Rio Branco reúne condições para ampliar seu protagonismo na bioeconomia amazônica e se consolidar como um centro de inovação e desenvolvimento de negócios associados à biodiversidade. Um novo mapeamento identificou 27 cadeias produtivas e um ambiente que já reúne dezenas de startups, cooperativas, instituições de pesquisa e empreendedores ligados à economia da floresta.
O diagnóstico faz parte do levantamento “Bioeconomia e Territórios da Amazônia”, desenvolvido pelo programa EcoAm, que analisou diferentes ecossistemas produtivos amazônicos e aponta que a capital acreana possui ativos capazes de transformar conhecimento tradicional, biodiversidade e pesquisa em novos produtos e oportunidades econômicas.
O potencial, entretanto, convive com obstáculos. Segundo o estudo, o ecossistema de Rio Branco ainda funciona de maneira fragmentada, com dificuldades para conectar produtores, cooperativas, universidades, instituições de apoio, assistência técnica, mercados e investidores.
Biojoias, borracha, sementes e cosméticos formam mosaico econômico
As 27 cadeias produtivas identificadas incluem atividades relacionadas a biojoias, borracha natural, resinas e sementes amazônicas.
O levantamento descreve uma economia diversificada, distribuída entre diferentes espaços do município. Nas reservas extrativistas, cooperativas lideradas por mulheres e jovens mantêm atividades coletivas; na transição entre as áreas urbana e rural, famílias trabalham com horticultura, piscicultura e criação de animais; e, dentro da cidade, surgem negócios de cosméticos naturais, sabonetes e alimentos produzidos a partir de ingredientes locais.
A rede de apoio também envolve universidades e instituições como Sebrae, Federação das Indústrias do Estado do Acre (Fieac), Fundação de Amparo à Pesquisa do Acre (Fapac) e Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB).
Para o estudo, a bioeconomia acreana funciona como um mosaico constituído mais por redes e histórias interligadas do que por setores econômicos isolados.
Rio Branco já reúne 81 startups de bioeconomia
O número de empreendimentos tecnológicos chama atenção.
Segundo o material, 81 startups ligadas à bioeconomia entraram em atividade com apoio do Sebrae, desenvolvendo desde produtos tradicionais até soluções que incorporam tecnologia e pesquisa.
Entre os exemplos estão plásticos biodegradáveis, cosméticos naturais, biopesticidas e soluções digitais.
O dado também aparece no mapeamento mais amplo do EcoAm, que caracteriza Rio Branco como um ambiente favorável à inovação e relaciona essas startups a segmentos como alimentos, cosméticos, biotecnologia e nanotecnologia.
O cenário ajuda a mostrar uma transformação no perfil da bioeconomia local. Produtos historicamente associados ao extrativismo passam a conviver com empresas que buscam utilizar ciência e tecnologia para agregar valor aos recursos da biodiversidade.
Potencial existe, mas negócios ainda estão desconectados
O principal problema identificado não é a inexistência de iniciativas.
É justamente a dificuldade de conectá-las.
O levantamento aponta que Rio Branco possui conhecimento, empreendedores, cooperativas e instituições capazes de apoiar o desenvolvimento da bioeconomia, mas essas estruturas ainda operam de maneira dispersa.
O presidente do Instituto de Educação e Desenvolvimento da Amazônia (IEDA), Pedro Silva, defende maior articulação para fazer com que o desenvolvimento sustentável alcance efetivamente os produtores.
A gerente técnica do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), Márcia Cristina Freire, chama atenção para outro problema: a dificuldade de representação dos próprios produtores rurais nas discussões sobre suas necessidades.
O resultado, segundo o diagnóstico, é uma diferença significativa entre os empreendimentos que conseguem acessar assistência técnica ou capital institucional e aqueles sustentados essencialmente pelo esforço coletivo das comunidades. Estes últimos enfrentam maiores dificuldades para avançar.
Infraestrutura e burocracia dificultam crescimento
O levantamento identifica uma série de gargalos que impedem que parte dos produtos acreanos alcance mercados maiores.
A infraestrutura precária encarece o beneficiamento e dificulta a logística. A burocracia representa uma barreira para formalizar novos negócios.
Há ainda problemas relacionados à obtenção de certificações e laudos técnicos, que acabam restringindo a comercialização de produtos como óleos e castanhas aos mercados locais.
Outro desafio é a saída de jovens em busca de oportunidades econômicas, além da vulnerabilidade enfrentada por mulheres que ocupam posições de liderança em cooperativas.
O diagnóstico indica, portanto, que desenvolver a bioeconomia de Rio Branco exige mais do que estimular o surgimento de novos empreendimentos. Também será necessário criar condições para que os negócios já existentes consigam se formalizar, agregar valor, obter certificações, acessar capital e chegar a novos compradores.
Pesquisa e produtos precisam chegar ao mercado
Para o gerente do programa EcoAm, Washington Silva, Rio Branco pode se tornar um centro de inovação e tecnologias direcionadas à criação de bionegócios.
Ele destaca a quantidade de pesquisas e insumos existentes no Acre e avalia que o território já possui uma estrutura básica, incluindo incubadora e assistência técnica.
O desafio estaria na continuidade do processo.
Transformar um insumo amazônico em produto comercial pode exigir pesquisas, testes, certificações e recursos durante um período prolongado. A proposta do programa é contribuir para aproximar as tecnologias desenvolvidas no Acre de investidores de outras partes do mundo.
Essa conexão entre pesquisa e mercado aparece como um dos pontos decisivos para que a biodiversidade possa gerar mais valor dentro do próprio território.
Cooperativas e marcas locais já formam base para expansão
O estudo também identifica negócios que representam diferentes estágios desse ecossistema.
Entre as marcas urbanas mencionadas estão Pajecó, Made in Acre e Amadeu Sustentável.
Ao mesmo tempo, estruturas cooperativistas aparecem como uma das bases da economia associada à sociobiodiversidade. O levantamento destaca a Rede Cooperacre, apontada no material como uma rede que reúne 60 cooperativas de agricultura familiar e sociobiodiversidade no Acre.
Artesanato e turismo de base comunitária também aparecem como atividades nas quais mulheres e povos indígenas desempenham papel relevante na conexão entre cultura, floresta e geração de renda.
Produtos acreanos podem se transformar em marca territorial
Outra possibilidade identificada pelo levantamento é fortalecer a associação entre os produtos e sua origem.
O documento menciona iniciativas relacionadas à Castanha do Acre, Cacau do Baixo Acre, Óleos da Floresta do Purus, Borracha Chico Mendes e Artesanato da Resex como exemplos capazes de reforçar identidade e pertencimento territorial.
A lógica é fazer com que a origem amazônica deixe de representar apenas a localização da matéria-prima e passe a integrar o valor econômico e cultural dos produtos.
Essa agregação de valor pode ser particularmente importante para evitar que recursos da biodiversidade saiam do território com pouco processamento e retornem posteriormente como produtos industrializados de maior valor.
EcoAm já investiu R$ 1 milhão em negócios amazônicos
O relatório foi desenvolvido pelo Programa EcoAm, criado em 2024 e executado pelo Impact Hub Manaus, em parceria com o BID Lab, laboratório de inovação do Banco Interamericano de Desenvolvimento por meio do programa Amazônia Sempre, além do Instituto Meraki, Fundo Vale e Sebrae Amazonas.
A primeira etapa do projeto contemplou Rio Branco, Ji-Paraná, em Rondônia, e Tefé, no Amazonas, com expansão para Tabatinga, no Amazonas, e Marabá, no Pará.
Desde sua criação, a iniciativa já apoiou 17 negócios da bioeconomia e destinou R$ 1 milhão em investimentos por meio de duas edições do programa de aceleração Lab de Impacto. Gmail – Fwd_ Pesquisa aponta po…
O EcoAm informa que sua estratégia busca justamente descentralizar oportunidades e investimentos que historicamente ficaram concentrados nos maiores centros da Amazônia. Atualmente, o programa mantém atuação em Rio Branco, Ji-Paraná, Tefé, Marabá e Tabatinga.
Para Rio Branco, o diagnóstico indica que boa parte dos elementos necessários já existe. Há produtos da sociobiodiversidade, conhecimento tradicional, pesquisa, startups, cooperativas e instituições de apoio. O desafio agora é fazer essas peças funcionarem como um ecossistema conectado, permitindo que inovação e biodiversidade se convertam em negócios capazes de gerar renda e manter maior parcela do valor econômico dentro do Acre.

