Café do Juruá rompe fronteiras do Acre e cooperativa já reúne mais de 270 produtores

O café produzido no coração da Amazônia acreana começa a ultrapassar as fronteiras do estado. Depois de fortalecer sua presença no mercado local, produtores do Vale do Juruá avançam na comercialização para outras regiões do país, em um movimento que combina agricultura familiar, cooperativismo, assistência técnica e industrialização.

A Cooperativa de Produtores de Café do Juruá (Coopercafé) já reúne mais de 270 associados e envolve quase 5 mil pessoas na cadeia produtiva regional. Juntos, os cooperados possuem mais de 5 milhões de pés de café plantados.

Os números foram apresentados durante o Festival do Coco, em Mâncio Lima, e ajudam a dimensionar uma cadeia produtiva que ganhou força nos últimos anos e começa a abrir novos mercados para o café acreano.

O avanço ocorre em uma região tradicionalmente associada a outras atividades agrícolas, mas que vem consolidando a cafeicultura como alternativa de geração de renda no campo.

Café produzido no Acre já chega a outros estados

A expansão para fora do Acre representa uma nova etapa para os produtores.

Com o mercado regional consolidado, a Coopercafé passou a comercializar parte de sua produção em outros estados. A cooperativa já mantinha tratativas com indústrias de Rondônia e compradores de outras regiões, inclusive Minas Gerais, interessados no café produzido no Juruá.

O crescimento da produção também aumenta a necessidade de encontrar novos compradores.

A organização coletiva permite reunir volumes maiores de café, negociar diretamente com o mercado e diminuir a dependência de intermediários.

No modelo adotado pela Coopercafé, a própria cooperativa atua na comercialização da produção dos associados, estratégia criada para reduzir a participação dos chamados “marreteiros” e ampliar o retorno financeiro aos produtores.

Mais de 5 milhões de pés estão plantados no Juruá

A escala alcançada pela cafeicultura regional chama atenção.

Os produtores vinculados à Coopercafé já somam mais de 5 milhões de pés de café, segundo informações divulgadas neste mês.

O número coincide com estimativas apresentadas em junho durante uma sessão solene realizada em Cruzeiro do Sul em homenagem ao Dia Nacional do Café. Na ocasião, a região do Juruá também era apontada como responsável por mais de 5 milhões de pés plantados.

A expansão ajuda a transformar o Vale do Juruá em um dos principais polos da cafeicultura acreana.

E o crescimento não aparece apenas na quantidade de plantas.

No Acre como um todo, o Valor Bruto da Produção (VBP) do café saltou de R$ 28,3 milhões em 2019 para R$ 139,1 milhões em 2025, crescimento de 391,5%, segundo dados divulgados pelo governo estadual.

Assistência técnica acompanha café do plantio à pós-colheita

Para a diretora da Coopercafé, Katrine Vieira, ampliar a quantidade produzida não é suficiente. O desafio é fazer com que esse crescimento seja acompanhado pela qualidade dos grãos.

Nesse processo, a cooperativa mantém parceria com o Sebrae.

Segundo Maurifran Oliveira, analista do Sebrae, atualmente cinco técnicos especializados em café acompanham os produtores durante diferentes etapas da atividade, desde o plantio até a colheita e a pós-colheita.

O acompanhamento é importante porque decisões tomadas ainda na lavoura podem influenciar diretamente a qualidade final.

Escolha das mudas, manejo, momento da colheita, secagem, armazenamento e beneficiamento interferem no produto que posteriormente chegará às indústrias e ao consumidor.

A estratégia demonstra uma mudança importante na cafeicultura regional: o objetivo deixa de ser apenas aumentar a área plantada e passa também pela padronização e valorização do café produzido na Amazônia.

Juruá ganha estrutura para beneficiar café na própria região

Outro passo nessa transformação está na industrialização.

Em 22 de setembro, Cruzeiro do Sul recebeu a primeira etapa de um novo Complexo Industrial do Café, construído no Ramal 2, às margens da BR-364.

A estrutura foi implantada por meio de parceria entre a Prefeitura de Cruzeiro do Sul, a Coopercafé e a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), que destinou R$ 5 milhões ao empreendimento.

A unidade possui 750 metros quadrados e sete secadores, com capacidade conjunta de 116,4 mil litros.

Também foram instalados silos para armazenamento e uma máquina beneficiadora capaz de processar até 60 sacas por hora.

A capacidade inicial do complexo é estimada em até 10 mil sacas por safra.

Ter estruturas desse tipo próximas das propriedades pode reduzir custos logísticos e permitir que uma parcela maior do valor gerado pelo produto permaneça na própria região.

Produção começa a chegar pronta ao consumidor

Outra transformação ocorre depois que o café deixa a lavoura.

Produtores do Juruá começam a investir em torra, moagem, embalagens e marcas próprias, em vez de comercializar exclusivamente o grão.

Um dos exemplos é o Café Vô Raimundo, que apresentou uma versão individual conhecida como “café de bolso”.

Segundo o produtor Bruno Oliveira, cada sachê possui quase 10 gramas e pode ser preparado diretamente na xícara com aproximadamente 100 mililitros de água.

A proposta é oferecer praticidade e, ao mesmo tempo, agregar valor ao café produzido na região.

Outro exemplo vem de Cruzeiro do Sul.

Na Fazenda Ouro Preto, a família responsável pelo Café Milu acompanha praticamente todo o processo produtivo — do plantio e da colheita até a torra, moagem e embalagem.

A marca também já alcança consumidores fora do Acre.

Essas experiências indicam que a cadeia regional começa a avançar para etapas tradicionalmente responsáveis por uma parcela maior do valor final do produto.

Governo auxilia produtores no transporte da safra

A ampliação da cafeicultura também trouxe desafios de infraestrutura.

Nem todos os agricultores possuem equipamentos próprios para secagem e beneficiamento.

Em Cruzeiro do Sul, o governo estadual passou a auxiliar produtores no transporte do café até unidades de processamento.

Até junho, cinco agricultores haviam sido atendidos com o deslocamento de 3.250 sacas, equivalentes a aproximadamente 195 toneladas de café.

Entre os locais que receberam a produção estava a própria Coopercafé.

A medida busca evitar que atrasos entre colheita e processamento prejudiquem a qualidade dos grãos.

Agricultura familiar está no centro da expansão

A história da Coopercafé está diretamente ligada aos pequenos produtores.

Registros anteriores do governo estadual indicavam que 94% dos cooperados eram agricultores familiares, demonstrando o peso desse segmento na construção da cadeia produtiva.

Fundada em 2021, a cooperativa cresceu paralelamente à expansão das lavouras na região.

Em agosto de 2026, informações divulgadas sobre a entidade apontavam 267 associados e comercialização acumulada superior a R$ 45 milhões.

Os números mais recentes, agora superiores a 270 associados, indicam continuidade dessa expansão.

Café amazônico busca espaço no mercado nacional

O movimento observado no Juruá mostra uma cadeia produtiva em processo de amadurecimento.

Primeiro vieram a ampliação das lavouras e a organização dos agricultores. Em seguida, assistência técnica, estruturas de secagem e beneficiamento ganharam espaço. Agora, produtores começam a investir em marcas, embalagens e produtos destinados diretamente ao consumidor.

A Coopercafé também já apareceu em material da ApexBrasil relacionado ao programa Exporta Mais Brasil para cafés especiais, indicando a busca por maior inserção comercial do produto acreano.

O desafio daqui para frente será transformar crescimento produtivo em renda sustentável para as famílias, mantendo qualidade suficiente para competir com cafés provenientes de regiões brasileiras que possuem cadeias consolidadas há décadas.

No Vale do Juruá, porém, uma mudança já pode ser observada: o café produzido dentro da floresta amazônica começa a deixar o Acre não apenas como matéria-prima, mas como produto associado a uma identidade regional própria.

By emprezaz

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