Pantanal perdeu cerca de 80% da água superficial em quatro décadas, aponta estudo

Redação Planeta Amazônia

O Pantanal, maior planície alagável do planeta, perdeu cerca de 80% de sua água superficial nas últimas quatro décadas. O dado é resultado de um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que analisou imagens de satélite registradas entre 1985 e 2023 e identificou um declínio contínuo dos corpos d’água do bioma. Segundo os cientistas, a combinação entre mudanças climáticas e alterações no uso da terra tem comprometido a dinâmica natural das cheias e secas que sustenta um dos ecossistemas mais ricos do mundo.

Publicado na revista científica Advances in Space Research, o levantamento utilizou quatro diferentes índices de sensoriamento remoto para mapear rios, lagoas e áreas alagadas ao longo do período analisado. Dependendo da metodologia empregada, a redução da superfície coberta por água variou entre 69,6% e 81,4%, evidenciando uma tendência consistente de perda hídrica no bioma.

Mudanças climáticas e ação humana aceleram a perda de água

Os pesquisadores atribuem o fenômeno à combinação de fatores climáticos e antrópicos. Além da redução e da irregularidade das chuvas, o avanço da agropecuária sobre áreas naturalmente inundáveis, a construção de barragens e outras intervenções nos cursos d’água diminuem a capacidade do Pantanal de armazenar água durante os períodos de cheia.

O engenheiro florestal Sérvio Túlio Pereira Justino, um dos autores do estudo, destaca que esta é a mais ampla pesquisa já realizada sobre a dinâmica das águas superficiais do Pantanal brasileiro.

Segundo ele, o diferencial do trabalho está na abrangência da área analisada, no período de quase quatro décadas e na utilização de quatro índices espectrais distintos para medir a variação dos corpos d’água por meio de imagens de satélite.

Além da redução da água superficial, os pesquisadores identificaram queda progressiva da umidade do solo, aumento da frequência de secas extremas e maior irregularidade na distribuição das chuvas. Os resultados indicam que o atual regime de precipitações já não é suficiente para recompor o estoque hídrico perdido ao longo dos anos.

Biodiversidade e comunidades tradicionais estão entre os mais afetados

A diminuição das áreas alagadas ameaça diretamente a biodiversidade pantaneira. O bioma abriga mais de 650 espécies de aves, 150 mamíferos, 325 espécies de peixes e cerca de 2.270 espécies de plantas, todas dependentes do ciclo natural das águas para sobreviver.

Segundo os pesquisadores, a redução dos rios e lagoas provoca um efeito em cascata na cadeia alimentar. A diminuição da oferta de peixes afeta predadores como a onça-pintada, enquanto diversas outras espécies perdem áreas de alimentação, reprodução e abrigo.

Os impactos também alcançam as populações humanas. Comunidades ribeirinhas, indígenas e trabalhadores ligados à pesca, ao turismo e ao extrativismo enfrentam dificuldades crescentes diante da redução da disponibilidade de água e da perda de produtividade dos ecossistemas pantaneiros.

Monitoramento e gestão sustentável são apontados como prioridade

Diante do cenário, os autores defendem o fortalecimento do monitoramento ambiental e de políticas voltadas ao uso sustentável da água e da terra. Para eles, preservar o equilíbrio hidrológico do Pantanal dependerá da integração entre conservação ambiental, planejamento territorial e participação das comunidades locais.

Os pesquisadores alertam que, sem medidas efetivas para conter a degradação ambiental e enfrentar os efeitos das mudanças climáticas, a tendência é de agravamento da perda hídrica, comprometendo a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos prestados pelo bioma, como o armazenamento de carbono, a regulação climática e o abastecimento de água.

Bioma estratégico para o equilíbrio ambiental

Com aproximadamente 150 mil quilômetros quadrados, distribuídos entre Brasil, Bolívia e Paraguai, o Pantanal é reconhecido como a maior planície inundável do mundo e desempenha papel fundamental na manutenção da biodiversidade sul-americana.

O estudo reforça que preservar seus recursos hídricos tornou-se uma questão estratégica não apenas para a conservação ambiental, mas também para a segurança hídrica, a economia regional e a adaptação às mudanças climáticas que vêm alterando o funcionamento dos principais biomas brasileiros.

By emprezaz

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