Amazonas pede ajuda federal após focos de calor mais que triplicarem em setembro

O avanço dos incêndios florestais, a estiagem e a deterioração da qualidade do ar levaram o Governo do Amazonas a pedir apoio emergencial ao governo federal para reforçar o combate ao fogo no estado.

O pedido foi formalizado na quarta-feira, 23 de setembro, pelo governador Roberto Cidade, e confirmado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). A solicitação envolve o envio de reforços para municípios que enfrentam incêndios e não possuem estrutura suficiente de brigadistas.

A situação ganhou dimensão ainda maior diante dos números registrados neste mês. Entre 1º e 24 de setembro de 2026, o Amazonas contabilizou 3.365 focos de calor, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) citados pela Amazônia Real.

No mesmo período de 2025, haviam sido registrados 942 focos. Isso representa aumento de aproximadamente 257% — ou mais de três vezes o número observado no ano passado.

No acumulado de 2026 até aquele momento, o estado já somava cerca de 5,7 mil focos, ante 3.113 durante todo o ano de 2025.

Nove municípios estão no pedido de socorro

Em nota à Amazônia Real, o Ministério do Meio Ambiente confirmou que o governo amazonense solicitou apoio federal especificamente para Novo Aripuanã, Careiro da Várzea, Autazes, Manaquiri, Urucurituba, Apuí, Manicoré, Manacapuru e Caapiranga.

A intenção é ampliar a capacidade de resposta em localidades onde o Corpo de Bombeiros estadual não possui efetivo permanente suficiente para enfrentar simultaneamente os diferentes focos.

O próprio governador afirmou que o Amazonas necessita de apoio tanto para os incêndios quanto para os efeitos da estiagem.

“É uma questão de Estado, não é o governador Roberto Cidade ou vice Serafim [Corrêa]. A gente tem que estar fazendo o nosso papel”, declarou Roberto Cidade ao jornal A Crítica, em trecho reproduzido pela Amazônia Real.

O pedido foi realizado depois de o governador acompanhar uma operação de rescaldo do Corpo de Bombeiros em Iranduba, na Região Metropolitana de Manaus.

37 municípios não possuem brigadas, segundo levantamento

Um dos principais problemas apontados na reportagem é a distribuição da estrutura disponível para combater incêndios no interior.

Dos 62 municípios amazonenses, 37 não possuem brigadas, segundo informações publicadas pela Amazônia Real.

A dificuldade ganha dimensão adicional em um estado de grandes distâncias, onde deslocamentos por rios e estradas podem tornar mais demorada a chegada das equipes às áreas atingidas.

O combate também precisa ocorrer simultaneamente em diferentes pontos do território, enquanto as condições de seca favorecem novos focos e a propagação das chamas.

Manaus amanhece coberta pela fumaça

Embora muitos incêndios ocorram fora da capital, seus efeitos alcançaram diretamente a população de Manaus.

A fumaça proveniente das queimadas voltou a encobrir a cidade e levou a qualidade do ar a níveis considerados perigosos à saúde.

Na manhã de 23 de setembro, o Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), registrou concentração de 324,1 µg/m³ de material particulado fino (MP2,5) em Manaus.

Naquele momento, a Amazônia Real comparou o registro com dados da plataforma internacional IQAir e apontou que o nível observado na capital amazonense superava o registrado em Kinshasa, na República Democrática do Congo, que aparecia no topo do ranking da plataforma.

A comparação exige uma ressalva: o Selva registrava uma medição em tempo real, enquanto o IQAir apresentava métricas próprias para comparação entre cidades. Ainda assim, o valor evidencia a intensidade do episódio de poluição enfrentado pela população.

Partículas finas aumentam preocupação com a saúde

O MP2,5 é formado por partículas com diâmetro extremamente reduzido, capazes de penetrar profundamente no sistema respiratório.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda, em suas diretrizes de qualidade do ar, que a média de MP2,5 em 24 horas não ultrapasse 15 µg/m³.

O pico de 324,1 µg/m³ registrado pelo Selva, portanto, correspondeu a mais de 21 vezes esse valor de referência.

Moradores já vinham relatando efeitos da exposição à fumaça. Em reportagem anterior, a Amazônia Real registrou queixas de dores de cabeça, enjoo, cansaço e ressecamento das narinas, em um período no qual as temperaturas ultrapassavam 37°C.

Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares estão entre os grupos mais sensíveis à exposição a concentrações elevadas de partículas.

Proibição do fogo veio em setembro

Diante da intensificação da estiagem e dos incêndios, o governo estadual publicou em 9 de setembro um decreto restringindo o uso do fogo.

Naquela data, a qualidade do ar de Manaus já havia alcançado classificação considerada péssima pela plataforma Selva, com concentração média de MP2,5 de 118 µg/m³, segundo a Amazônia Real. Amazônia Real

A reportagem também chama atenção para o planejamento climático do estado e afirma que o Plano Estadual de Adaptação às Mudanças Climáticas não havia sido concluído dentro dos prazos estabelecidos.

Esse aspecto ganha relevância porque os incêndios de 2026 ocorrem em um contexto de estiagem associado à atuação de um El Niño intenso sobre a Amazônia.

El Niño aumenta preocupação para os próximos meses

Pesquisadores já vinham alertando que o El Niño de 2026–2027 poderia produzir calor extremo, redução das chuvas e condições mais favoráveis aos incêndios florestais na Amazônia.

Análises divulgadas anteriormente apontaram risco elevado de um evento de forte intensidade no último trimestre de 2026 e no início de 2027.

Isso significa que o aumento dos incêndios registrado em setembro pode não representar o fim do período crítico.

A combinação de temperaturas elevadas, redução das chuvas e vegetação mais seca aumenta a inflamabilidade da floresta e favorece a propagação de incêndios iniciados por ação humana.

Governo federal disponibiliza aeronaves

Depois do pedido feito pelo Amazonas, o governo federal anunciou reforço à resposta aos incêndios.

O apoio inclui a disponibilização de aviões e helicópteros por meio do projeto Pegasus, coordenado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública.

O mecanismo permite utilizar aeronaves públicas pertencentes à União, aos estados e ao Distrito Federal em operações de resposta a emergências e calamidades.

A medida foi anunciada para apoiar especialmente o combate aos incêndios no entorno de Manaus.

O reforço aéreo pode ampliar a capacidade de deslocamento de equipes e equipamentos em uma região onde as distâncias e dificuldades de acesso terrestre estão entre os principais obstáculos ao combate.

Incêndios pressionam uma Amazônia já afetada pela seca

O quadro vivido pelo Amazonas mostra como incêndios, estiagem e poluição atmosférica podem formar uma mesma crise ambiental.

Quando as chuvas diminuem, rios perdem volume e a vegetação fica mais suscetível ao fogo. Os incêndios, por sua vez, liberam grandes quantidades de fumaça, que podem ser transportadas por dezenas ou centenas de quilômetros e atingir cidades distantes das áreas queimadas.

Em Manaus, os efeitos se tornaram visíveis no céu encoberto e nos índices críticos de qualidade do ar.

No interior, o desafio é alcançar rapidamente municípios separados por grandes distâncias e que nem sempre possuem brigadas estruturadas.

Com 3.365 focos de calor registrados somente nos primeiros 24 dias de setembro, o Amazonas entra nos últimos meses de 2026 sob pressão e com a possibilidade de que os efeitos do El Niño mantenham as condições favoráveis aos incêndios.

O pedido de apoio federal e a mobilização de aeronaves representam uma resposta imediata. O desafio dos próximos meses será impedir que a combinação entre seca, calor e fogo transforme o atual quadro em uma crise ainda maior na floresta e nas cidades amazônicas.

By emprezaz

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