O Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac) suspendeu preventivamente a emissão de autorizações para queimadas em todo o território acreano diante do agravamento das condições de seca e do aumento do risco de incêndios florestais.
A medida foi estabelecida pela Portaria Imac nº 140, publicada nesta quarta-feira (2) no Diário Oficial do Estado (DOE), e permanecerá vinculada ao período de vigência da situação de emergência ambiental decretada pelo governo acreano.
A decisão ocorre em um momento crítico da estiagem no estado. A combinação entre baixos índices de precipitação, redução dos níveis dos rios, temperaturas elevadas e baixa umidade relativa do ar cria condições favoráveis para o surgimento e, principalmente, para a rápida propagação do fogo.
Além dos impactos sobre a vegetação e os ecossistemas, o Imac alerta para possíveis consequências sobre a qualidade do ar e a saúde da população.
Suspensão vale enquanto durar situação de emergência
A suspensão das autorizações está diretamente relacionada ao Decreto Estadual nº 11.932, de 31 de julho de 2026, que declarou situação de emergência ambiental no Acre.
Enquanto o decreto permanecer vigente, a regra geral será a interrupção da emissão das autorizações para uso do fogo.
A medida tem caráter preventivo e busca reduzir a possibilidade de que queimadas inicialmente controladas escapem das áreas previstas e se transformem em incêndios de maiores proporções.
Durante períodos prolongados sem chuva, a vegetação perde umidade e o fogo pode avançar rapidamente, sobretudo quando associado a temperaturas elevadas e condições atmosféricas desfavoráveis.
Situações excepcionais poderão ser analisadas
A portaria não elimina completamente a possibilidade de avaliação de situações excepcionais.
Segundo o Imac, eventuais casos que demandem tratamento diferenciado deverão ser submetidos às instâncias responsáveis pela gestão ambiental e pelo controle de incêndios no Acre.
A análise será realizada no âmbito do Conselho Estadual de Meio Ambiente e Florestas (Cemaf) e do Grupo Operacional de Comando e Controle.
A previsão permite que situações específicas sejam avaliadas individualmente, mas mantém como regra geral a suspensão preventiva das autorizações diante do cenário climático.
Rio Acre chega ao menor nível de 2026
A decisão ocorre enquanto diferentes indicadores demonstram o avanço da estiagem.
Em Rio Branco, o Rio Acre atingiu 1,78 metro nesta terça-feira (1º), o menor nível registrado no ano até o momento.
O coordenador da Defesa Civil Municipal, tenente-coronel Cláudio Falcão, informou que a tendência para os próximos dias é de continuidade da escassez de chuva, aumento das temperaturas e baixa umidade relativa do ar.
Segundo Falcão, agosto teve apenas seis dias com registro de chuva em Rio Branco, contra 25 dias sem precipitação.
A Defesa Civil também chama atenção para a relação direta entre estiagem, queimadas e qualidade do ar. Com menos umidade disponível e vegetação mais seca, o controle dos focos de incêndio torna-se ainda mais importante para evitar aumento da concentração de fumaça sobre a capital e outras regiões do estado.
Seca pode se prolongar até dezembro
O cenário pode permanecer crítico por mais tempo do que em períodos anteriores.
A Defesa Civil de Rio Branco trabalha com a possibilidade de a seca se estender até o final de dezembro, o que prolongaria a exposição do estado às condições favoráveis aos incêndios.
Historicamente, setembro está entre os períodos mais delicados para os níveis dos rios acreanos. Neste ano, entretanto, a preocupação aumenta diante da perspectiva de manutenção das condições secas nos meses seguintes.
O Painel El Niño 2026-2027, elaborado conjuntamente por instituições federais de meteorologia, clima, recursos hídricos e defesa civil, também aponta para um cenário desfavorável na Amazônia Legal.
Para o trimestre entre setembro e novembro, a previsão é de chuvas abaixo da média no Acre e temperaturas acima do normal, combinação que pode prolongar a estação seca, diminuir a disponibilidade de água e aumentar o risco de incêndios florestais.
El Niño aumenta preocupação para os próximos meses
As condições de El Niño foram confirmadas em junho de 2026 e, segundo o painel federal, o fenômeno deve permanecer pelo menos até o início de 2027.
Para setembro, outubro e novembro, os modelos utilizados no documento apontam probabilidade superior a 90% de ocorrência de um evento classificado como muito forte.
Os efeitos do fenômeno não são iguais em todas as regiões brasileiras. Para áreas da Amazônia, incluindo o Acre, a expectativa é de redução das chuvas e temperaturas mais elevadas.
Esse comportamento climático aumenta a preocupação porque coincide justamente com os meses nos quais o estado já enfrenta naturalmente condições mais favoráveis às queimadas.
Rios já vinham apresentando níveis críticos
O problema não está restrito ao Rio Acre na capital.
Boletins hidrometeorológicos divulgados no fim de agosto já mostravam diferentes pontos da bacia abaixo das respectivas cotas de estiagem.
Em 26 de agosto, o Rio Acre registrava 1,13 metro em Brasileia, diante de uma cota de estiagem de 3,50 metros. Em Xapuri, estava em 2,02 metros, abaixo da referência de 2,20 metros, enquanto Capixaba apresentava 1,92 metro diante de uma cota de 3,50 metros.
Na Bacia do Purus, o Rio Iaco também estava abaixo da referência em Sena Madureira.
Os dados demonstram que a estiagem possui intensidades diferentes entre as regiões acreanas, mas já afeta diversos mananciais importantes.
Governo federal também reconheceu risco elevado de incêndios
O alerta para 2026 começou antes mesmo do período mais crítico da estiagem.
Em fevereiro, o governo federal declarou emergência ambiental por risco de incêndios florestais em áreas do Acre. A medida abrange os vales do Acre e do Juruá entre maio e dezembro e permite ações emergenciais de prevenção e combate ao fogo.
Entre as medidas possibilitadas pelo reconhecimento estão contratação temporária de brigadistas, reforço das equipes de fiscalização ambiental e intensificação do monitoramento dos focos de calor.
Agora, com a suspensão das autorizações pelo Imac, o governo estadual acrescenta uma nova barreira preventiva para reduzir o uso do fogo justamente quando as condições ambientais se tornam mais críticas.
Prevenção ganha importância com avanço da estiagem
A suspensão das autorizações ocorre em um contexto peculiar.
Embora o Acre tenha registrado redução dos focos de calor em determinados períodos de 2026 na comparação com anos anteriores, a chegada dos meses mais secos aumenta consideravelmente o risco de incêndios.
Isso significa que uma quantidade menor de queimadas não elimina a necessidade de prevenção.
Com vegetação mais seca, rios em níveis reduzidos, temperaturas elevadas e umidade baixa, um foco de fogo pode encontrar condições muito mais favoráveis para se espalhar.
O cenário também aumenta a preocupação com a fumaça. Incêndios florestais e queimadas podem deteriorar rapidamente a qualidade do ar e afetar principalmente crianças, idosos e pessoas mais vulneráveis à poluição atmosférica.
Com a perspectiva de chuvas abaixo da média e temperaturas acima do normal nos próximos meses, a suspensão determinada pelo Imac funciona como uma medida preventiva para atravessar a fase mais crítica da seca reduzindo uma das fontes de ignição que podem desencadear incêndios de maiores proporções no Acre.

