REDAÇÃO PLANETA AMAZÔNIA
Áreas consideradas essenciais para a sobrevivência de aves ameaçadas na Amazônia brasileira vêm sofrendo avanço acelerado do desmatamento mesmo sem possuírem proteção legal formal. Levantamento da InfoAmazonia mostra que as chamadas Áreas Importantes para a Conservação das Aves (IBAs, na sigla em inglês) perderam mais de 1,8 mil km² de floresta entre 2023 e 2025.
As IBAs são territórios identificados cientificamente como fundamentais para conservação de espécies raras, migratórias ou ameaçadas de extinção. Apesar da relevância ecológica, muitas dessas áreas não estão oficialmente incluídas no sistema brasileiro de unidades de conservação.
Segundo a análise, apenas 15% das 58 IBAs localizadas na Amazônia brasileira possuem proteção integral por estarem totalmente sobrepostas a terras indígenas ou unidades de conservação. Outras 35% não possuem qualquer sobreposição com áreas protegidas oficiais, ficando mais vulneráveis ao avanço da grilagem, agropecuária e exploração madeireira.
Espécies ameaçadas perdem habitat na floresta amazônica
Entre as espécies afetadas está o gavião-real (Harpia harpyja), uma das maiores aves de rapina das Américas e símbolo da biodiversidade amazônica. A espécie depende de grandes árvores e extensas áreas contínuas de floresta para construir ninhos e caçar mamíferos como preguiças e macacos.
A ave habita a região de Caxiuanã/Portel, no Pará, uma das áreas classificadas como IBA. Segundo pesquisadores, a fragmentação da floresta reduz drasticamente as condições de sobrevivência da espécie.
O pesquisador Mario Cohen Haft, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), afirmou à reportagem que “a Amazônia é o último reduto do gavião-real” e alertou para a necessidade urgente de interromper o desmatamento e restaurar áreas degradadas.
Outra espécie sob forte ameaça é o jacamim-de-costas-escuras (Psophia obscura), ave considerada criticamente ameaçada de extinção e encontrada na IBA Gurupi, região que perdeu 114 km² de floresta no período analisado.
Desmatamento compromete equilíbrio ecológico
Especialistas afirmam que os impactos vão além da redução populacional das aves. Muitas espécies amazônicas desempenham funções essenciais para manutenção da floresta, como dispersão de sementes, controle de insetos e equilíbrio da cadeia alimentar.
Segundo o pesquisador Thiago Orsi, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a perda de determinadas aves compromete processos ecológicos fundamentais da floresta.
Espécies frugívoras, por exemplo, ajudam sementes a alcançar áreas distantes da planta de origem, contribuindo para regeneração florestal e diversidade vegetal. Sem esses animais, parte do ciclo ecológico da Amazônia acaba interrompida.
Além disso, a fragmentação da mata aumenta vulnerabilidade das aves a predadores, reduz áreas de reprodução e intensifica competição por alimento.
IBAs não possuem reconhecimento jurídico no Brasil
As Áreas Importantes para Conservação das Aves fazem parte de uma iniciativa global criada pela BirdLife International na década de 1980 para identificar habitats prioritários para biodiversidade.
No Brasil, porém, as IBAs não possuem reconhecimento jurídico automático como áreas protegidas. Isso significa que, embora sejam consideradas prioritárias pela ciência, elas não recebem necessariamente proteção ambiental oficial.
Pesquisadores defendem que parte dessas áreas seja incorporada ao sistema nacional de conservação por meio da criação de novas unidades de conservação ou fortalecimento da proteção territorial existente.
Amazônia segue sob pressão do desmatamento
O avanço do desmatamento nas IBAs ocorre em um contexto mais amplo de pressão sobre ecossistemas amazônicos. Apesar da redução recente das taxas gerais de desmatamento na Amazônia Legal, especialistas alertam que a devastação continua avançando sobre áreas privadas, regiões de fronteira agrícola e habitats críticos para biodiversidade.
O Pará continua entre os estados com maior pressão ambiental dentro do chamado “arco do desmatamento”, região historicamente marcada por expansão agropecuária, exploração madeireira e conflitos fundiários.
Segundo organizações ambientais, habitats de espécies raras costumam ser mais sensíveis à fragmentação florestal porque dependem de grandes áreas contínuas de mata preservada.
Conservação entra no centro do debate climático
Especialistas afirmam que proteger áreas prioritárias para biodiversidade se tornou parte estratégica das metas climáticas globais.
Além da conservação de espécies ameaçadas, florestas preservadas ajudam no armazenamento de carbono, manutenção dos rios voadores e estabilidade climática da Amazônia.
Pesquisadores também alertam que o desaparecimento gradual de aves pode gerar impactos em cascata sobre o funcionamento dos ecossistemas amazônicos.
Nesse cenário, a situação das IBAs evidencia um dos principais desafios da conservação brasileira: áreas reconhecidas pela ciência como essenciais para biodiversidade seguem vulneráveis por falta de proteção legal efetiva.

