Ponte sobre o Rio Gregório vira passarela para desfile de moda indígena no Acre

Uma ponte sobre o Rio Gregório, no interior do Acre, deixou por alguns momentos sua função cotidiana de ligar espaços da aldeia para se transformar em uma passarela de moda indígena.

O cenário foi escolhido para um desfile realizado durante o Festival Mariri Yawanawa 2026, que reuniu criações das marcas indígenas Yawa Store, Tari e Confecção da Anna. As coleções foram inspiradas nos grafismos, na ancestralidade, na memória e na identidade cultural do povo Yawanawa.

Realizado entre os dias 26 e 31 de agosto, na Aldeia Yawarani, em Tarauacá, o Mariri reuniu diferentes manifestações culturais Yawanawa. Entre elas, a moda ganhou espaço como linguagem para apresentar elementos tradicionais sob uma perspectiva contemporânea.

Ponte passou a integrar a narrativa do desfile

A escolha da passarela não foi um detalhe secundário da apresentação.

A ponte sobre o Rio Gregório é utilizada para conectar a aldeia ao terreiro onde foram realizadas brincadeiras, danças e cerimônias durante o festival. Cercada pela floresta e pelas águas do rio, a estrutura passou a fazer parte da própria narrativa visual das coleções.

Homens e mulheres desfilaram com roupas e adereços produzidos por marcas indígenas, enquanto o território Yawanawa servia de cenário para as peças.

Em vez de transportar a produção indígena para uma passarela convencional, o desfile ocorreu dentro do próprio território ao qual estão ligados os símbolos e referências presentes nas criações.

Kenes Yawanawa aparecem nas coleções

Entre os elementos que ganharam destaque estão os tradicionais kenes, grafismos utilizados pelo povo Yawanawa e associados a aspectos de sua cultura e identidade.

Esses desenhos já vêm ocupando espaço em outras iniciativas de moda desenvolvidas por criadores Yawanawa. Em coleções anteriores, os chamados kenes yawa foram aplicados em tecidos e utilizados para representar figuras relacionadas à floresta, como a jiboia, a cabeça da jiboia, a ponta da lança, a espinha do peixe tambuatá e a borboleta.

No Mariri 2026, grafismos, formas e referências ancestrais voltaram a aparecer como componentes centrais das peças apresentadas pelas três marcas.

A proposta reforça a moda não apenas como produção estética, mas como um dos meios utilizados pelos próprios indígenas para comunicar sua cultura e fortalecer sua identidade.

Três marcas indígenas participaram da apresentação

O desfile reuniu as marcas Yawa Store, Tari e Confecção da Anna, que apresentaram suas coleções autorais durante a programação do festival.

A produção contou com apoio da Associação Sociocultural Yawanawa (ASCY) e teve participação da estilista Nacaira Yawanawa, idealizadora do evento e responsável pela marca Tari.

As imagens que repercutiram nas redes sociais foram registradas pelo fotógrafo e cinegrafista Luan Pacífico e compartilhadas pela jornalista, cerimonialista e assessora de imprensa Jackie Pinheiro.

Moda indígena ganha espaço como produção autoral

A apresentação no Rio Gregório também chama atenção para uma mudança importante na forma como a produção indígena chega ao público.

As peças não aparecem simplesmente como referências indígenas incorporadas por marcas externas. São coleções autorais produzidas por marcas indígenas, desenvolvidas a partir das próprias referências culturais Yawanawa.

Essa diferença coloca os próprios criadores indígenas no centro da produção, da narrativa e da apresentação de sua identidade.

A relação dos Yawanawa com a moda, inclusive, não começou agora. Registros mostram que grafismos do povo acreano já chegaram a passarelas fora da Amazônia há mais de duas décadas, enquanto coleções recentes vêm mantendo a combinação entre técnicas, símbolos tradicionais e criação contemporânea.

Mariri celebra cultura Yawanawa no território

O desfile integrou uma programação mais ampla do Festival Mariri Yawanawa, encontro dedicado à celebração e transmissão da cultura do povo.

Em 2026, o festival voltou a reunir manifestações ligadas à ancestralidade, cerimônias, danças, brincadeiras e outras atividades culturais no território Yawanawa.

Foi nesse contexto que a ponte assumiu uma nova função.

O mesmo caminho utilizado no cotidiano da comunidade tornou-se palco para apresentar peças que carregam símbolos ligados à história e ao pertencimento Yawanawa.

Entre floresta e rio, o desfile mostrou uma produção contemporânea que não precisa se afastar do território para dialogar com a moda. Pelo contrário: foi justamente o território que transformou a apresentação em uma expressão singular da identidade Yawanawa.

By emprezaz

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