Redação Planeta Amazônia
O Acre registra em 2026 uma das maiores reduções no número de focos de queimadas de sua série recente, segundo dados do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
O resultado chama atenção especialmente porque ocorre durante o período do ano historicamente mais crítico para a ocorrência de fogo no estado.
Os dados divulgados nesta sexta-feira (11) mostram uma queda acentuada em relação aos anos anteriores e reforçam uma tendência que já vinha sendo observada desde os primeiros meses de 2026.
Entre janeiro e maio, por exemplo, o Acre contabilizou apenas 21 focos de calor, contra 51 no mesmo período de 2025 — redução de aproximadamente 58%. Naquele momento, era o menor número registrado entre todos os estados brasileiros.
A diminuição ocorre em meio ao fortalecimento das ações de monitoramento, fiscalização e prevenção, mas também sob influência das condições meteorológicas observadas ao longo do ano.
Acre chegou a liderar redução nacional
O desempenho de 2026 começou a chamar atenção ainda no primeiro semestre.
De janeiro a maio, os 21 focos registrados pelo satélite de referência AQUA Tarde colocaram o Acre abaixo de estados vizinhos da Amazônia Legal, como Rondônia, que contabilizou 36 ocorrências, e Amazonas, com 128.
Os números também ficaram abaixo dos registros acreanos observados no mesmo intervalo nos anos anteriores.
Segundo a série apresentada pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), foram contabilizados, nos cinco primeiros meses de cada ano, 56 focos em 2020, 45 em 2021, 66 em 2022, 17 em 2023, 32 em 2024, 51 em 2025 e 21 em 2026.
A comparação mostra que, embora 2026 apresente forte redução em relação ao ano passado, 2023 ainda teve número inferior naquele recorte específico de janeiro a maio.
Essa distinção é importante porque os dados divulgados agora abrangem outro período do ano e não devem ser confundidos com o balanço do primeiro semestre.
Setembro é historicamente um dos meses mais críticos
A redução ganha relevância porque o Acre está justamente no período em que as queimadas costumam aumentar.
Dados históricos da Sema mostram que setembro concentra alguns dos maiores registros de focos de fogo no estado.
Em anos marcados por secas severas, os números chegaram a níveis muito superiores: foram 5.843 focos em setembro de 2005, 3.979 em 2010 e 3.591 em 2016, considerando os períodos analisados nos levantamentos estaduais.
Essa sazonalidade está associada à intensificação da estiagem, redução da umidade da vegetação e maior vulnerabilidade da floresta e das áreas abertas à propagação das chamas.
Por isso, os resultados de 2026 precisam ser acompanhados até o encerramento da estação seca.
Fiscalização foi reforçada no estado
O governo estadual atribui parte da redução ao fortalecimento das ações de prevenção e combate aos crimes ambientais.
Ainda no primeiro semestre, operações de fiscalização haviam vistoriado 94 alertas, resultando no embargo de 684,6 hectares, apreensão de 24 metros cúbicos de madeira ilegal e aplicação de aproximadamente R$ 3,4 milhões em multas.
Outra frente envolve a contratação e capacitação de brigadistas comunitários para prevenção e combate aos incêndios ambientais em unidades de conservação estaduais.
A iniciativa é executada pela Sema em parceria com o Corpo de Bombeiros Militar do Acre (CBMAC) e conta, em 2026, com investimentos de aproximadamente R$ 2 milhões, provenientes do Programa REM Acre, além de outros apoios institucionais.
O Acre também está entre as unidades da Federação que já encaminharam ao governo federal o mapeamento de áreas prioritárias para prevenção e combate aos incêndios florestais em 2026.
Menos focos não significa ausência de incêndios
Existe ainda uma diferença importante na interpretação dos dados.
Um foco de calor detectado por satélite não corresponde necessariamente a um incêndio individual, assim como o número de focos não representa diretamente a extensão territorial queimada.
O Programa Queimadas do INPE utiliza sensoriamento remoto para identificar focos de fogo ativo. A análise da extensão e das características das áreas atingidas depende de outros produtos e indicadores.
O próprio INPE vem ampliando essa metodologia. O InfoQueima passou a reunir informações sobre focos ativos, eventos de fogo, estimativas de área queimada e risco meteorológico, enquanto a Sala de Situação do TerraBrasilis permite diferenciar focos registrados em vegetação nativa, áreas recém-abertas e áreas consolidadas pela agropecuária.
Por isso, a redução dos focos é um indicador positivo, mas não deve ser interpretada isoladamente como medida de toda a área atingida pelo fogo.
El Niño pode mudar cenário nos próximos meses
Apesar da queda observada, as condições climáticas projetadas para os próximos meses mantêm o Acre e o restante da Amazônia em situação de atenção.
O terceiro boletim do Painel El Niño 2026-2027, divulgado pelo INPE em setembro, aponta mais de 90% de probabilidade de um El Niño muito forte no trimestre setembro-outubro-novembro. Os modelos indicam ainda permanência do fenômeno pelo menos até o início de 2027.
Para as regiões Norte e Nordeste, a previsão é de chuvas abaixo da média, enquanto as temperaturas devem permanecer acima do normal em praticamente todo o país.
A combinação é particularmente preocupante para a Amazônia.
Segundo o INPE, temperaturas elevadas e precipitação abaixo da média podem aumentar o déficit hídrico e o risco de incêndios florestais. Um El Niño intenso também pode atrasar o início da estação chuvosa, prolongando a estiagem e deixando solo e vegetação mais suscetíveis ao fogo.
Resultado positivo ainda precisa atravessar o período crítico
Os números de 2026 colocam o Acre em uma situação significativamente diferente de anos recentes marcados por grandes quantidades de focos de calor.
Mas o momento exige cautela.
A estação seca ainda não terminou e as projeções climáticas apontam justamente para condições capazes de favorecer incêndios durante a transição para o período chuvoso.
Assim, o balanço atual reúne duas realidades simultâneas: o Acre conseguiu reduzir fortemente os focos de queimadas registrados até agora, mas entra na fase decisiva da estiagem sob influência de um El Niño potencialmente muito forte.
Manter a tendência de queda dependerá das condições climáticas das próximas semanas e da continuidade das ações de fiscalização, prevenção e resposta rápida aos incêndios.

