Redação Planeta Amazônia
Jovens lideranças da Amazônia ampliaram sua presença no debate internacional sobre justiça climática durante a Quarta Conferência das Partes do Acordo de Escazú (COP4), realizada em Nassau, nas Bahamas. O encontro reuniu representantes de 27 países da América Latina e do Caribe para discutir temas como acesso à informação ambiental, participação social e proteção de defensores de direitos humanos.
Representando o Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), o jovem Matheus Silva, secretário de Articulação da Juventude no Pará, levou ao evento as demandas e propostas das juventudes que vivem em territórios tradicionais amazônicos. Estudante da Universidade Federal do Pará (UFPA) e morador de um Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) no município de Abaetetuba, ele destacou a importância de ampliar a participação desses grupos em espaços de decisão.
Juventudes fortalecem articulação internacional
Durante a conferência, Matheus participou de agendas voltadas à integração de jovens lideranças comunitárias em redes latino-americanas e caribenhas. Segundo ele, o encontro contribuiu para fortalecer a conexão entre a Secretaria de Juventude do CNS e o Encontro das Juventudes por Escazú (ENJUVS), previsto para agosto, em Bogotá, na Colômbia.
Além disso, as discussões também avançaram na preparação do Fórum Latino-Americano e Caribenho de Defensoras e Defensores Ambientais, que deve ocorrer em 2027.
“O encontro foi uma oportunidade de mostrar que os povos e comunidades tradicionais da Amazônia têm propostas concretas, construídas a partir dos territórios, como os fundos comunitários voltados à proteção de defensores ambientais”, afirmou Matheus.
Acordo de Escazú e democracia ambiental
Firmado em 2018 e em vigor desde 2021, o Acordo de Escazú é o primeiro tratado ambiental da América Latina e do Caribe voltado à garantia de direitos como acesso à informação, participação pública e justiça em questões ambientais.
Durante os quatro dias de conferência, os participantes aprovaram dez decisões relacionadas à implementação do acordo, incluindo medidas de proteção a defensores ambientais, promoção da equidade de gênero e fortalecimento da chamada democracia ambiental.
Apesar dos avanços, representantes da sociedade civil apontaram limitações nas negociações. Entre os pontos criticados está a ausência de maior inclusão de povos indígenas e comunidades tradicionais em decisões estratégicas, especialmente no que se refere ao acesso à justiça ambiental.
Brasil participa como observador
Outro ponto levantado durante o evento foi a participação do Brasil apenas como país observador, o que, segundo lideranças, pode representar um entrave para o avanço da agenda ambiental na região.
Para Matheus Silva, a ratificação do Acordo de Escazú pelo Senado brasileiro é fundamental para fortalecer a proteção de defensores ambientais, especialmente em regiões como a Amazônia, historicamente marcadas por conflitos fundiários e violência.
Ele lembrou casos emblemáticos como os assassinatos do líder seringueiro Chico Mendes e da missionária Dorothy Stang, símbolos da luta socioambiental no país.
Protagonismo das juventudes extrativistas
A vice-presidente do CNS, Letícia Moraes, avaliou que a presença de jovens extrativistas em espaços internacionais demonstra o fortalecimento político das novas gerações ligadas aos territórios tradicionais.
Segundo ela, esses jovens não apenas acompanham os debates globais, mas contribuem com experiências e soluções construídas a partir da realidade local.
“A participação na COP4 mostra que as juventudes extrativistas estão ocupando espaços de decisão e levando consigo as vozes de comunidades historicamente invisibilizadas”, afirmou.
Amazônia no centro do debate climático
A presença de jovens amazônidas em fóruns internacionais reforça a crescente importância da região nas discussões globais sobre clima, biodiversidade e direitos humanos.
Além de enfrentar desafios como desmatamento, garimpo ilegal e conflitos territoriais, a Amazônia também se apresenta como espaço de construção de soluções baseadas em conhecimentos tradicionais e gestão comunitária dos recursos naturais.
Nesse contexto, o protagonismo das juventudes extrativistas surge como elemento estratégico para ampliar a participação social e fortalecer redes de incidência política na América Latina e no Caribe.

