A Caatinga Climate Week, realizada em Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), reforçou o papel da Caatinga como um território estratégico para o enfrentamento das mudanças climáticas. Ao longo da programação, pesquisadores, representantes de comunidades tradicionais, organizações da sociedade civil, gestores públicos e lideranças locais defenderam que o único bioma exclusivamente brasileiro reúne experiências capazes de inspirar políticas de adaptação, conservação e desenvolvimento sustentável em outras regiões do país e do mundo.
Promovido por uma rede de organizações socioambientais, o encontro buscou ampliar a visibilidade da Caatinga nas discussões internacionais sobre clima, destacando que o semiárido brasileiro abriga tecnologias sociais, conhecimentos tradicionais e iniciativas de convivência com a escassez hídrica desenvolvidas ao longo de gerações. Essas experiências vêm sendo apontadas como ferramentas importantes para aumentar a resiliência diante do avanço dos eventos climáticos extremos.
Soluções construídas no semiárido
Durante os debates, foram apresentadas iniciativas voltadas ao armazenamento de água da chuva, recuperação de áreas degradadas, agricultura regenerativa, sistemas agroflorestais adaptados ao semiárido, manejo sustentável da vegetação nativa e fortalecimento da bioeconomia regional.
Os participantes defenderam que essas tecnologias, muitas delas desenvolvidas em parceria com agricultores familiares e comunidades tradicionais, demonstram que é possível conciliar produção, conservação ambiental e geração de renda mesmo em regiões marcadas pela escassez de água.
Bioma estratégico para o Brasil
A Caatinga ocupa cerca de 11% do território nacional, abriga aproximadamente 27 milhões de pessoas e é o único bioma encontrado exclusivamente no Brasil. Apesar de sua importância ecológica e social, continua entre os ecossistemas mais pressionados pelo desmatamento, pela desertificação e pelos efeitos das mudanças climáticas.
Especialistas lembraram que proteger a Caatinga significa também preservar um patrimônio biológico único, com milhares de espécies adaptadas às condições do semiárido e que não ocorrem em nenhuma outra parte do planeta.
Conhecimento tradicional ganha protagonismo
Um dos principais temas do evento foi o reconhecimento dos saberes das comunidades locais como elemento essencial das estratégias de adaptação climática.
Representantes de povos indígenas, quilombolas, agricultores familiares e organizações comunitárias defenderam que políticas públicas voltadas ao clima devem incorporar os conhecimentos acumulados por quem convive historicamente com os desafios da seca, da gestão da água e da conservação dos recursos naturais.
Segundo os participantes, essas experiências mostram que adaptação climática não depende apenas de inovação tecnológica, mas também da valorização das soluções desenvolvidas nos próprios territórios.
Preparação para a COP30
A Caatinga Climate Week também serviu como espaço de articulação para ampliar a presença do bioma nos debates que antecedem a COP30, prevista para ocorrer em Belém.
Os organizadores defendem que a agenda climática brasileira deve contemplar todos os biomas nacionais, reconhecendo que desafios como desertificação, segurança hídrica, restauração ecológica e desenvolvimento sustentável do semiárido são fundamentais para o cumprimento das metas climáticas do país.
Na avaliação dos participantes, a Caatinga deixou de ser vista apenas como uma região vulnerável às mudanças do clima e passou a ser reconhecida como um verdadeiro laboratório de soluções capazes de contribuir para o enfrentamento da crise climática em escala global.

