O cacau produzido no interior do Acre acaba de conquistar um reconhecimento internacional pela qualidade de seu sabor e pela importância de sua origem. A produção da comunidade Juruá-Novo Horizonte foi incluída pelo Heirloom Cacao Preservation Fund (HCP) entre os chamados “Cacaus de Herança”, distinção voltada à identificação e preservação de variedades consideradas excepcionais do ponto de vista sensorial e histórico.
O reconhecimento foi anunciado durante o Northwest Chocolate Festival, realizado em Seattle, nos Estados Unidos. O cacau acreano passou pela avaliação de nove especialistas de diferentes países, entre eles Estados Unidos, França, Inglaterra, Suíça e Trinidad e Tobago.
A conquista amplia a projeção internacional de uma cadeia produtiva construída no interior da floresta e mostra como a biodiversidade amazônica pode gerar produtos de alto valor agregado quando conhecimento local, manejo, qualidade e acesso ao mercado caminham juntos.
Produção é realizada pela família Andriola
Na comunidade Juruá-Novo Horizonte, a produção é conduzida pela família Andriola, com participação dos irmãos Osmir e Aires.
O cacau produzido pela comunidade é fornecido à Luisa Abram Chocolates, empresa sediada em São Paulo e especializada em trabalhar com cacaus provenientes de diferentes territórios brasileiros.
A empresa mantém uma relação de longa data com o cacau amazônico. Em material próprio sobre sua cadeia produtiva, informa trabalhar com cacaus provenientes de seis rios da Amazônia brasileira, três deles localizados no Acre: Purus, Juruá e Iaco.
No caso do Juruá, a primeira produção trabalhada pela empresa ocorreu em 2018, com apoio da SOS Amazônia e participação do especialista em fermentação Daniel O’Doherty.
Reconhecimento levou cerca de cinco anos
Chegar ao reconhecimento internacional exigiu um processo de aproximadamente cinco anos.
Segundo a reportagem, a candidatura demandou preparação de documentos em inglês e espanhol e a contratação de Daniel O’Doherty, especialista sediado no Havaí, para auxiliar na elaboração do material necessário à avaliação.
A análise sensorial internacional foi uma das etapas determinantes para a concessão da distinção.
Para a chocolatier Luisa Abram, o reconhecimento permite evidenciar características particulares do cacau amazônico e sua relação com o território de origem.
A lógica é semelhante à utilizada em outros produtos reconhecidos mundialmente por características relacionadas ao lugar onde são produzidos: a origem deixa de representar apenas uma informação geográfica e passa a integrar a própria identidade e valorização do produto.
Reconhecimento é apontado como inédito para o Brasil
A conquista acreana também apresenta dois elementos apontados como inéditos pelos envolvidos.
Segundo as informações divulgadas, esta é a primeira vez que uma seleção do Heirloom Cacao Preservation Fund está relacionada a uma fábrica brasileira.
Também seria a primeira ocasião em que o reconhecimento é concedido a uma comunidade, e não especificamente a uma propriedade rural.
A distinção, portanto, coloca não apenas o produto, mas o território e as pessoas responsáveis pela cadeia produtiva no centro do reconhecimento.
Logística pode levar cacau um mês até São Paulo
Produzir um cacau de qualidade internacional no interior da Amazônia envolve desafios que vão muito além do cultivo e processamento das amêndoas.
Um deles é fazer o produto chegar ao mercado.
A Luisa Abram Chocolates realiza o pagamento antecipado aos produtores e acompanha uma logística que combina trechos fluviais e rodoviários entre o interior do Acre e a fábrica em São Paulo. Dependendo das condições encontradas no percurso, a viagem do cacau pode durar aproximadamente um mês.
A distância exemplifica um dos principais desafios enfrentados pelas cadeias da sociobiodiversidade amazônica: transformar produtos encontrados ou produzidos em regiões remotas da floresta em mercadorias de maior valor agregado capazes de alcançar mercados nacionais e internacionais.
Cacau silvestre já integra estratégia de geração de renda no Acre
O reconhecimento internacional não surge isoladamente. O cacau silvestre já faz parte de iniciativas voltadas ao fortalecimento das cadeias de produtos florestais não madeireiros no Acre.
Projeto apoiado pelo Fundo Amazônia, por exemplo, trabalhou com cadeias de cacau silvestre, borracha e óleos vegetais em municípios acreanos como Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima, Rodrigues Alves, Porto Walter, Tarauacá e Feijó.
A iniciativa buscou fortalecer organizações comunitárias, ampliar capacidade técnica, agregar valor aos produtos e criar novos mercados, relacionando geração de renda à manutenção da floresta.
É justamente essa combinação que torna o reconhecimento conquistado pelo cacau de Juruá-Novo Horizonte relevante para além da premiação.
Biodiversidade pode ganhar valor sem sair da floresta
A conquista também evidencia um caminho para a bioeconomia acreana: agregar valor à biodiversidade antes que a matéria-prima deixe a região e reconhecer a identidade dos territórios responsáveis pela produção.
No caso dos cacaus amazônicos trabalhados pela Luisa Abram, a empresa afirma que as diferentes origens apresentam características genéticas e sensoriais próprias e que desenvolve processos de fermentação junto às comunidades fornecedoras.
O Acre já possui experiências que buscam fortalecer economicamente essa cadeia. O Fundo Amazônia registra projetos destinados a estruturar a produção extrativista e o beneficiamento do cacau silvestre, oferecendo assistência técnica, certificação e apoio à abertura de mercados.
Agora, a distinção concedida ao cacau de Juruá-Novo Horizonte acrescenta um elemento importante: reconhecimento internacional de qualidade associado diretamente à origem acreana.
Para uma cadeia que percorre rios, estradas e milhares de quilômetros antes de chegar ao consumidor, a conquista em Seattle mostra que um produto originado no interior da floresta acreana pode ocupar espaço entre cacaus reconhecidos internacionalmente — levando junto o nome da comunidade, do Acre e da Amazônia.

