Redação Planeta Amazônia
Mais de 30 milhões de crianças e adolescentes brasileiros estão expostos a pelo menos dois riscos climáticos, o equivalente a seis em cada dez pessoas dessa faixa etária no país. O cenário preocupa o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), que divulgou nesta quinta-feira (8) um alerta sobre os possíveis impactos do fenômeno El Niño entre 2026 e 2027.
A análise, elaborada pelo Centro de Excelência sobre Crianças e Resiliência Climática do UNICEF, aponta que a combinação de temperaturas elevadas, estiagens prolongadas, incêndios florestais e chuvas intensas pode comprometer serviços essenciais, como abastecimento de água, saúde, educação e proteção social.
Dos mais de 30 milhões de crianças e adolescentes expostos a múltiplos riscos climáticos no Brasil, 16 milhões convivem com três ou mais ameaças simultaneamente.
A organização destaca que os próximos meses representam uma oportunidade para governos adotarem medidas preventivas, antes que os impactos do El Niño se intensifiquem.
El Niño pode atingir intensidade muito forte
Segundo o UNICEF, um boletim divulgado em 1º de setembro por órgãos federais brasileiros apontou probabilidade superior a 90% de o El Niño atingir intensidade muito forte no trimestre de setembro a novembro de 2026.
O documento reuniu informações de instituições como o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e outros órgãos federais.
As projeções indicam tendência de chuvas abaixo da média em grande parte das regiões Norte e Nordeste, enquanto o Sul poderá enfrentar precipitações acima do normal.
Também são esperadas temperaturas superiores às médias históricas em praticamente todo o território brasileiro.
No Centro e no Norte, a combinação de calor e estiagem pode prolongar condições favoráveis à ocorrência de queimadas.
As previsões, entretanto, não significam que todos os municípios dessas regiões enfrentarão necessariamente eventos extremos, uma vez que os impactos dependem das condições locais e da evolução do fenômeno.
Seca na Amazônia prejudicou 436 mil estudantes em 2024
A Amazônia aparece entre as regiões brasileiras que já experimentaram consequências expressivas dos extremos climáticos sobre a educação.
Durante a seca histórica de 2024, aproximadamente 436 mil estudantes amazônicos tiveram suas atividades escolares afetadas, conforme os dados apresentados pelo UNICEF.
No mesmo ano, as enchentes no Rio Grande do Sul prejudicaram a educação de outros 741 mil estudantes.
Somados, os dois episódios provocaram interrupções nas aulas de cerca de 1,17 milhão de crianças e adolescentes.
Os números mostram como desastres ambientais podem comprometer o direito à educação, especialmente em localidades onde o deslocamento depende de rios, estradas ou outras estruturas vulneráveis às condições climáticas.
Na Amazônia, a redução dos níveis dos rios pode dificultar o transporte escolar, isolar comunidades e limitar o acesso de estudantes e professores às unidades de ensino.
O UNICEF ressalta que os acontecimentos de 2024 não representam uma previsão de que os mesmos impactos voltarão a ocorrer em 2026 ou 2027. Eles servem como referência para compreender os riscos enfrentados pelas populações mais vulneráveis.
Crianças são mais vulneráveis ao calor, à fumaça e à falta de água
Os efeitos das mudanças climáticas e dos eventos extremos não atingem todas as pessoas da mesma maneira.
Segundo a análise, crianças e adolescentes apresentam vulnerabilidades específicas porque seus organismos ainda estão em desenvolvimento e dependem de serviços públicos e cuidados familiares para garantir condições adequadas de saúde e proteção.
O calor intenso pode aumentar os riscos de desidratação e outros problemas de saúde.
A fumaça proveniente de queimadas e incêndios florestais pode agravar problemas respiratórios, enquanto secas e enchentes podem comprometer a qualidade da água consumida pelas famílias.
Mudanças nos padrões de temperatura e precipitação também podem favorecer a transmissão de determinadas doenças, como a dengue, dependendo das condições ambientais.
Além dos efeitos diretos sobre a saúde, os eventos climáticos extremos podem prejudicar a alimentação, interromper serviços de vacinação e dificultar o deslocamento até unidades de atendimento.
Para o especialista em Clima e Meio Ambiente do UNICEF no Brasil, Danilo Moura, é necessário compreender como os fenômenos meteorológicos afetam a vida cotidiana das crianças.
“Uma seca pode significar falta de água segura, fumaça, dificuldade para chegar à escola ou ao posto de saúde”, afirmou.
O especialista ressalta que muitos desses impactos podem ser reduzidos quando as medidas de preparação são adotadas antes da emergência.
Mais de 347 milhões de crianças podem enfrentar efeitos do fenômeno no mundo
O alerta brasileiro faz parte de uma preocupação internacional.
Em comunicado divulgado na terça-feira (6), o UNICEF estimou que mais de 347 milhões de crianças, distribuídas por quase 100 países e territórios, vivem em áreas que poderão apresentar condições de chuva significativamente acima ou abaixo do normal entre outubro e dezembro de 2026.
A Ásia e o Pacífico concentram a maior população potencialmente exposta, com aproximadamente 190 milhões de crianças.
Na América Latina e no Caribe, a estimativa é de 41 milhões.
A diretora executiva do UNICEF, Catherine Russell, alertou que o fenômeno pode ampliar problemas relacionados ao acesso à água, à nutrição, à educação e à segurança das famílias.
A organização esclarece que essas estimativas identificam populações em áreas sujeitas a condições climáticas incomuns, e não o número de crianças que necessariamente sofrerão danos.
O levantamento combina projeções meteorológicas sazonais e dados populacionais, estando sujeito a atualizações conforme novas informações se tornem disponíveis.
Preparação deve começar antes das emergências
Uma das principais recomendações do UNICEF é que governos adotem medidas preventivas enquanto ainda existe tempo para reduzir os efeitos dos eventos extremos.
Entre as prioridades apontadas pela organização estão o fortalecimento dos sistemas de alerta, a preparação de escolas e unidades de saúde, o monitoramento das fontes de água e a identificação de famílias que vivem em situações de maior vulnerabilidade.
Também são recomendadas medidas para assegurar a continuidade da vacinação, organizar o fornecimento de medicamentos e preparar mecanismos de assistência social para comunidades afetadas.
No setor educacional, a orientação é revisar os planos de emergência e estabelecer alternativas para evitar interrupções prolongadas das atividades escolares.
A preparação é especialmente relevante para comunidades rurais, ribeirinhas e outras populações que enfrentam dificuldades de acesso a serviços essenciais durante períodos de seca ou inundação.
Prevenir pode reduzir custos de recuperação
Além de proteger a população, a prevenção pode diminuir os gastos necessários para recuperar estruturas e serviços danificados.
O UNICEF cita estimativas do Relatório Global de Avaliação sobre Redução do Risco de Desastres de 2025, do Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres (UNDRR), segundo as quais cada dólar investido em redução de riscos e prevenção pode economizar até 15 dólares em custos de recuperação.
A organização também destaca a importância do Protocolo Nacional para a Proteção Integral a Crianças e Adolescentes em Situação de Riscos e Desastres, revisado pelo governo federal em 2025 com apoio do UNICEF.
O instrumento orienta a atuação integrada de áreas como defesa civil, saúde, assistência social, educação e justiça, buscando garantir que as necessidades de crianças e adolescentes sejam consideradas durante a preparação e a resposta às emergências.
Efeitos podem se prolongar até 2027
Embora as projeções indiquem que o El Niño poderá alcançar seu pico ainda em 2026, o UNICEF alerta que algumas consequências podem surgir ou se intensificar ao longo de 2027.
Isso ocorre porque os efeitos de uma estiagem prolongada, por exemplo, podem permanecer mesmo depois de mudanças nas condições meteorológicas, comprometendo o abastecimento de água, a produção de alimentos e a recuperação das comunidades.
Para a organização, o enfrentamento desses problemas exige políticas públicas permanentes, capazes de preparar serviços essenciais para diferentes tipos de desastre.
O El Niño é um fenômeno climático natural e recorrente, mas seus efeitos podem se combinar com o aquecimento global, a degradação ambiental e as vulnerabilidades sociais existentes.
No caso da Amazônia, o histórico recente de secas severas reforça a necessidade de atenção especial às populações que dependem diretamente dos rios e dos recursos naturais.
O principal alerta do UNICEF é que a proteção das crianças deve começar antes que a emergência climática se transforme em uma crise de saúde, educação e segurança alimentar

