Um grupo de cientistas internacionais defende que a crise climática exige medidas imediatas e mais rígidas, incluindo o cancelamento da maior parte dos contratos de exploração de combustíveis fósseis já existentes. A avaliação foi apresentada durante conferência internacional realizada em Santa Marta, na Colômbia, e reúne recomendações que devem ser levadas a governos de dezenas de países.
Entre os principais argumentos está a impossibilidade de manter o atual modelo energético sem ultrapassar limites críticos do aquecimento global. Segundo o pesquisador Martí Orta, da Universidade de Barcelona, não há mais espaço para transições graduais ou para que cada país avance em ritmos distintos.
“Não temos tempo para isso”, afirmou o cientista, ao defender que a eliminação dos combustíveis fósseis deve ocorrer de forma acelerada e coordenada globalmente.
Limites climáticos e contratos já existentes
O estudo aponta que os contratos atuais de exploração de petróleo e gás — muitos já em operação ou com infraestrutura instalada — são suficientes para ultrapassar metas climáticas estabelecidas internacionalmente.
Segundo Orta, se esses contratos forem executados integralmente, o planeta não apenas superará o limite de 1,5°C de aquecimento, como também pode ultrapassar os 2°C, cenário associado a impactos climáticos mais severos.
A recomendação científica é clara: cancelar cerca de 96% dos contratos atuais seria necessário para manter o aquecimento dentro de níveis considerados mais seguros.
Conflito entre ciência e política
Apesar do consenso científico, o avanço das políticas climáticas enfrenta resistência. Segundo o pesquisador, o principal obstáculo não é técnico, mas econômico e político.
O relatório destaca que há trilhões de dólares em jogo na indústria de petróleo e gás, o que contribui para a manutenção do modelo fóssil e o adiamento de decisões mais rigorosas.
Além disso, propostas intermediárias — como redução gradual da exploração — são consideradas insuficientes diante da velocidade das mudanças climáticas.
“Não basta parar de explorar gradualmente. É necessário cancelar a maior parte dos contratos existentes”, reforçou Orta.
Impactos econômicos e riscos futuros
O estudo também aponta que os custos da inação climática tendem a superar os impactos econômicos da transição energética. Eventos extremos, como secas, enchentes e ondas de calor, já geram prejuízos crescentes e devem se intensificar.
“Os custos da ação climática são grandes, mas os custos da inação são muito maiores”, destacou o pesquisador.
Nesse contexto, a transição energética passa a ser não apenas uma agenda ambiental, mas também econômica e estratégica.
Amazônia e expansão fóssil
O debate ganha relevância para a Amazônia, onde novas frentes de exploração vêm sendo consideradas, como na foz do Amazonas e na margem equatorial brasileira.
Para os cientistas, a abertura de novos projetos nessas regiões ignora os limites definidos pela ciência e pode ampliar os impactos climáticos globais.
Um chamado por decisão política
A conclusão do estudo reforça que o conhecimento científico sobre a crise climática já está consolidado — o desafio agora é político.
“Há muito consenso científico sobre o que precisa ser feito. O que falta agora é decisão política”, afirmou Orta.
O cenário indica que a transição energética deixou de ser uma escolha gradual e se tornou uma necessidade urgente, com implicações diretas para políticas públicas, economia global e o futuro climático do planeta.

