Amazônia registra segundo menor desmatamento em oito anos

Floresta perdeu 2.053 km² entre janeiro e agosto, área 74% menor que no pico de 2022, mas 2% superior à registrada no mesmo período do ano passado; Acre teve aumento de 27%

A Amazônia Legal registrou entre janeiro e agosto de 2026 a segunda menor área desmatada para o período nos últimos oito anos, segundo levantamento do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Apesar do resultado historicamente mais baixo, os dados também mostram um sinal de atenção: a derrubada da floresta voltou a crescer na comparação com 2025.

Nos primeiros oito meses deste ano, foram destruídos 2.053 km² de vegetação amazônica. O número ficou 2% acima do registrado no mesmo período do ano passado, mas representa uma redução de 74% em relação a 2022, quando a devastação chegou a 7.943 km² — a maior para o intervalo desde o início do monitoramento do Imazon, em 2008.

Os números fazem parte do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), que utiliza imagens de satélite para acompanhar mensalmente as alterações na cobertura florestal da Amazônia Legal.

Desmatamento permanece distante dos maiores níveis

A comparação histórica mostra que a Amazônia permanece distante dos níveis de devastação registrados nos anos de maior pressão sobre a floresta.

Em 2022, por exemplo, a área derrubada entre janeiro e agosto foi quase quatro vezes maior que a registrada no mesmo período de 2026.

A menor marca de toda a série do Imazon, entretanto, é mais antiga. Em 2012, foram desmatados 714 km² nos oito primeiros meses do ano.

Para Raíssa Ferreira, pesquisadora do Imazon, observar a série histórica ajuda a dimensionar os avanços alcançados na redução da derrubada da floresta, mas também mostra a distância que ainda precisa ser percorrida para o país alcançar a meta de desmatamento zero até 2030.

Agosto teve alta de 19%

Quando analisado isoladamente, agosto também apresentou crescimento.

Foram desmatados 463 km² de floresta durante o mês, volume 19% superior ao registrado em agosto de 2025.

Ainda assim, esse também foi o segundo menor resultado para agosto desde 2018.

A diferença entre o desempenho histórico e a comparação anual mostra que os indicadores precisam ser observados em diferentes escalas. A devastação permanece abaixo dos patamares registrados durante os anos mais críticos, mas 2026 apresenta crescimento em relação ao ano passado.

Pará, Mato Grosso e Amazonas concentram 83% da derrubada

Três estados concentraram a maior parte da perda florestal entre janeiro e agosto: Pará, Mato Grosso e Amazonas.

Juntos, eles responderam por 83% de todo o desmatamento detectado na Amazônia Legal.

O Pará liderou, com 624 km², crescimento de 43% em relação aos 437 km² registrados no mesmo período de 2025.

Mato Grosso apareceu em seguida, com 477 km², redução de 7%.

No Amazonas, foram derrubados 394 km², contra 538 km² no ano passado. A queda foi de 27%.

Acre tem aumento de 27%

Enquanto o Amazonas conseguiu reduzir a derrubada, o Acre registrou movimento contrário.

O desmatamento no estado passou de 199 km² entre janeiro e agosto de 2025 para 253 km² no mesmo período deste ano, aumento de 27%.

Com isso, o Acre apresentou a quarta maior área desmatada entre os nove estados da Amazônia Legal no período, atrás de Pará, Mato Grosso e Amazonas.

Roraima também registrou crescimento, passando de 139 km² para 144 km², alta de 4%. No Maranhão, o avanço foi mais acentuado: de 62 km² para 97 km², aumento de 56%.

Rondônia, por outro lado, reduziu o desmatamento em 49%, enquanto o Tocantins apresentou queda de 56%.

Terras Indígenas concentram apenas 1,6% do desmatamento

Um dos resultados que mais chamam atenção no levantamento aparece dentro das Terras Indígenas.

Dos territórios analisados, 246 não registraram desmatamento entre janeiro e agosto, o equivalente a 63% do total.

Outras 138 Terras Indígenas tiveram menos de 1 km² de vegetação derrubada e somente sete registraram perdas superiores a 1 km².

Somadas, as Terras Indígenas tiveram 32,25 km² de desmatamento, correspondentes a apenas 1,6% de toda a área derrubada na Amazônia Legal durante o período.

O Imazon considera que esse cenário coloca os territórios indígenas próximos da meta brasileira de desmatamento zero prevista para 2030, embora sete áreas ainda tenham registrado derrubadas superiores a 1 km².

Terra Indígena Cachoeira Seca lidera derrubadas

Entre os territórios indígenas, a maior área desmatada foi registrada na Terra Indígena Cachoeira Seca, no Pará, com 3,24 km².

Na sequência aparecem Porquinhos dos Canela-Apãnjekra, no Maranhão, com 2,05 km²; Sete de Setembro, entre Rondônia e Mato Grosso, com 1,84 km²; e Trincheira/Bacajá, no Pará, com 1,7 km².

Também aparecem na relação Andirá-Marau, entre Amazonas e Pará; Yanomami, entre Amazonas e Roraima; e Aripuanã, entre Rondônia e Mato Grosso.

Unidades de conservação registram 192,8 km²

As unidades de conservação (UCs) concentraram 192,8 km² de desmatamento nos primeiros oito meses do ano, equivalentes a cerca de 9% da derrubada detectada na Amazônia.

A situação, porém, é bastante concentrada.

Somente a Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu, no Pará, perdeu 75,19 km² de floresta. A área respondeu por quase 40% de todo o desmatamento registrado nas 333 unidades de conservação analisadas.

Das UCs monitoradas, 218 — ou 65% — não registraram desmatamento. Outras 93 tiveram perdas inferiores a 1 km² e apenas 22 ultrapassaram essa marca.

Resex Chico Mendes aparece entre as áreas mais afetadas

O levantamento também traz um alerta importante para o Acre.

A Reserva Extrativista Chico Mendes perdeu 13,8 km² de floresta entre janeiro e agosto e aparece como a terceira unidade de conservação com maior área desmatada na Amazônia Legal no período.

Ela ficou atrás apenas da APA Triunfo do Xingu, com 75,19 km², e da Floresta Nacional de Altamira, com 26,91 km².

Além da Resex Chico Mendes, outras seis unidades de conservação localizadas total ou parcialmente no Acre aparecem entre as 22 áreas protegidas que tiveram mais de 1 km² desmatado.

Entre elas estão a Floresta Estadual do Rio Gregório, com 6,1 km², a Reserva Extrativista do Alto Juruá, com 2,98 km², e as florestas estaduais do Mogno, Rio Liberdade, Antimary e Afluente do Complexo do Seringal Jurupari.

Degradação florestal cai 72%

Se os dados de desmatamento mostram pequena alta, outro indicador apresentou forte redução.

A degradação florestal caiu 72% entre janeiro e agosto.

Diferentemente do desmatamento, caracterizado pela remoção completa da vegetação, a degradação envolve danos à floresta provocados principalmente por queimadas e exploração madeireira.

A área degradada passou de 2.744 km² em 2025 para 779 km² em 2026.

Somente em agosto, foram registrados 436 km² de floresta degradada, contra 559 km² no mesmo mês do ano passado — redução de 22%.

Segundo Manoela Athaíde, pesquisadora do Imazon, a degradação apresenta oscilações maiores do que o desmatamento porque períodos com grande quantidade de queimadas podem elevar rapidamente a extensão das áreas afetadas.

Queda histórica não significa desmatamento zero

O levantamento apresenta, portanto, dois sinais que precisam ser observados simultaneamente.

Por um lado, os 2.053 km² derrubados em 2026 representam o segundo menor resultado dos últimos oito anos e uma redução expressiva em relação aos piores momentos recentes da Amazônia.

Por outro, a área desmatada cresceu 2% em relação a 2025, e somente em agosto a alta chegou a 19%.

Estados também apresentam trajetórias distintas. Enquanto Amazonas, Rondônia, Mato Grosso e Tocantins reduziram a derrubada, Pará, Acre, Roraima e Maranhão tiveram aumento.

Os dados reforçam que a queda em relação aos picos recentes representa um avanço, mas não significa que a pressão sobre a floresta tenha terminado. A meta brasileira permanece sendo alcançar o desmatamento zero até 2030.

By emprezaz

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