Redação Planeta Amazônia
Apesar de abrigar a maior floresta tropical do planeta e uma das maiores concentrações de biodiversidade do mundo, a Amazônia ainda enfrenta um obstáculo que compromete o desenvolvimento de uma economia baseada na floresta em pé: a falta de infraestrutura tecnológica para transformar recursos naturais em produtos de maior valor agregado.
O alerta foi feito pelo climatologista Carlos Nobre em artigo publicado na plataforma Ecoa, do UOL. Segundo o pesquisador, um estudo divulgado na revista científica Sustainability identificou um cenário que ele classifica como “vazio tecnológico” da Amazônia, caracterizado pela escassez de biofábricas e unidades industriais voltadas ao processamento de matérias-primas da biodiversidade regional.
A pesquisa, conduzida ao longo de uma década por pesquisadores ligados ao tema da bioeconomia amazônica, identificou apenas 187 biofábricas distribuídas pela Amazônia brasileira. Essas estruturas são responsáveis por transformar produtos da floresta, como frutas, sementes, óleos e outros recursos naturais, em alimentos processados, cosméticos, medicamentos e insumos químicos de maior valor comercial.
Concentração limita oportunidades
O levantamento revelou que as biofábricas estão presentes em apenas 72 dos 559 municípios da Amazônia Legal brasileira. Na prática, isso significa que aproximadamente 90% dos municípios amazônicos não possuem infraestrutura industrial voltada ao aproveitamento econômico da biodiversidade local.
Segundo Carlos Nobre, essa ausência de estruturas produtivas impede que comunidades locais capturem parte significativa da riqueza gerada pelos recursos naturais da floresta. Como resultado, matérias-primas frequentemente deixam a região com baixo valor agregado, enquanto os processos de industrialização e os maiores ganhos econômicos ocorrem em outros centros do país ou no exterior.
O estudo também aponta uma forte concentração das biofábricas existentes. Cerca de metade das unidades identificadas está localizada em apenas seis municípios: Manaus, Belém, Castanhal, Santarém, Benevides e Igarapé-Miri. Esse cenário evidencia desigualdades regionais e reforça a dificuldade de interiorização das oportunidades econômicas ligadas à bioeconomia.
Biodiversidade sem industrialização
Para especialistas, a situação ajuda a explicar um dos principais paradoxos amazônicos: uma região reconhecida mundialmente pela riqueza biológica, mas que ainda apresenta baixos índices de industrialização associados ao uso sustentável dos recursos florestais.
Carlos Nobre destaca que a Amazônia possui potencial para desenvolver cadeias produtivas inovadoras baseadas em ingredientes naturais, biotecnologia, cosméticos, alimentos funcionais e fármacos. No entanto, a ausência de infraestrutura tecnológica, investimentos em pesquisa aplicada e capacidade industrial continua limitando esse processo.
Segundo o pesquisador, aproximadamente 14 milhões de pessoas vivem em municípios amazônicos onde não há registros de biofábricas ligadas ao aproveitamento industrial da biodiversidade. Isso reduz as possibilidades de geração de emprego, renda e desenvolvimento local a partir da floresta em pé.
Amazônia 4.0 e a nova economia da floresta
Há alguns anos, Carlos Nobre vem defendendo a criação de uma nova economia amazônica baseada em ciência, tecnologia e inovação. Uma das principais iniciativas nessa direção é o projeto Amazônia 4.0, que propõe a instalação de biofábricas e laboratórios criativos próximos às comunidades da floresta para agregar valor aos produtos da sociobiodiversidade.
A proposta busca substituir o modelo histórico baseado na exportação de commodities por uma economia capaz de transformar localmente matérias-primas amazônicas em produtos sofisticados e competitivos no mercado global. Para os idealizadores, essa estratégia pode gerar desenvolvimento econômico sem ampliar o desmatamento e contribuir para a conservação da floresta.
Desafio para o futuro da região
Especialistas avaliam que superar o chamado “vazio tecnológico” será um dos principais desafios para consolidar a bioeconomia como alternativa de desenvolvimento sustentável na Amazônia. O avanço da infraestrutura industrial, da pesquisa científica e da inovação é apontado como essencial para que a região consiga converter sua extraordinária biodiversidade em riqueza, emprego e qualidade de vida para a população local.
Para Carlos Nobre, a Amazônia possui todos os elementos necessários para liderar uma nova economia baseada no conhecimento e na floresta em pé. O desafio, segundo ele, está em criar as condições para que essa transformação ocorra em escala capaz de beneficiar milhões de amazônidas e reduzir a dependência de modelos econômicos associados ao desmatamento e à degradação ambiental.

