Redação Planeta Amazônia
O retorno do fenômeno El Niño pode fazer de 2027 o ano mais quente já registrado desde o início das medições globais. A projeção foi divulgada pela organização norte-americana Berkeley Earth e repercutida pelo Observatório do Clima, com base em modelos climáticos que apontam uma probabilidade de cerca de 62% de ocorrência de um episódio considerado muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027.
Segundo os pesquisadores, o aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico, característico do El Niño, deverá se somar ao aquecimento global provocado pelas emissões de gases de efeito estufa. Essa combinação aumenta significativamente as chances de novos recordes de temperatura média global e da intensificação de eventos climáticos extremos.
Embora 2026 ainda tenha baixa probabilidade de superar os recordes históricos, os especialistas avaliam que o cenário pode mudar rapidamente caso o fenômeno ganhe intensidade nos próximos meses. A expectativa é que seus efeitos sejam sentidos principalmente entre o final deste ano e ao longo de 2027.
Mudanças climáticas potencializam os efeitos do fenômeno
O El Niño é um fenômeno climático natural associado ao aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial. Esse aquecimento altera a circulação atmosférica e influencia o regime de chuvas e temperaturas em diferentes partes do mundo.
Especialistas, no entanto, ressaltam que o principal fator de preocupação atualmente não é apenas o retorno do El Niño, mas a interação desse fenômeno com o aquecimento global causado pelas atividades humanas.
A climatologista Friederike Otto, da rede científica World Weather Attribution (WWA) e do Imperial College London, destaca que o fenômeno sempre existiu, mas seus impactos tendem a ser mais severos em um planeta já aquecido.
“Não devemos nos apavorar com o El Niño, que é um fenômeno que sempre ocorreu. Devemos nos preocupar com as mudanças climáticas”, afirmou a pesquisadora.
Amazônia pode enfrentar nova seca severa
Na Amazônia, um episódio intenso de El Niño costuma provocar redução das chuvas, aumento das temperaturas e prolongamento da estação seca.
O último evento, registrado entre 2023 e 2024, contribuiu para uma das maiores estiagens da história recente da região, afetando rios, comunidades ribeirinhas, navegação, abastecimento de água e biodiversidade. A seca também favoreceu incêndios florestais de grandes proporções e provocou a morte de centenas de botos e milhares de peixes em diferentes pontos da bacia amazônica.
Caso as projeções se confirmem, especialistas alertam que a combinação entre estiagem prolongada, temperaturas elevadas e vegetação mais seca poderá aumentar novamente o risco de queimadas, perda de biodiversidade e impactos econômicos sobre atividades como agricultura, pesca e transporte fluvial.
Brasil precisa ampliar capacidade de adaptação
Os possíveis impactos do novo El Niño também reacendem o debate sobre a necessidade de fortalecer políticas de adaptação às mudanças climáticas.
Especialistas defendem investimentos em monitoramento meteorológico, sistemas de alerta, infraestrutura hídrica, prevenção de incêndios, proteção de áreas vulneráveis e planejamento territorial.
Para o pesquisador Enner Alcântara, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e do Programa de Pós-Graduação em Desastres Naturais, os fenômenos climáticos extremos não se transformam automaticamente em desastres. Segundo ele, os maiores prejuízos costumam ocorrer onde já existem vulnerabilidades sociais e deficiências de infraestrutura.
Na avaliação do especialista, preparar o país para um possível El Niño intenso significa reduzir essas vulnerabilidades antes que os eventos extremos ocorram.
Recordes de calor podem continuar
De acordo com a Berkeley Earth, maio de 2026 já foi o segundo maio mais quente da história, ficando atrás apenas de maio de 2024. Diversos países registraram temperaturas recordes no período, indicando que a tendência de aquecimento global permanece elevada.
Mesmo que 2027 estabeleça um novo recorde de temperatura, cientistas reforçam que isso não será consequência apenas do El Niño. O fenômeno atua como um intensificador temporário sobre um sistema climático que já vem sendo aquecido de forma contínua pelas emissões de gases de efeito estufa.
Para os pesquisadores, o cenário reforça a urgência de reduzir emissões, fortalecer políticas de adaptação e preparar populações e ecossistemas para eventos climáticos cada vez mais frequentes e intensos.

