Redação Planeta Amazônia
Uma força-tarefa formada por profissionais da saúde, logística e apoio humanitário está levando atendimento especializado a comunidades indígenas da Terra Indígena Andirá-Marau, localizada entre os estados do Amazonas e do Pará. A 58ª Expedição dos Expedicionários da Saúde (EDS), realizada em parceria com o Ministério da Saúde, entra em seus últimos dias de atendimento na Ilha Michiles, com foco no atendimento ao povo Sateré-Mawé, conhecido pela tradição do cultivo do guaraná e pelo ritual da formiga tucandeira.
A ação conta com o apoio da Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), da Agência Brasileira de Apoio à Gestão do Sistema Único de Saúde (AgSUS), do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Parintins, além de apoiadores locais e da própria comunidade indígena. O objetivo é ampliar o acesso a serviços de saúde especializados para populações que enfrentam grandes desafios de deslocamento até centros urbanos.
Hospital móvel oferece cirurgias, exames e atendimento odontológico
Durante a expedição, o Complexo Hospitalar Móvel montado na Ilha Michiles realiza cirurgias de média e baixa complexidade, principalmente de catarata e pterígio, além de consultas em ginecologia, exames de ultrassonografia e análises laboratoriais.
A estrutura também oferece atendimento odontológico, incluindo consultas, profilaxia, orientações de higiene bucal, cirurgias orais de pequeno porte e atendimento a pacientes com necessidades especiais em centro cirúrgico móvel. Os serviços contemplam tanto adultos quanto crianças.
Acesso à saúde transforma a vida das comunidades
Para o presidente e fundador dos Expedicionários da Saúde, Dr. Ricardo Affonso Ferreira, a iniciativa demonstra como procedimentos considerados simples em grandes centros podem gerar mudanças profundas na vida das populações indígenas.
“São dias de muito trabalho, mas também de grande realização. Estas ações são muito importantes se considerarmos a dificuldade de acesso que as populações indígenas têm a atendimentos especializados e, principalmente, às cirurgias. Em poucos dias e com procedimentos relativamente simples para nossos profissionais, é possível causar um grande impacto na vida dos guardiões da floresta”, afirma Ricardo Affonso Ferreira.
Segundo a organização, cerca de 90 voluntários participam da missão, atuando nas áreas de medicina, enfermagem, logística, administração, construção, alimentação, comunicação e apoio operacional. Antes do embarque, todos receberam treinamento técnico e participaram de uma atividade de preparação cultural ministrada pela antropóloga Sônia da Silva Lorenz, voltada à história e aos costumes do povo Sateré-Mawé.
Tecnologia de ponta chega à floresta
A área de oftalmologia conta novamente com o apoio da empresa ZEISS, especializada em tecnologia médica e óptica.
Segundo Raquel Alvarez, responsável pela área de ESG da empresa no Brasil, a expectativa é atender cerca de 500 pacientes durante esta edição da expedição.
“Ao apoiar esta expedição, contribuímos para ampliar o acesso à saúde ocular em comunidades indígenas, levando tecnologia, cuidado e esperança a quem mais precisa. Devolver a visão é também devolver autonomia, dignidade e novas perspectivas para o futuro”, destaca Raquel Alvarez.
Retorno à região ocorre dez anos após última missão
A última grande missão cirúrgica dos Expedicionários da Saúde na Terra Indígena Andirá-Marau ocorreu em 2016, durante a 35ª Expedição.
De acordo com o diretor de operações da organização, Genário Kanashiro, o retorno foi motivado pelo surgimento de novas demandas, principalmente relacionadas à catarata.
“Estivemos nesta região pela última vez realizando cirurgias há dez anos. Após tanto tempo, já existem novas demandas de cirurgia, em especial de catarata, a nossa especialidade. Como é uma doença que surge com a idade, sempre aparecem novos casos”, explica Genário Kanashiro.
Na missão realizada em 2016 foram registrados aproximadamente 1.800 atendimentos médicos e quase 5 mil exames e procedimentos. Para a atual expedição, cerca de 20 toneladas de equipamentos foram transportadas por terra, rios e via aérea até a Ilha Michiles para viabilizar a instalação do hospital móvel.
Comunidade participa da estruturação da missão
Além do atendimento médico, a própria população da Ilha Michiles participa da preparação da infraestrutura necessária para a realização da expedição. Parte das melhorias executadas permanecerá como legado para a comunidade após o encerramento dos trabalhos.
A missão também recebe apoio de empresas, doadores e parceiros que contribuem com medicamentos, equipamentos hospitalares e recursos financeiros para viabilizar a operação.
Mais de duas décadas de atuação na Amazônia
Fundada há 23 anos, a organização Expedicionários da Saúde já realizou 58 expedições, contabilizando mais de 11 mil cirurgias, 80 mil atendimentos médicos e aproximadamente 170 mil exames e procedimentos em comunidades indígenas de diferentes regiões do Brasil.
O trabalho desenvolvido pela entidade já recebeu reconhecimento internacional, incluindo a condição de finalista do Prêmio Zayed de Sustentabilidade 2023, que reuniu cerca de quatro mil organizações de 140 países.
Com encerramento previsto para este sábado (1º de agosto), a 58ª Expedição reforça um modelo de atendimento que leva serviços especializados a regiões onde o acesso à saúde é limitado, articulando poder público, organizações da sociedade civil e voluntários em benefício das comunidades indígenas da Amazônia.

