Adaptação climática ainda é desafio no Brasil; experiência no RS e propostas apontam caminhos

À medida que eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes e intensos, adaptar cidades e comunidades aos impactos das mudanças do clima tornou-se um dos principais desafios ambientais e sociais do Brasil. Experiências já colocadas em prática mostram que tecnologia, planejamento, sistemas de alerta e preparação da população podem reduzir riscos, mas especialistas apontam que o país ainda precisa transformar iniciativas isoladas em políticas articuladas e permanentes.

O tema integra um dos documentos elaborados pelo Observatório do Clima (OC) para as Eleições 2026, que reúne propostas de adaptação às mudanças climáticas e gestão de riscos de desastres.

Um dos exemplos apresentados é o município de Encantado, no Vale do Taquari, Rio Grande do Sul, região duramente atingida por enchentes nos últimos anos. A cidade desenvolveu uma ferramenta de inteligência artificial capaz de acompanhar em tempo real o nível de rios e barragens e projetar a evolução das inundações durante períodos de chuva.

Inteligência artificial ajuda a antecipar enchentes

O sistema utilizado em Encantado calcula, a partir do ritmo de elevação do rio, quais cotas podem ser alcançadas nas horas seguintes. As informações são utilizadas pela Defesa Civil para orientar moradores sobre o momento em que devem deixar áreas ameaçadas.

Em vez de criar uma nova plataforma, a administração municipal optou por distribuir os alertas por grupos de WhatsApp já utilizados pelas comunidades.

Segundo Stéfanie Casagrande, secretária municipal de Inovação e Educação de Encantado, a escolha busca garantir que as informações realmente cheguem à população.

“Não adianta criar um outro aplicativo que as pessoas não vão baixar. Tem que usar o que elas já têm.”

A tecnologia já deixou de ser apenas experimental. Durante o evento climático dos dias 21 e 22 de julho, a ferramenta foi utilizada pelo município. No mês passado, mais de 140 municípios gaúchos registraram danos provocados por temporais.

Tragédias de 2023 e 2024 mudaram percepção sobre o risco

Encantado convive historicamente com enchentes, mas a velocidade e a dimensão dos eventos recentes alteraram a forma como o município encara os riscos climáticos.

Casagrande relata que, anteriormente, a subida do rio durante períodos chuvosos ocorria em ritmo que permitia aos moradores retirar pertences e às escolas se organizar. Em setembro de 2023, porém, temporais fizeram o Rio Taquari subir rapidamente.

Na ocasião, havia a expectativa de que uma inundação daquela dimensão demoraria décadas para voltar a acontecer. Apenas oito meses depois, em maio de 2024, o Rio Grande do Sul enfrentou uma das maiores tragédias climáticas de sua história. Em Encantado, houve deslizamentos e novas mortes.

A sucessão dos episódios levou a administração municipal a rever suas estratégias de preparação.

Município criou centro de resiliência climática

Como resposta às tragédias, Encantado reformulou o projeto educacional Encanta Hub, incorporando a ele um centro de resiliência climática. A nova estrutura foi lançada em novembro de 2025.

Estudantes da rede municipal participam de atividades no contraturno, incluindo uma trilha de aprendizagem denominada “Cidade Resiliente e Sustentável”. No mesmo prédio funciona o centro onde foi desenvolvida a ferramenta de inteligência artificial utilizada no monitoramento das enchentes.

Durante eventos extremos, a estrutura assume outra função: torna-se base do gabinete de crise e da central de comando.

O prédio foi preparado para continuar funcionando mesmo diante de interrupções de serviços essenciais. Possui internet via satélite, gerador de energia e caixas-d’água, evitando que uma emergência deixe as equipes sem comunicação, eletricidade ou abastecimento, como ocorreu durante as enchentes de 2023 e 2024.

O município também começou a instalar placas indicando rotas de fuga, áreas com alto risco de inundação e pontos de encontro.

O próximo passo é buscar recursos para instalar uma cozinha industrial no centro. Além das atividades educacionais, a estrutura poderá produzir refeições destinadas às pessoas que precisarem ser abrigadas durante enchentes.

A fotografia que abre a reportagem original, na primeira página do material, dimensiona justamente esse tipo de risco: uma imagem de satélite mostra extensa área do Vale do Taquari tomada pelas águas durante as enchentes de maio de 2024.

Especialista vê experiência como exemplo de adaptação

Para Thaynah Gutierrez, assessora de clima e racismo ambiental do Geledés – Instituto da Mulher Negra, as medidas adotadas por Encantado são um exemplo de adaptação climática e gestão de riscos de desastres — duas agendas que passam a se sobrepor diante do agravamento da crise climática.

A experiência municipal, entretanto, contrasta com as dificuldades existentes em grande parte do país.

Gutierrez chama atenção para a dimensão territorial brasileira e para a necessidade de coordenação entre diferentes níveis de governo.

“Estamos falando de um país continental, com 5,5 mil municípios, e que, para conseguir coordenar ações de adaptação, precisa de mais do que um plano robusto do Governo Federal.”

Na avaliação da especialista, o país necessita de uma forte interlocução interfederativa, porque os riscos e as respostas necessárias variam significativamente entre territórios.

Um mesmo plano não atende realidades diferentes

A educação é utilizada por Gutierrez para exemplificar o problema.

Uma escola localizada em área sujeita a deslizamentos possui necessidades diferentes de outra exposta principalmente a alagamentos. Enquanto uma situação pode exigir estratégias para reconstrução, outra pode demandar um plano detalhado de evacuação.

Por isso, segundo a especialista, não seria suficiente uma Secretaria Estadual de Educação elaborar um único plano de contingência aplicável indistintamente a todas as escolas.

A resposta precisa conectar os planos municipais às estratégias estaduais e às políticas de diferentes áreas, como Educação, Saúde, Assistência Social e Fazenda.

Essa abordagem transforma a adaptação climática em uma política transversal. Em vez de permanecer restrita aos órgãos ambientais e às Defesas Civis, ela passa a influenciar planejamento urbano, escolas, saúde pública, infraestrutura, assistência social e orçamento.

Quase 30% dos municípios enfrentam vulnerabilidade climática e fiscal

Além da coordenação administrativa, o financiamento aparece como um dos principais obstáculos.

Levantamento do Observatório do Clima divulgado em março mostrou que 28,6% dos municípios brasileiros estavam simultaneamente em situação de vulnerabilidade climática e fiscal.

Na prática, são municípios que precisam investir para enfrentar eventos climáticos extremos, mas não possuem condições financeiras de contratar empréstimos para executar as intervenções necessárias.

Para Thaynah Gutierrez, o desenho das políticas de financiamento precisa considerar essa desigualdade.

A especialista defende equilíbrio entre recursos reembolsáveis, como empréstimos, e não reembolsáveis, que não precisam ser devolvidos quando aplicados de acordo com as finalidades e regras estabelecidas.

Sem esse equilíbrio, alerta, os mecanismos de financiamento climático podem aprofundar as desigualdades regionais: justamente os municípios mais vulneráveis podem ter maior dificuldade para acessar recursos destinados à adaptação.

Observatório do Clima apresenta quase 20 propostas

Diante desse cenário, o Observatório do Clima reuniu quase 20 recomendações sobre adaptação e gestão de riscos de desastres em seu caderno de propostas para as Eleições 2026.

Entre as medidas defendidas estão:

  • estabelecimento de metas, indicadores e avaliações de risco climático;
  • ampliação dos sistemas de monitoramento e alerta;
  • fortalecimento do planejamento territorial resiliente;
  • incentivo às soluções baseadas na natureza;
  • proteção das populações vulneráveis e dos ecossistemas;
  • enfrentamento do racismo ambiental;
  • promoção da justiça climática;
  • construção de cidades mais resilientes e justas.

As propostas mostram que adaptação climática não significa apenas reagir depois de enchentes, secas, ondas de calor ou deslizamentos. O objetivo é antecipar riscos e preparar territórios, infraestrutura e população antes que os desastres ocorram.

A experiência de Encantado ilustra essa mudança de abordagem. Depois de enfrentar sucessivas tragédias, o município passou a combinar tecnologia para antecipar inundações, comunicação direta com moradores, educação climática, infraestrutura preparada para emergências e definição de rotas de fuga.

Transformar experiências desse tipo em políticas capazes de alcançar milhares de municípios, entretanto, exigirá enfrentar diferenças territoriais e fiscais profundas. Nesse cenário, coordenação entre governos, planejamento local e acesso ao financiamento aparecem como condições fundamentais para que a adaptação deixe de ser uma resposta pontual aos desastres e passe a integrar o planejamento permanente das cidades brasileiras.

Reportagem original de Priscila Pacheco, publicada pelo Observatório do Clima em 13 de agosto de 2026.

By emprezaz

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens relacionadas