Povos indígenas do Alto Juruena adaptam modos de vida após perda de mais da metade da água em seus territórios

Redação Planeta Amazônia

As terras indígenas da bacia do Alto Juruena, em Mato Grosso, perderam 55% da superfície de seus corpos d’água entre 1985 e 2025. O dado integra uma análise produzida pela InfoAmazonia, com base em informações da plataforma MapBiomas, e evidencia os impactos combinados das mudanças climáticas e da expansão da agropecuária sobre uma das principais regiões formadoras da bacia amazônica. Diante desse cenário, povos indígenas têm reorganizado seus sistemas produtivos, fortalecido a agricultura tradicional e desenvolvido instrumentos próprios para monitorar as transformações ambientais e reivindicar políticas públicas.

Um dos exemplos é a Terra Indígena Tirecatinga, localizada no município de Sapezal (MT), onde vivem povos Nambikwara, Terena, Manoki e Haliti. Segundo o levantamento, o território registrou uma redução de 75% da superfície de água nas últimas quatro décadas, tornando-se uma das áreas mais afetadas da bacia. A escassez hídrica já alterou o cotidiano das comunidades: lagoas secaram, nascentes mudaram de lugar, a reprodução dos peixes foi retardada, períodos de plantio precisaram ser modificados e frutos nativos passaram a amadurecer mais tarde.

Mudanças climáticas alteram o calendário tradicional

As transformações ambientais foram sistematizadas pelas próprias comunidades por meio do Calendário Ecológico de Tirecatinga, elaborado pela associação de mulheres indígenas Thutalinãnsu, com apoio da Operação Amazônia Nativa (Opan) e da Rede Juruena Vivo.

O documento registra, a partir do conhecimento tradicional, como o clima deixou de seguir os ciclos conhecidos pelas comunidades. O verão passou a ser marcado por tempestades mais intensas, ventos fortes, aumento das temperaturas, incêndios e crescimento dos casos de dengue. Já o inverno tornou-se mais seco e curto, comprometendo a agricultura e reduzindo a disponibilidade de água. O material servirá de base para o novo Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da terra indígena.

Para Cleide Terena, presidente da Thutalinãnsu, os impactos climáticos são vivenciados diariamente pelas famílias indígenas.

“Quando vem aquela chuva forte, aquele vento forte arregaçando as casas, quem está aqui somos nós. Quando vem aquele sol quente queimando nossas plantas, nosso alimento, somos nós que estamos aqui. Quem está destruindo? Somos nós? Não somos”, afirmou durante o lançamento do calendário ecológico.

Cleide Terena, presidente da Thutalinãnsu. Foto: André Dib/Mongabay, Ambiental Media

Expansão agropecuária intensifica pressão sobre os rios

Segundo a análise da InfoAmazonia, a agropecuária avançou sobre aproximadamente 2,2 milhões de hectares da bacia do Alto Juruena entre 1985 e 2024, substituindo metade da vegetação nativa por lavouras e pastagens. Nesse mesmo período, a bacia perdeu 14% de sua superfície de água, mas a situação foi ainda mais grave dentro das terras indígenas, onde a redução alcançou 55%.

Especialistas apontam que rios importantes da região nascem em áreas fortemente ocupadas pela agricultura intensiva, chegando aos territórios indígenas já impactados por irrigação, barragens e uso de agrotóxicos.

O analista socioambiental do Instituto Centro de Vida (ICV), Rodrigo Marcelino, afirma que a combinação entre degradação do solo, retirada de água para irrigação e secas mais intensas reduz a umidade da paisagem e aumenta a vulnerabilidade das florestas aos incêndios.

Agricultura tradicional fortalece adaptação

Para enfrentar a insegurança alimentar e hídrica, as comunidades vêm resgatando cultivos tradicionais e fortalecendo sistemas de agricultura familiar adaptados às novas condições climáticas.

Vista aérea do rio Buriti e da vegetação do Cerrado na Terra Indígena Tirecatinga. Foto: André Dib/Mongabay, Ambiental Media

O planejamento comunitário também busca preservar sementes crioulas, reorganizar períodos de plantio e ampliar o monitoramento dos recursos naturais, unindo conhecimento ancestral e ferramentas modernas de gestão territorial.

Segundo Suyani Terena, vice-presidente da Thutalinãnsu, proteger o Cerrado significa preservar a origem das águas que abastecem toda a região.

Ela ressalta que a resistência histórica do bioma vem sendo colocada à prova diante da intensidade das mudanças climáticas e do avanço das atividades econômicas sobre o entorno das terras indígenas.

Territórios indígenas permanecem como barreiras ao desmatamento

Apesar da forte pressão externa, as terras indígenas continuam desempenhando papel estratégico na conservação ambiental. Juntas, Tirecatinga, Utiariti e Paresi formam um corredor de aproximadamente 1 milhão de hectares de vegetação preservada na Chapada dos Parecis, protegendo nascentes que abastecem o rio Juruena — responsável por mais de 60% da água que chega ao rio Tapajós.

Especialistas destacam que fortalecer a gestão territorial indígena, ampliar políticas de adaptação climática e conter o avanço do desmatamento serão medidas decisivas para garantir a segurança hídrica da região e preservar uma das principais áreas produtoras de água da Amazônia.

By emprezaz

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