Experiência desenvolvida em comunidades remotas do Amazonas já realizou 5.354 atendimentos e combina telessaúde, conectividade, formação de agentes comunitários e estrutura logística adaptada à realidade dos rios
Uma experiência criada para enfrentar um dos maiores desafios da Amazônia — garantir acesso à saúde a populações que vivem distantes dos centros urbanos — ganhou espaço no debate internacional.
O Programa Saúde na Floresta, da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), foi apresentado no 18º Congresso Mundial de Saúde Pública, realizado entre os dias 6 e 9 de setembro, na Cidade do Cabo, África do Sul.
Foi a primeira participação da FAS no evento. A instituição apresentou os resultados do projeto SUS na Floresta, que, entre maio de 2020 e agosto de 2026, contabilizou 5.354 atendimentos em áreas remotas da Amazônia.
A experiência busca adaptar a Atenção Primária à Saúde a uma realidade em que rios funcionam como estradas, deslocamentos podem levar horas ou dias e a distância interfere diretamente no custo e na disponibilidade dos serviços de saúde.
Experiência amazônica chega ao debate internacional
A FAS foi representada no congresso por Mickela Souza Costa, gerente do Programa Saúde na Floresta.
Um resumo sobre o SUS na Floresta foi aprovado para integrar a programação do encontro, que reuniu pesquisadores, profissionais de saúde, formuladores de políticas públicas e representantes de organizações de diferentes países.
Realizado pela Federação Mundial de Associações de Saúde Pública (WFPHA) e pela Associação de Saúde Pública da África do Sul (PHASA), o congresso de 2026 teve como tema “Saúde sem Fronteiras: Equidade, Inclusão e Sustentabilidade”.
A programação abordou temas como Atenção Primária à Saúde, equidade, sustentabilidade e os desafios futuros da saúde pública.
Segundo Mickela, levar o projeto ao congresso permitiu apresentar internacionalmente as particularidades enfrentadas pelas populações amazônicas.
“Ter o projeto SUS na Floresta aprovado para este congresso nos permitiu levar a realidade amazônica a um espaço internacional de saúde pública.”
A gerente destacou ainda a oportunidade de mostrar como a FAS apoia gestões municipais para ampliar promoção e assistência à saúde em áreas remotas e, simultaneamente, conhecer soluções utilizadas em outros territórios.
Na Amazônia, distância muda a forma de prestar assistência
A geografia amazônica impõe condições bastante diferentes daquelas encontradas em grandes centros urbanos.
Em inúmeras comunidades, não existem estradas ligando os moradores às sedes municipais. Os rios cumprem essa função.
Com isso, distância, nível das águas, tempo de viagem, combustível e disponibilidade de embarcações passam a influenciar diretamente o acesso a médicos, enfermeiros e outros profissionais.
O Programa Saúde na Floresta foi estruturado considerando essas particularidades.
A estratégia reúne pontos de atendimento à saúde, telessaúde, conectividade, saúde digital, formação de agentes comunitários e apoio logístico.
Também estão previstas ambulanchas para situações de urgência e emergência e pequenas embarcações utilizadas no deslocamento dos profissionais.
Segundo Mickela, o modelo apresentado no congresso demonstra como a organização apoia as administrações municipais para que consigam desenvolver ações de promoção e assistência justamente nessas áreas de difícil acesso.
Quase 3,8 mil teleconsultas
Os números apresentados na África do Sul mostram a importância da tecnologia dentro do modelo.
Dos 5.354 atendimentos realizados entre maio de 2020 e agosto de 2026, 3.794 foram teleconsultas, abrangendo as áreas de medicina, enfermagem, nutrição e psicologia.
Também foram contabilizados 1.304 atendimentos presenciais e 256 atendimentos odontológicos.
Somadas, as três modalidades correspondem exatamente aos 5.354 atendimentos informados pelo programa.
As Secretarias Municipais de Saúde participam da execução. Elas recebem os pontos de atendimento e realizam as consultas, enquanto a estrutura do projeto permite ampliar a assistência para localidades onde a presença permanente de determinados profissionais seria mais difícil.
A telessaúde, nesse contexto, reduz uma barreira geográfica particularmente relevante na Amazônia: em determinadas situações, é o atendimento que percorre digitalmente a distância até o paciente, em vez de obrigar o morador a realizar uma longa viagem para chegar ao serviço especializado.
Seis pontos de atendimento e alojamento para profissionais
A estrutura apresentada durante o congresso inclui ainda seis pontos de atendimento à saúde.
O projeto também conta com um alojamento destinado aos profissionais que trabalham nos territórios, cuja entrega deverá ser concluída em 2026.
A medida responde a outro desafio enfrentado na interiorização da assistência: não basta levar profissionais temporariamente às comunidades. É necessário oferecer condições para sua permanência nos territórios.
Por isso, infraestrutura, conectividade, transporte e alojamento passam a integrar uma mesma estratégia de acesso à saúde.
Mudanças climáticas criam novas barreiras
A apresentação realizada na Cidade do Cabo também levou ao debate internacional uma questão cada vez mais importante para a saúde amazônica: os efeitos das mudanças climáticas sobre o acesso às comunidades.
Secas e cheias extremas alteram a navegabilidade dos rios e podem aumentar as dificuldades de deslocamento.
Em uma região na qual os rios funcionam como parte essencial da infraestrutura de transporte, alterações significativas nos níveis das águas repercutem também sobre o funcionamento dos serviços públicos.
Segundo o material apresentado pela FAS, essas mudanças ampliam desafios relacionados à infraestrutura, custos logísticos, comunicação e permanência das equipes de saúde nas comunidades.
A relação demonstra como os impactos climáticos na Amazônia não se restringem ao meio ambiente. Uma seca extrema pode também se transformar em um problema de mobilidade e, consequentemente, de acesso à saúde.
Projeto atende comunidades ribeirinhas do Amazonas
O SUS na Floresta é executado pela Fundação Amazônia Sustentável em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Fundo Vale e Umane, com gestão da parceria pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS).
Também há apoio técnico das prefeituras de Carauari, Itapiranga, Novo Aripuanã, Uarini e Eirunepé, além da Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas (Sema).
O objetivo é fortalecer a Atenção Primária à Saúde (APS) nas comunidades ribeirinhas amazonenses por meio de um sistema de telessaúde integrado ao SUS.
A proposta combina, portanto, tecnologia e estrutura física com a participação das administrações municipais responsáveis pela assistência nos territórios.
Uma solução criada a partir da realidade da floresta
A apresentação internacional chama atenção porque o modelo não tenta simplesmente reproduzir na floresta a mesma estrutura existente nas cidades.
Ele parte das limitações do próprio território.
Quando uma comunidade está distante por horas de barco de um centro urbano, ampliar o acesso à saúde exige pensar simultaneamente em internet, telemedicina, transporte fluvial, profissionais, alojamento e capacidade de atendimento local.
A experiência apresentada na África do Sul mostra como essas diferentes ferramentas podem ser articuladas dentro da Atenção Primária.
Ao participar pela primeira vez do Congresso Mundial de Saúde Pública, a FAS levou essa realidade para uma discussão internacional e apresentou uma experiência construída pela cooperação entre sociedade civil, poder público e populações dos territórios amazônicos.
Nas imagens encaminhadas junto ao material, Mickela Souza aparece durante a apresentação no congresso e ao lado de participantes do encontro, realizado na Cidade do Cabo.
Mais do que os 5.354 atendimentos já realizados, a experiência evidencia uma questão estrutural: na Amazônia, universalizar o direito à saúde também significa encontrar maneiras de superar enormes distâncias, adaptar serviços ao ritmo dos rios e utilizar tecnologia para aproximar profissionais e pacientes separados pela geografia da floresta.

