Fenômeno deixa de ser problema restrito a regiões áridas, afeta milhões de pessoas em diferentes continentes e mobiliza debates sobre adaptação climática, segurança hídrica e prevenção de desastres
A seca deixou de ser um fenômeno associado apenas a regiões tradicionalmente áridas e passou a atingir áreas consideradas menos vulneráveis em diferentes partes do planeta. Da Amazônia à Europa, passando pela África, Ásia e América do Norte, os impactos da redução da disponibilidade de água vêm se intensificando e ganham destaque na 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), realizada na Mongólia.
Segundo dados da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), a frequência e a duração das secas aumentaram quase 30% desde o ano 2000. A organização projeta que, até 2050, cerca de três em cada quatro pessoas no mundo poderão ser afetadas pelo fenômeno, enquanto a demanda global por água poderá superar a oferta em até 40% já em 2030.
Para Ibrahim Thiaw, secretário-executivo da UNCCD, a questão deixou de ser apenas o reconhecimento da seca como ameaça global e passou a exigir ações antecipadas para evitar que seus efeitos se espalhem pelas comunidades e economias.
Amazônia enfrenta avanço da seca e aumento da vulnerabilidade
No Brasil, a seca tem avançado de forma expressiva, especialmente na Amazônia e em outras regiões do Norte do país.
Dados apresentados na reportagem mostram que, nos assentamentos rurais monitorados, as áreas classificadas como afetadas por seca extrema aumentaram de duas para 44, enquanto as áreas sob seca severa passaram de 102 para 309. Os estados do Pará, Tocantins, Mato Grosso, Rondônia e Amazonas concentram a maior parte desses registros.
O avanço da estiagem ocorre em um contexto de eventos climáticos cada vez mais intensos e frequentes, afetando a disponibilidade de água, a produção agrícola, a navegação fluvial e a segurança alimentar de populações vulneráveis.
Pesquisador alerta para crescimento das secas-relâmpago
Além das secas prolongadas, especialistas observam o aumento de um fenômeno conhecido como seca-relâmpago.
De acordo com Humberto Alves Barbosa, coordenador e fundador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), esse tipo de evento ocorre rapidamente, geralmente durante períodos de calor intenso, podendo se desenvolver em poucos dias ou semanas.
Segundo o pesquisador, a combinação entre altas temperaturas e redução da cobertura vegetal agrava a aridez das regiões afetadas, ampliando os impactos sobre os ecossistemas e as atividades econômicas.
A preocupação dos especialistas é que, impulsionadas pelo aquecimento global, tanto as secas prolongadas quanto as secas-relâmpago se tornem cada vez mais frequentes.
El Niño deve agravar cenário nos próximos meses
Outro fator que preocupa pesquisadores e organismos internacionais é o fortalecimento do El Niño.
As previsões mais recentes da Organização Meteorológica Mundial (OMM) indicam que o fenômeno deverá se intensificar entre agosto e outubro de 2026, favorecendo condições mais secas que o normal em diversas regiões do planeta.
No Brasil, Humberto Barbosa alerta que episódios fortes de El Niño costumam provocar redução das chuvas e aumento das temperaturas no Norte, Nordeste e em áreas do Centro-Oeste, aumentando o risco de secas prolongadas, secas-relâmpago e queimadas.
O impacto não se restringe ao território brasileiro. Segundo estimativas do Programa Mundial de Alimentos (PMA), os efeitos combinados da seca e do El Niño podem elevar a população mundial em situação de insegurança alimentar aguda de aproximadamente 225 milhões para 275 milhões de pessoas.
COP17 discute prevenção e adaptação
A crescente gravidade do problema levou a seca ao centro das discussões da COP17.
A conferência busca estimular governos a investir menos em respostas emergenciais e mais em estratégias de prevenção, incluindo monitoramento climático, sistemas de alerta precoce, recuperação de áreas degradadas, gestão integrada da água e fortalecimento da capacidade de adaptação das populações.
Segundo Alexandre Pires, diretor do Departamento de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, a expectativa é que a conferência fortaleça a cooperação internacional e amplie os investimentos voltados ao enfrentamento das secas.
O diretor destacou a participação do Brasil na Aliança Internacional para a Resiliência à Seca (IDRA), iniciativa criada durante a COP27 do Clima, em 2022, para promover cooperação técnica, compartilhamento de informações e mobilização de recursos para adaptação.
Seca deixa de ser exceção e passa a integrar agenda climática global
Os debates da COP17 refletem uma mudança importante na forma como a seca é encarada pelas políticas ambientais.
Historicamente associada a regiões semiáridas, a estiagem passou a atingir com intensidade crescente áreas florestais, agrícolas e urbanas em diferentes continentes. O fenômeno afeta não apenas a disponibilidade de água, mas também a produção de alimentos, a geração de energia, a biodiversidade e a estabilidade econômica.
Nesse contexto, especialistas defendem que a adaptação climática deixe de ser tratada apenas como resposta a emergências e passe a integrar o planejamento de longo prazo dos governos.
A expectativa é que as discussões realizadas na Mongólia contribuam para consolidar compromissos internacionais voltados à prevenção, à recuperação de áreas degradadas e ao fortalecimento da resiliência das populações diante de um fenômeno que já se manifesta simultaneamente em regiões tão distintas quanto a Amazônia brasileira e partes da Europa.

