Redação Planeta Amazônia
Muito além do extrativismo, o babaçu representa identidade cultural, geração de renda e resistência para centenas de mulheres tocantinenses. No norte do estado, especialmente na região do Bico do Papagaio, o artesanato produzido a partir do coco babaçu tem se consolidado como uma importante expressão da cultura tradicional e uma fonte de sustento para comunidades que preservam conhecimentos transmitidos entre gerações.
O tema ganhou ainda mais relevância após a sanção da Lei Federal nº 15.431, publicada em 11 de junho, que reconhece oficialmente o ofício das quebradeiras de coco babaçu como manifestação da cultura nacional nos estados do Tocantins, Maranhão, Piauí e Pará. A medida representa um marco para comunidades tradicionais que há décadas lutam pelo reconhecimento de seus saberes e modos de vida.
Bolsa produzida com cascas do coco babaçu – Flaviana OX/Governo do Tocantins
No Tocantins, as quebradeiras de coco desempenham papel fundamental na economia popular e na preservação ambiental. Do babaçu são aproveitadas praticamente todas as partes: das amêndoas são produzidos azeites e alimentos; das cascas surgem biojoias, objetos decorativos e utensílios; das palhas são confeccionados artesanatos e peças utilitárias que carregam elementos da identidade cultural da região.
Tradição passada de mãe para filha
O trabalho das quebradeiras está diretamente ligado à transmissão de conhecimentos ancestrais. A coleta, a quebra e o aproveitamento integral do coco babaçu fazem parte de uma prática cultural construída ao longo de gerações por mulheres extrativistas, agricultoras familiares, quilombolas, indígenas e pescadoras.
Segundo o secretário de Estado da Cultura do Tocantins, Adolfo Bezerra, o reconhecimento nacional representa uma conquista para toda a cadeia produtiva ligada ao babaçu. O gestor destacou que a atividade possui importância cultural e econômica para o estado, além de contribuir para a valorização de comunidades tradicionais.
Já o secretário de Estado dos Povos Originários e Tradicionais, Ercivaldo Xerente, afirmou que o reconhecimento fortalece a história e a resistência das quebradeiras de coco, que desempenham papel relevante na preservação dos recursos naturais e na manutenção dos territórios tradicionais.
Economia da floresta em pé
Especialistas apontam que a cadeia produtiva do babaçu é um exemplo de bioeconomia baseada no uso sustentável dos recursos naturais. Diferentemente de atividades que exigem supressão da vegetação, a extração do coco incentiva a conservação dos babaçuais e gera renda sem comprometer a floresta.
Quebradeiras de coco babaçu de Augustinópolis – Marcelo Rodrigues/Governo do Tocantins
Além do artesanato, o babaçu é utilizado na fabricação de óleo, sabão, carvão vegetal, farinha, cosméticos e diversos produtos comercializados em mercados locais e regionais. Essa diversidade de usos amplia as possibilidades econômicas para as famílias envolvidas na atividade.
Patrimônio cultural e desenvolvimento sustentável
O reconhecimento nacional do ofício das quebradeiras de coco babaçu ocorre em um momento em que cresce o debate sobre a valorização dos conhecimentos tradicionais e das economias sustentáveis na Amazônia e no Cerrado.
Para lideranças comunitárias e pesquisadores, preservar o trabalho dessas mulheres significa proteger não apenas uma atividade econômica, mas também um patrimônio cultural construído ao longo de décadas. O artesanato produzido a partir do babaçu simboliza essa conexão entre cultura, território, sustentabilidade e protagonismo feminino.
No Tocantins, onde milhares de famílias dependem direta ou indiretamente dos babaçuais, o reconhecimento da atividade como manifestação da cultura nacional reforça a importância de políticas públicas voltadas à proteção dos territórios tradicionais e ao fortalecimento da economia baseada na floresta em pé.

