menos de 2% dos resíduos orgânicos são compostados
Uma das soluções defendidas para reduzir essas emissões é relativamente conhecida, mas ainda pouco utilizada no país: a compostagem.
Segundo dados da Embrapa citados pelo Observatório do Clima, menos de 2% dos resíduos orgânicos brasileiros passam por compostagem.
Restos de alimentos e outros materiais orgânicos podem ser transformados em composto utilizado como adubo em vez de serem enviados a aterros ou lixões.
A adoção em larga escala teria, portanto, duas consequências: reduzir a quantidade de resíduos destinados à disposição final e diminuir emissões de metano.
O Observatório do Clima defende que a compostagem seja assumida como uma estratégia nacional de gestão urbana, associando redução das emissões à produção de adubo.
Comunidade transformou problema com lixo em referência internacional
Uma experiência iniciada em Florianópolis mostra como soluções comunitárias podem produzir resultados duradouros.
Em 2008, a comunidade Chico Mendes enfrentou uma infestação de ratos que provocou um surto de leptospirose e causou duas mortes.
A região não possuía serviço público de coleta de lixo.
Moradores, lideranças comunitárias, escolas, profissionais da saúde e integrantes da sociedade civil se organizaram e criaram a Revolução dos Baldinhos, sistema comunitário de coleta de resíduos orgânicos destinados à compostagem.
A iniciativa posteriormente recebeu reconhecimento internacional do World Future Council como prática agroecológica de excelência.
Dez anos depois, Florianópolis instituiu o programa Capital Lixo Zero. Em 2019, uma lei municipal tornou obrigatória a reciclagem dos resíduos sólidos orgânicos.
Em março de 2026, a cidade foi selecionada pela ONU entre as “20 Cidades Rumo ao Resíduo Zero”.
Maioria defende coleta seletiva, reciclagem e compostagem
A ampliação dessas políticas também encontra respaldo entre a população.
Pesquisa do Global Methane Hub, em parceria com o Observatório do Clima, mostrou que 63% dos entrevistados consideram prioritário investir em coleta seletiva, reciclagem e compostagem com participação dos catadores para melhorar a gestão dos resíduos no país.
A redução da produção de plásticos e outros descartáveis foi apontada por 52%.
Outros 50% defenderam que empresas sejam responsáveis pelo financiamento da coleta e reciclagem dos produtos que colocam no mercado.
Essa última proposta está associada à chamada responsabilidade estendida do produtor.
Empresas também devem responder pelas embalagens, defende especialista
Para Victor Argentino, coordenador de resíduos sólidos do Instituto Pólis, uma das dificuldades está na estrutura econômica necessária para financiar os sistemas municipais.
Municípios pequenos frequentemente possuem capacidade de arrecadação limitada, justamente onde soluções para coleta, reciclagem e tratamento também precisam ser implementadas.
Uma das possibilidades apontadas pelo especialista seria a criação de um fundo nacional que facilitasse o acesso desses municípios a recursos.
Argentino também defende ampliar a responsabilidade das empresas pelas embalagens que introduzem no mercado. Abrema
Nesse modelo, fabricantes e demais integrantes das cadeias produtivas assumem parcela maior dos custos de coleta e destinação após o consumo, em vez de transferir toda a despesa às prefeituras.
Saneamento precisa se preparar para secas e enchentes
A crise climática adiciona uma nova camada ao problema.
Sistemas de água, esgoto, drenagem e resíduos construídos considerando apenas condições climáticas do passado podem se tornar insuficientes diante de secas prolongadas, chuvas extremas e enchentes mais severas.
O Observatório do Clima defende que a adaptação passe a integrar o planejamento do setor.
Entre as medidas propostas estão redução das perdas de água nos sistemas de distribuição, reúso, instalação de cisternas, incentivo à redução do consumo e infraestrutura mais resistente aos eventos extremos.
A drenagem urbana também aparece como uma fragilidade. Segundo a agenda ambiental apresentada pela rede, 94,7% dos municípios brasileiros não possuem planejamento de drenagem e manejo de águas pluviais. Eixos
O problema se torna particularmente evidente durante tempestades intensas, quando sistemas insuficientes contribuem para alagamentos e enchentes.
Áreas vulneráveis devem ser prioridade
As propostas defendidas pela rede incluem ainda uma mudança na distribuição dos investimentos.
Áreas rurais, pequenos municípios e periferias urbanas deveriam receber atenção específica, assim como territórios mais expostos a secas, enchentes e contaminação hídrica. Eixos
Essa abordagem é especialmente relevante para a Amazônia, onde distâncias, baixa densidade populacional e dificuldades logísticas tornam inviável simplesmente reproduzir modelos utilizados nos grandes centros urbanos.
O desafio passa a ser combinar infraestrutura convencional com soluções descentralizadas e adaptadas às características de cada território.
Saneamento também é política climática
Durante décadas, saneamento básico e gestão de resíduos foram discutidos principalmente como questões sanitárias e de infraestrutura urbana.
A emergência climática amplia essa perspectiva.
Tratar esgoto reduz contaminação e doenças. Melhorar a gestão dos resíduos diminui impactos ambientais. Compostar matéria orgânica pode reduzir emissões de metano. Sistemas de água mais eficientes ajudam cidades e comunidades a enfrentar períodos de escassez.
Ao mesmo tempo, drenagem adequada e infraestrutura resiliente diminuem a vulnerabilidade diante de chuvas extremas.
É por isso que o Observatório do Clima defende uma abordagem integrada dos diferentes componentes do saneamento, considerando as mudanças climáticas desde o planejamento das políticas públicas.
No Brasil — e especialmente em regiões amazônicas onde ainda existem comunidades próximas a grandes rios sem acesso seguro à água potável — universalizar o saneamento deixa de ser apenas uma dívida histórica de saúde pública e passa também a fazer parte da estratégia para enfrentar um clima cada vez mais extremo.

