A possibilidade de formação de um Super El Niño no segundo semestre de 2026 tem mobilizado especialistas e preocupado comunidades ribeirinhas e indígenas da Amazônia. No oeste do Pará, moradores já temem a repetição — ou até o agravamento — dos impactos registrados durante as secas extremas de 2023 e 2024, que comprometeram o abastecimento de água, o transporte fluvial e a segurança alimentar em diversas localidades. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), há cerca de 90% de probabilidade de ocorrência do fenômeno, que tende a reduzir as chuvas na Região Norte.
Na Terra Indígena Kumaruara, às margens do rio Tapajós, a preocupação já faz parte da rotina. A coordenadora do território, Zenilda Kumaruara, relata que os efeitos das estiagens recentes ainda não foram superados. Segundo ela, muitas comunidades continuam enfrentando dificuldades para obter água potável e dependem do abastecimento vindo de outras localidades durante o período seco.
Além da escassez de água, a redução do volume dos igarapés ameaça diretamente a qualidade de vida das aldeias. Zenilda destaca que a proteção da floresta é essencial para manter o equilíbrio do ciclo hidrológico amazônico.
“A gente procura plantar e fazer o monitoramento territorial para que a nossa floresta não seja destruída, porque sabemos que a água da Amazônia depende das árvores”, afirmou a liderança indígena.
Aquecimento do Pacífico altera regime de chuvas
De acordo com o professor Lucas Vaz Peres, da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), o El Niño é provocado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico, fenômeno que modifica a circulação atmosférica e reduz significativamente as chuvas sobre a Amazônia.
Segundo o pesquisador, embora episódios de El Niño façam parte da variabilidade natural do clima, os chamados Super El Niños têm se tornado mais frequentes em um contexto de mudanças climáticas, potencializando seus efeitos sobre os ecossistemas e as populações amazônicas.
A expectativa é de redução das precipitações nas cabeceiras dos rios amazônicos, provocando queda dos níveis d’água, dificuldades para a navegação, isolamento de comunidades e aumento do risco de incêndios florestais.
Ribeirinhos são os mais vulneráveis
Os impactos da estiagem atingem especialmente as populações que dependem dos rios para transporte, abastecimento, pesca e acesso a serviços de saúde e educação.
Com a diminuição da navegabilidade, comunidades podem ficar isoladas por semanas, enquanto a redução da disponibilidade de água compromete atividades agrícolas, a pesca e o consumo humano. O cenário também favorece a propagação de queimadas, que afetam a qualidade do ar e ampliam os danos ambientais.
Preservar a floresta é parte da solução
Para as lideranças indígenas da região, enfrentar os efeitos de eventos climáticos extremos passa necessariamente pela conservação da floresta.
A manutenção da cobertura vegetal contribui para proteger nascentes, preservar os igarapés e manter o equilíbrio do ciclo das chuvas, reduzindo a vulnerabilidade das comunidades diante das mudanças climáticas.
Caso a previsão do Inmet se confirme, o oeste do Pará poderá enfrentar uma estiagem semelhante — ou até mais severa — que a observada nos últimos anos, com reflexos diretos sobre o abastecimento de água, a navegação, a produção agrícola e o modo de vida das populações tradicionais da Amazônia.

