Data center de R$ 250 milhões em Belém avança sem pedido de licenciamento e vira alvo de investigação do MP

Previsto para operar em 2027, empreendimento da Elea Data Centers será instalado na zona portuária da capital paraense; Ministério Público cobra informações sobre consumo de água e energia, impactos ambientais e participação das comunidades

A implantação do primeiro grande data center previsto para Belém entrou no radar do Ministério Público do Pará (MP-PA). O empreendimento BEL1, anunciado pela Elea Data Centers, prevê investimento inicial de R$ 250 milhões e conclusão da estrutura no segundo trimestre de 2027, mas ainda não possui pedido de licenciamento ambiental protocolado na Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma).

A situação levou o promotor de Justiça Márcio Silva Maués de Faria, do MP-PA, a instaurar inquérito civil para acompanhar o projeto. Em entrevista à InfoAmazonia, ele afirmou que a investigação pretende verificar tanto a legalidade dos estudos ambientais quanto a participação da população potencialmente afetada.

O empreendimento está previsto para a zona portuária de Miramar, no bairro Barreiro, em um terreno alugado pertencente à AXIA Energia, antiga Eletrobras. A chegada do projeto ocorre em meio à expansão mundial da infraestrutura necessária para computação em nuvem e inteligência artificial, mas também desperta questionamentos sobre os efeitos ambientais e sociais de estruturas caracterizadas pelo elevado consumo de recursos.

Prefeitura diz que ainda não há processo de licenciamento

Uma das primeiras medidas adotadas pelo Ministério Público foi solicitar informações à Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Belém.

A resposta revelou que, até aquele momento, não havia procedimento administrativo de licenciamento ambiental do data center em tramitação. A secretaria informou também não possuir estudos técnicos, documentos correlatos ou registros de consultas e audiências públicas relacionados ao empreendimento.

A ausência do protocolo ganha relevância porque a empresa prevê concluir a estrutura já no segundo trimestre de 2027.

Segundo a InfoAmazonia, o promotor agora cobra esclarecimentos da empresa responsável pelo empreendimento até 6 de setembro. Entre as questões que ainda precisam ser dimensionadas estão o consumo de água e energia, possíveis efeitos sobre a temperatura e a geração de poluição sonora.

Consumo de energia preocupa Ministério Público

A demanda energética aparece como uma das principais preocupações do inquérito.

Data centers funcionam continuamente e concentram grandes quantidades de servidores e equipamentos responsáveis pelo processamento e armazenamento de informações digitais. Além da eletricidade necessária para operar essa infraestrutura, sistemas de refrigeração são essenciais para evitar o superaquecimento dos equipamentos.

No caso de Belém, Maués questiona especialmente como essa nova demanda poderá se relacionar com o abastecimento energético da população.

Para o promotor, é necessário verificar se a energia exigida pelo empreendimento poderá competir com o fornecimento destinado aos moradores da região, inclusive diante das dificuldades de acesso à eletricidade ainda existentes em partes da Amazônia.

A preocupação ocorre em um contexto contraditório: embora a Amazônia tenha papel relevante na geração de energia brasileira, milhões de moradores da região ainda convivem com acesso restrito à eletricidade. Em entrevista anterior à InfoAmazonia, o pesquisador Vinícius da Silva estimou em 3,5 milhões o número de pessoas nessa condição na Amazônia.

Água, calor e ruído também entram na investigação

A energia não é a única questão levantada.

O Ministério Público quer dimensionar também o eventual consumo de água, além dos possíveis impactos relacionados ao aumento da temperatura e à poluição sonora decorrentes da operação do empreendimento.

A utilização de água ganha especial importância no debate internacional sobre data centers porque determinados sistemas de resfriamento podem demandar grandes volumes do recurso. A dimensão desse impacto, contudo, depende da tecnologia utilizada em cada instalação — razão pela qual, no caso de Belém, é necessário conhecer as características técnicas específicas do projeto antes de estimar seu consumo.

É justamente a ausência dessas informações detalhadas que está entre os pontos sob investigação.

Comunidades próximas entram no debate

O inquérito também direciona atenção aos impactos sociais e à participação das populações potencialmente atingidas.

Maués atua como 1º Promotor de Justiça de Meio Ambiente, Defesa Comunitária e Cidadania, da Infância, Juventude e dos Idosos de Barcarena, município vizinho a Belém onde, segundo o inquérito, populações de ribeirinhos e pescadores podem ser afetadas.

A preocupação com participação popular antecede a nova investigação.

Em reportagem publicada em 31 de julho, a InfoAmazonia mostrou que moradores da área prevista para o empreendimento afirmaram não terem sido consultados sobre a instalação do data center.

Parte da controvérsia está relacionada também ao destino dado à área. Moradores relataram que esperavam a implantação de uma Usina da Paz, equipamento público voltado à oferta de serviços e atividades sociais, no local onde agora está previsto o empreendimento tecnológico.

Promotor questiona quem receberá benefícios do empreendimento

A discussão sobre participação popular levou o promotor a questionar também como os benefícios econômicos prometidos pelo projeto serão distribuídos.

Em sua avaliação, grandes empreendimentos costumam ser apresentados à sociedade sob o argumento da geração de empregos, arrecadação e desenvolvimento. Entretanto, é necessário verificar concretamente quais benefícios permanecerão no território e quais impactos serão assumidos pela população.

É nesse contexto que Maués afirma que existe o risco de o “suposto progresso” beneficiar principalmente os investidores, enquanto as comunidades permanecem expostas às consequências ambientais e sociais do empreendimento.

A questão ganha uma dimensão particular na Amazônia, região que historicamente abriga grandes projetos de infraestrutura e exploração de recursos naturais, mas continua apresentando importantes déficits de serviços públicos e infraestrutura para parcela de sua população.

Data centers crescem com avanço da inteligência artificial

O empreendimento de Belém faz parte de uma transformação muito mais ampla da infraestrutura digital.

O crescimento dos serviços em nuvem, da digitalização da economia e, sobretudo, da inteligência artificial está ampliando a demanda mundial por capacidade computacional. Data centers são a infraestrutura física por trás desse processo.

Ao mesmo tempo, a expansão dessas instalações intensificou debates internacionais sobre energia, água, emissões e localização dos empreendimentos.

No caso amazônico, a discussão ganha outra camada: como instalar infraestrutura tecnológica de grande porte em uma região ambientalmente sensível e marcada por desigualdades sociais sem reproduzir modelos de desenvolvimento nos quais os custos permanecem no território enquanto os benefícios econômicos são concentrados fora dele?

MP cobra esclarecimentos até setembro

O inquérito do Ministério Público ainda está em andamento e, portanto, não representa uma conclusão de que o empreendimento seja irregular ou ambientalmente inviável.

O que existe, neste momento, é uma investigação destinada a esclarecer como o projeto será implantado e quais procedimentos ambientais e participativos deverão ser observados.

A empresa responsável deverá fornecer ao Ministério Público os esclarecimentos solicitados até 6 de setembro.

A partir dessas informações, será possível compreender melhor questões que permanecem abertas, especialmente quanto de água e energia o BEL1 consumirá, quais tecnologias de refrigeração serão empregadas, quais impactos ambientais poderão ocorrer e como as comunidades potencialmente afetadas participarão do processo.

Com previsão de conclusão em 2027 e investimento inicial de R$ 250 milhões, o projeto coloca Belém no mapa da expansão da infraestrutura digital brasileira. Ao mesmo tempo, transforma a capital paraense em palco de uma discussão que tende a se tornar cada vez mais frequente na Amazônia: como conciliar a expansão da inteligência artificial e da economia digital com disponibilidade de recursos naturais, proteção ambiental e direitos das populações locais.

A reportagem que revelou os detalhes da nova investigação é da InfoAmazonia, publicada em 20 de agosto de 2026, e alterada por esta Redação.

Leia a reportagem original da InfoAmazonia

By emprezaz

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