Um incêndio florestal de grandes proporções atingiu a Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio, localizada na região da Terra do Meio, no Pará, destruindo moradias, plantações e áreas de floresta utilizadas por comunidades tradicionais. Segundo informações divulgadas pelo Instituto Socioambiental (ISA) nesta segunda-feira (12), o fogo começou em 7 de outubro e avançou de forma descontrolada, atingindo pelo menos seis residências e colocando em risco os meios de subsistência das famílias que vivem na unidade de conservação.
A situação é especialmente preocupante na comunidade Boa Saúde, onde pelo menos cinco casas foram destruídas. Na comunidade Morro Verde, outra residência foi consumida pelas chamas. Já em Novo Paraíso, os moradores conseguiram conter parte do avanço do fogo e proteger as moradias.
Com aproximadamente 737 mil hectares de floresta e cerca de 150 famílias residentes, a reserva abriga populações que dependem diretamente dos recursos naturais para alimentação, moradia e geração de renda. A destruição de roças, áreas de caça e locais de coleta de produtos florestais compromete a segurança alimentar e ameaça atividades tradicionais desenvolvidas há gerações.
Fumaça e seca agravam situação das comunidades
Além das perdas materiais, a intensa fumaça provocada pelos incêndios tem prejudicado a saúde dos moradores, especialmente crianças, idosos e mulheres. A professora e moradora Rosiane Bezerra de Castro, de 31 anos, relatou ao ISA que a população enfrenta uma situação sem precedentes na região.
Segundo ela, o fogo atingiu áreas utilizadas para o plantio e a coleta de recursos naturais, enquanto a fumaça dificulta o descanso das famílias e aumenta a preocupação com as condições de saúde.
Outro problema enfrentado pelos moradores é a redução do nível dos rios. A estiagem tem dificultado o transporte por embarcações, principal meio de deslocamento das comunidades mais isoladas, obrigando famílias a arrastar canoas por bancos de areia.
A presença de resíduos das queimadas na água também representa uma preocupação, uma vez que os rios são utilizados para consumo e higiene pessoal.
Condições climáticas podem favorecer propagação do fogo
A intensidade dos incêndios levanta preocupações sobre os efeitos das mudanças climáticas na Amazônia. Moradores relatam que o manejo tradicional do fogo, historicamente utilizado em atividades agrícolas, passou a apresentar riscos maiores diante das condições de seca.
O fenômeno El Niño é apontado como um possível fator de agravamento da situação. Conforme informações de organizações ambientais citadas pelo ISA, sua ocorrência pode favorecer temperaturas elevadas, redução das chuvas e diminuição da umidade do solo, criando condições propícias à propagação de incêndios florestais.
Entretanto, a possível influência do fenômeno não significa que tenha sido determinada a causa específica do incêndio registrado na reserva.
Brigadistas são mobilizados e campanha busca ajudar famílias atingidas
Diante da gravidade da situação, instituições como o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros foram acionadas. O ICMBio realizou um sobrevoo na região e encaminhou brigadistas para auxiliar no combate às chamas.
Paralelamente, moradores e organizações locais estão mobilizados para proteger as comunidades e prestar assistência às famílias atingidas. Pessoas que perderam suas residências estão sendo acolhidas por outros integrantes da própria comunidade.
A Associação de Moradores da Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio (Amora), a Rede Terra do Meio e organizações parceiras, incluindo o Instituto Socioambiental, também iniciaram uma campanha de arrecadação de recursos destinados à aquisição de cestas básicas.
Além da necessidade imediata de alimentação e abrigo, a reconstrução das moradias e a recuperação das atividades produtivas representam desafios para famílias que dependem principalmente do extrativismo e da agricultura de subsistência.
O episódio evidencia a vulnerabilidade das comunidades tradicionais diante dos incêndios florestais e a importância de medidas de prevenção, monitoramento ambiental e resposta rápida a eventos climáticos extremos na Amazônia.

