Um fornecedor da cadeia global da Nestlé suspendeu temporariamente a compra de cacau de produtores do Pará após a identificação de alertas de desmatamento em áreas fornecedoras. A medida foi adotada pela multinacional suíça Barry Callebaut, uma das maiores processadoras de cacau do mundo e fornecedora da Nestlé, após notificações emitidas por um sistema independente de monitoramento ambiental.
Segundo investigação publicada pela Repórter Brasil, os alertas foram gerados pela plataforma Forest Eye, desenvolvida pela organização holandesa AidEnvironment, que utiliza imagens de satélite para monitorar áreas produtoras de commodities agrícolas. O sistema identificou indícios de supressão de vegetação em propriedades localizadas no Pará vinculadas ao fornecimento de cacau.
Diante das notificações, a Barry Callebaut interrompeu temporariamente as compras dessas propriedades até a conclusão das verificações técnicas, em uma medida alinhada às exigências de rastreabilidade e combate ao desmatamento nas cadeias globais de abastecimento.
Rastreabilidade ganha peso no mercado internacional
O caso ocorre em um momento em que grandes empresas do setor alimentício reforçam mecanismos de controle sobre suas cadeias produtivas em preparação para a entrada em vigor do Regulamento Europeu para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), que exigirá comprovação de que produtos como cacau, café, soja, madeira e carne não estejam associados ao desmatamento após a data de corte definida pela legislação europeia.
Nos últimos anos, ferramentas de monitoramento por satélite passaram a integrar os programas de devida diligência das principais empresas do setor, permitindo identificar rapidamente possíveis irregularidades ambientais e adotar medidas preventivas antes que os produtos cheguem aos mercados consumidores.
Empresas reforçam compromisso ambiental
Em nota encaminhada à Repórter Brasil, a Nestlé informou que compra cacau de empresas processadoras e mantém uma política de abastecimento baseada em sua Norma de Fornecimento Responsável e no Código de Conduta de Fornecedores, que estabelecem critérios relacionados à proteção ambiental, direitos humanos, ética e governança.
A empresa afirmou que realiza um processo contínuo de devida diligência, incluindo visitas de campo, avaliações socioambientais e monitoramento por imagens de satélite.
Segundo a companhia, o programa Nestlé Cocoa Plan, desenvolvido há mais de 15 anos no Brasil, reúne atualmente mais de 6.500 propriedades parceiras, monitoradas por meio da metodologia Prodes, utilizada oficialmente pelo governo brasileiro para acompanhar o desmatamento na Amazônia.
Ainda conforme a empresa, quando um alerta de desmatamento é confirmado, a propriedade é automaticamente excluída do programa. A Nestlé destacou que continua investindo em rastreabilidade e transparência para fortalecer o compromisso de manter uma cadeia produtiva livre de desmatamento.
A Barry Callebaut também informou que permanece comprometida com a proteção das florestas, com a implementação das exigências da EUDR e com o fortalecimento de cadeias de suprimento livres de desmatamento, ressaltando que investe continuamente em sistemas de rastreabilidade, transparência e monitoramento socioambiental.
Pressão por sustentabilidade aumenta no setor do cacau
O episódio evidencia a crescente pressão exercida por mercados internacionais, consumidores e investidores para que empresas demonstrem controle efetivo sobre suas cadeias produtivas.
O Brasil vem ampliando sua participação na produção mundial de cacau, especialmente na Amazônia, onde estados como Pará, Rondônia e Acre têm registrado expansão da atividade. Ao mesmo tempo, cresce a necessidade de compatibilizar o desenvolvimento da cadeia produtiva com a conservação das florestas e o cumprimento de padrões ambientais internacionais.
Especialistas apontam que sistemas de rastreabilidade e monitoramento por satélite tendem a se tornar cada vez mais importantes para garantir acesso aos mercados externos e fortalecer a competitividade do cacau brasileiro.
Para o setor, a combinação entre produção sustentável, transparência e conformidade ambiental deverá ser um dos principais fatores de competitividade da cacauicultura nos próximos anos, especialmente diante das novas exigências regulatórias internacionais.

