A falta de transporte adequado e as grandes distâncias entre comunidades tradicionais e locais de votação impediram indígenas, ribeirinhos e extrativistas de exercer o direito ao voto no primeiro turno das eleições de 2026. Uma investigação publicada pelo veículo jornalístico SUMAÚMA, nesta segunda-feira (19), revela que mais de 70% das terras indígenas brasileiras não possuem locais de votação, obrigando moradores a enfrentar deslocamentos que podem durar vários dias.
O levantamento identificou locais de votação em apenas 232 das 839 terras indígenas analisadas, o equivalente a aproximadamente 27,7% do total. Em diversas comunidades, o acesso às urnas depende de embarcações, combustível e recursos financeiros que nem sempre estão disponíveis.
A situação ocorre apesar da existência de normas eleitorais destinadas a assegurar transporte gratuito a eleitores indígenas, quilombolas e integrantes de outras comunidades tradicionais.
Segundo a reportagem, os obstáculos contribuíram para índices de abstenção superiores à média nacional em determinadas localidades da Amazônia, levantando questionamentos sobre as condições efetivas de acesso ao voto.
No Amazonas, indígenas enfrentam viagens de até cinco dias para votar
Um dos casos relatados ocorreu na comunidade Yanomami da Cachoeira do Aracá, localizada no município de Barcelos, no Amazonas.
O líder indígena Geovane Kepropopetele Yanomami e aproximadamente 40 integrantes de sua comunidade não conseguiram comparecer às urnas no primeiro turno por falta de combustível para as embarcações.
Para chegar à sede do município, os moradores precisam percorrer o Rio Aracá durante quatro ou cinco dias, dependendo das condições da viagem.
Embora alguns indígenas tenham conseguido realizar o deslocamento, a maioria permaneceu na comunidade.
Barcelos registrou uma taxa de abstenção de 36,7%, cerca de 15 pontos percentuais acima da média nacional.
Na Escola Indígena Ajuricaba, localizada na região do Rio Demeni, 437 dos 701 eleitores cadastrados não compareceram, o que representa uma abstenção de aproximadamente 62,3%.
Os números demonstram que a instalação de uma seção eleitoral em território indígena não elimina necessariamente as dificuldades de deslocamento, especialmente em regiões extensas, onde as comunidades ficam separadas por longas distâncias fluviais.
Comunidades do Pará também enfrentaram dificuldades para chegar às urnas
No Pará, a reportagem identificou situações semelhantes entre moradores do arquipélago do Marajó e da região da Terra do Meio.
No município de Chaves, no Marajó, a abstenção chegou a 28% no primeiro turno.
Moradores da Ilha Caviana relataram que o deslocamento até os locais de votação pode exigir de quatro a cinco horas de viagem a cavalo ou de barco, dependendo das condições das marés e da disponibilidade de combustível.
Na Reserva Extrativista Rio Iriri, em Altamira, a situação também comprometeu a participação eleitoral.
Francisco Bandeira dos Santos, presidente da associação de moradores da reserva, relatou que nenhuma pessoa de sua comunidade conseguiu votar no primeiro turno.
Para chegar ao local de votação, os moradores precisam navegar durante cinco ou seis horas pelo Rio Iriri. O percurso pode consumir entre 30 e 40 litros de combustível, com custo aproximado de R$ 300.
No polo eleitoral Manelito, apenas 96 dos 270 eleitores esperados compareceram, resultando em abstenção de 64,4%.
Segundo o relato apresentado à SUMAÚMA, um acidente que inutilizou a embarcação maior utilizada pela comunidade também prejudicou o deslocamento dos moradores.
Normas eleitorais preveem transporte gratuito para comunidades tradicionais
A legislação brasileira estabelece mecanismos para facilitar o acesso dos eleitores aos locais de votação, especialmente em regiões rurais e de difícil deslocamento.
A Lei nº 6.091/1974 disciplina o fornecimento de transporte gratuito a eleitores residentes em zonas rurais, enquanto normas da Justiça Eleitoral regulamentam a organização desse serviço.
Para as eleições de 2026, a Justiça Eleitoral também instituiu o programa Seu Voto Importa, voltado à ampliação da acessibilidade eleitoral e à garantia de transporte para populações indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.
Conforme a investigação da SUMAÚMA, a ausência de transporte em determinadas localidades evidencia dificuldades na implementação dessas medidas.
Após o primeiro turno, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) encaminhou um ofício ao Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM), solicitando providências para garantir o deslocamento dos indígenas do Rio Aracá no segundo turno, marcado para 25 de outubro.
Questionado pela reportagem, o TRE-AM informou que eventuais medidas dependeriam de avaliação técnica das condições operacionais e logísticas da região, sem confirmar um plano específico de transporte para a comunidade.
A ausência de atendimento relatada nas localidades não significa, por si só, que todas as responsabilidades institucionais estejam juridicamente definidas, mas evidencia a necessidade de apuração das condições de execução das políticas de acessibilidade eleitoral.
Barreiras linguísticas também dificultam participação eleitoral
Além dos problemas de transporte, a investigação identificou dificuldades relacionadas à comunicação de eleitores indígenas que não dominam a língua portuguesa.
Na cidade de Macapá, duas indígenas do povo Tiriyó, Racela e Mirami, relataram dificuldades para votar pela primeira vez após terem sido impedidas, segundo a reportagem, de contar com o auxílio de uma familiar que poderia atuar como intérprete.
O episódio foi apresentado como exemplo de uma barreira adicional enfrentada por integrantes de povos originários no processo eleitoral.
Diante das denúncias, as deputadas federais Sônia Guajajara e Célia Xakriabá encaminharam um ofício ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), solicitando providências para assegurar transporte e assistência linguística a eleitores indígenas no segundo turno.
O Ministério Público Eleitoral também orientou procuradores regionais eleitorais a adotarem medidas para garantir o exercício do voto dessas populações.
A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), por sua vez, informou que não seria responsável pelo fornecimento direto de transporte ou combustível, atribuindo essa competência à Justiça Eleitoral. A instituição declarou estar articulando medidas com a Defensoria Pública da União para identificar dificuldades logísticas.
Acesso ao voto permanece como desafio para a democracia
O primeiro turno das eleições de 2026 registrou mais de 33 milhões de abstenções em todo o Brasil, correspondentes a mais de 21% do eleitorado.
Entretanto, os casos identificados na Amazônia demonstram que a ausência nas urnas nem sempre decorre de uma decisão individual.
Para moradores de comunidades isoladas, votar pode exigir dias de deslocamento, gastos elevados e acesso a meios de transporte que não estão disponíveis.
Essas dificuldades afetam a participação política de populações diretamente envolvidas em debates sobre proteção territorial, políticas ambientais, saúde, educação e infraestrutura.
Com o segundo turno marcado para domingo, 25 de outubro, a efetividade das medidas de transporte e acessibilidade eleitoral permanece como questão central para assegurar que indígenas, ribeirinhos e demais comunidades tradicionais possam exercer seus direitos políticos em condições adequadas.

