Cerrado perdeu 7,9 milhões de hectares de vegetação que estava em recuperação em 39 anos

O Cerrado perdeu 7,9 milhões de hectares de vegetação secundária desde 1987, uma área quase duas vezes maior que o território do estado do Rio de Janeiro.

Os dados fazem parte de um levantamento inédito realizado por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e da rede MapBiomas, divulgado nesta sexta-feira (11), quando é celebrado o Dia do Cerrado.

Vegetação secundária é aquela formada pelo crescimento da vegetação nativa depois de uma área ter sido desmatada. Ela pode surgir por regeneração natural ou por iniciativas de restauração.

Embora represente um processo importante de recuperação ambiental, o levantamento revela que essas áreas permanecem particularmente vulneráveis a novos desmatamentos.

Em 2025, o Cerrado possuía 7,5 milhões de hectares de vegetação secundária, equivalentes a aproximadamente 8% da cobertura remanescente do bioma.

73% da vegetação perdida foi derrubada antes dos dez anos

Um dos resultados que mais chamam atenção está na idade das áreas eliminadas.

Segundo o levantamento, 73% de toda a vegetação secundária perdida no Cerrado foi novamente desmatada antes de completar dez anos desde sua primeira regeneração.

Isso significa que grande parte das áreas que começavam a recuperar características naturais não teve tempo suficiente para consolidar o processo.

A consequência vai além da perda das árvores e demais formas de vegetação que estavam retornando.

Áreas em regeneração podem gradualmente acumular biomassa e carbono, recuperar funções ecológicas e ampliar a conectividade entre fragmentos de vegetação nativa.

Quando são novamente eliminadas, parte desse processo é interrompida.

Florestas secundárias podem capturar carbono mais rapidamente

A permanência dessas áreas também possui implicações climáticas.

O material divulgado pelo IPAM cita pesquisa realizada em florestas da América do Sul e América Central segundo a qual florestas secundárias podem acumular carbono 11 vezes mais rapidamente do que florestas primárias durante determinados estágios de recuperação.

Isso não significa, entretanto, que uma floresta secundária tenha o mesmo valor ecológico de uma floresta primária preservada.

Barbara Costa, analista de pesquisa do IPAM e da rede MapBiomas, explica que, à medida que a vegetação secundária se desenvolve, ela pode acumular biomassa e carbono, ampliar a conectividade da paisagem e recuperar parte das funções ecológicas.

A pesquisadora ressalta que essa vegetação não é equivalente à primária, mas sua permanência exerce papel importante no avanço da recuperação do Cerrado.

Cerrado perdeu 13,6% de toda a área que se regenerou

Considerando toda a série histórica desde 1987, a vegetação secundária que voltou a ser eliminada representa 13,6% de toda a área desmatada no Cerrado que havia entrado posteriormente em processo de regeneração.

O levantamento identificou ainda um fenômeno preocupante: a perda não ocorre exclusivamente nas áreas mais jovens.

Embora elas representem a maior parcela, 27% da vegetação secundária perdida já possuía 11 anos ou mais.

Isso significa que áreas onde a regeneração vinha se consolidando havia mais de uma década também voltaram a ser convertidas.

Para Dhemerson Conciani, pesquisador do IPAM e da rede MapBiomas, a supressão de vegetação mais antiga amplia os impactos sobre a estrutura e a diversidade do ecossistema.

Segundo ele, áreas que passam por mais tempo de recuperação tendem a apresentar maior complexidade e, quando novamente degradadas, podem tornar-se paisagens cada vez menos resilientes aos efeitos dos eventos climáticos extremos.

Desmatamento da vegetação em recuperação cresceu 19,9%

Os pesquisadores também encontraram uma mudança na velocidade dessas perdas.

Entre 2017 e 2025, o desmatamento de áreas de vegetação secundária aumentou 19,9% em comparação com o período entre 2006 e 2017.

Na última década, 67 municípios do Cerrado perderam pelo menos mil hectares a mais de vegetação secundária do que conseguiram ganhar.

Ou seja, nesses municípios, a eliminação das áreas em regeneração superou a formação de novas áreas de vegetação secundária.

MATOPIBA concentra áreas mais afetadas

A distribuição geográfica dessas perdas também chama atenção.

Segundo o levantamento, os municípios mais afetados estão concentrados principalmente no MATOPIBA, uma das principais fronteiras agrícolas do país, formada por partes de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

A região concentra forte expansão agropecuária e ocupa uma área estratégica do Cerrado.

O resultado mostra que a pressão sobre a vegetação nativa não atinge apenas áreas preservadas há décadas. Ela também alcança territórios que já haviam sido desmatados e estavam iniciando ou consolidando um processo de recuperação.

Por que proteger uma área que já foi desmatada?

A pesquisa ajuda a chamar atenção para uma parte menos visível da conservação ambiental.

Quando se fala em proteção do Cerrado, o debate costuma se concentrar na vegetação nativa que nunca foi derrubada. O levantamento demonstra que as áreas que estão voltando a crescer também possuem importância ecológica.

Elas podem recuperar gradualmente funções perdidas, armazenar carbono e conectar fragmentos de vegetação remanescente.

Esse processo, entretanto, depende de tempo.

Se uma área é desmatada, começa a se regenerar e poucos anos depois é novamente eliminada, a recuperação é interrompida antes de alcançar estágios mais avançados.

O dado de que 73% das perdas aconteceram justamente nos primeiros dez anos evidencia essa vulnerabilidade.

Cerrado conserva menos da metade da vegetação original

O cenário das áreas em regeneração ocorre dentro de um bioma que já passou por uma profunda transformação territorial.

De acordo com o levantamento da rede MapBiomas citado pelo IPAM, apesar da melhora recente dos índices de desmatamento, o Cerrado conserva atualmente 49,6% de sua cobertura vegetal original.

Em 2025, eram 99,4 milhões de hectares de vegetação nativa.

A vegetação secundária correspondia a 7,5 milhões de hectares — uma parcela relevante das áreas naturais presentes hoje no bioma, mas ainda exposta à possibilidade de nova conversão.

Regenerar é importante, mas manter a regeneração é o desafio

Os números divulgados no Dia do Cerrado revelam duas etapas distintas da recuperação ambiental.

A primeira é permitir que a vegetação volte a crescer.

A segunda — e possivelmente mais difícil — é garantir que ela permaneça tempo suficiente para que a recuperação avance.

Desde 1987, milhões de hectares do Cerrado conseguiram iniciar esse processo. Ao mesmo tempo, 7,9 milhões de hectares que estavam se regenerando foram novamente eliminados.

O levantamento do IPAM e do MapBiomas mostra, portanto, que avaliar a recuperação de um bioma apenas pela quantidade de vegetação que voltou a crescer oferece uma visão incompleta.

É preciso observar também quanto dessa vegetação consegue permanecer em pé.

Em um Cerrado que conserva menos da metade de sua cobertura original, proteger áreas primárias continua sendo fundamental. Mas os dados divulgados neste 11 de setembro acrescentam outro componente à discussão: garantir a permanência das áreas em regeneração pode determinar quanto do território degradado conseguirá, de fato, recuperar parte de suas funções ecológicas nas próximas décadas.

By emprezaz

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