Levantamento baseado em dados do Inpe aponta redução de 499 para 128 focos de calor entre janeiro e outubro de 2026; áreas estaduais apresentam queda menor que terras indígenas e unidades federais.
O número de focos de calor em áreas protegidas do Amazonas apresentou uma redução de 74,3% entre janeiro e meados de outubro de 2026, na comparação com o mesmo período do ano passado. Segundo levantamento divulgado pelo g1 nesta sexta-feira (16), com base em dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), os registros passaram de 499, em 2025, para 128 neste ano.
Apesar da redução, o monitoramento revela diferenças importantes entre as categorias de áreas protegidas. Enquanto terras indígenas e unidades de conservação federais apresentaram quedas expressivas, as unidades administradas pelo governo estadual registraram uma diminuição menos acentuada, mantendo a necessidade de atenção das autoridades ambientais.
Os dados foram extraídos do sistema BDQueimadas, do Inpe, que utiliza informações de satélites para identificar focos de calor. Esses registros permitem acompanhar a ocorrência de queimadas, embora não correspondam necessariamente ao número de incêndios individuais ou à extensão das áreas atingidas.
Unidades estaduais concentram parte importante dos registros
Nas unidades de conservação estaduais, foram identificados 51 focos de calor entre janeiro e outubro de 2026, contra 110 no mesmo intervalo de 2025. A redução foi de 53,6%, inferior à observada nas demais categorias de áreas protegidas.
Duas áreas se destacaram pela concentração dos registros. A Área de Proteção Ambiental (APA) Margem Direita do Rio Negro, no setor Paduari-Solimões, contabilizou 19 focos, enquanto a APA Nhamundá registrou 17.
Juntas, essas duas unidades responderam por aproximadamente 70,6% dos focos identificados nas áreas estaduais analisadas.
A concentração evidencia a importância do monitoramento contínuo, especialmente em territórios extensos, onde as dificuldades de acesso podem comprometer a rapidez das operações de fiscalização e combate às chamas.
Terras indígenas apresentam redução de 71%
Nas terras indígenas do Amazonas, os registros diminuíram de 245 focos em 2025 para 71 em 2026, representando uma queda de aproximadamente 71%.
O levantamento também identificou mudanças na distribuição geográfica das ocorrências.
Em 2025, a Terra Indígena Tenharim Marmelos apresentou a maior concentração, com 43 focos. Já em 2026, a Terra Indígena Andirá-Marau passou a concentrar o maior número de registros, com 18 ocorrências, equivalentes a 25,4% dos focos identificados em territórios indígenas do estado.
As terras indígenas Murutinga/Tracajá e Rio Jumas registraram cinco focos cada.
A redução representa uma mudança importante no cenário dessas áreas, que desempenham papel fundamental na conservação da biodiversidade e na manutenção dos modos de vida das populações indígenas.
Unidades federais registram queda superior a 95%
As unidades de conservação federais apresentaram a maior redução proporcional entre as categorias analisadas.
Em 2025, essas áreas haviam registrado 144 focos de calor no período considerado. Em 2026, o número caiu para apenas seis, uma diminuição de aproximadamente 95,8%.
Os registros deste ano foram distribuídos entre o Parque Nacional Mapinguari, com dois focos, e as florestas nacionais de Urupadi, Iquiri e Mapiá-Inauini, além da Reserva Extrativista do Médio Purus, com uma ocorrência em cada área.
O resultado demonstra uma redução expressiva dos registros detectados por satélite, embora não elimine a necessidade de fiscalização e prevenção em territórios sujeitos a pressões ambientais.
Desafios de fiscalização e regularização fundiária permanecem
Especialistas ouvidos na reportagem destacam que a proteção efetiva das unidades de conservação depende de fatores que ultrapassam sua criação formal.
Entre os principais desafios estão a extensão dos territórios, as dificuldades logísticas, a disponibilidade de equipes de fiscalização e a necessidade de investimentos em tecnologia e monitoramento ambiental.
O pesquisador Antônio Norte, doutor em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia, ressaltou a importância da segurança jurídica para as comunidades tradicionais que vivem nessas áreas.
Segundo o especialista, reservas extrativistas e reservas de desenvolvimento sustentável foram criadas para conciliar a conservação ambiental com a permanência das populações tradicionais. Entretanto, persistem dificuldades relacionadas à regularização fundiária e ao reconhecimento formal dos direitos dessas comunidades.
A diretora do Programa de Áreas Protegidas do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), Jakeline Pereira, também destaca a relevância desses territórios para a conservação da biodiversidade, a regulação climática e a manutenção de atividades econômicas associadas aos recursos florestais.
Redução em áreas protegidas contrasta com aumento dos incêndios no estado
Embora os registros tenham diminuído nas áreas protegidas analisadas, o Amazonas enfrenta um cenário mais amplo de crescimento dos incêndios florestais em 2026.
Dados divulgados pela Folha de S.Paulo apontam que o estado contabilizou 7.815 focos de incêndio entre janeiro e 12 de outubro, aumento de 116% em relação ao mesmo período de 2025.
Somente nas duas primeiras semanas de outubro, foram registrados 1.679 focos, crescimento de 253% em comparação com o mesmo intervalo do ano anterior, segundo informações divulgadas pela Reuters.
A diferença entre os indicadores demonstra que a redução observada em determinadas áreas protegidas não significa necessariamente uma diminuição generalizada dos incêndios no território amazonense.
As condições de estiagem, o aumento das temperaturas e as pressões decorrentes da ocupação humana continuam representando desafios para a prevenção e o controle do fogo.
Diante desse cenário, especialistas reforçam a importância da presença permanente do poder público, do fortalecimento da fiscalização e da participação das comunidades locais na proteção dos territórios amazônicos.

