Documentário registra saber ancestral do povo Baniwa sobre manejo da fauna e alerta para impactos da crise climática na Amazônia

O manejo tradicional da fauna praticado pelo povo Baniwa, no Alto Rio Negro (AM), é o tema central do documentário “Eenonai: Conservação e manejo na casa dos animais”, lançado durante a COP30, em Belém. A produção registra conhecimentos ancestrais relacionados à caça sustentável e mostra como essas práticas, fundamentais para a segurança alimentar e para a conservação da floresta, vêm sendo afetadas pela emergência climática.

Mais do que retratar uma atividade de subsistência, o filme revela um sistema complexo de conhecimentos ecológicos construído ao longo de séculos pelos Baniwa. O título faz referência à palavra “Eenonai”, utilizada pelos conhecedores da etnia para designar os animais, simbolizando a profunda relação espiritual, cultural e ambiental que esse povo mantém com a fauna da região do rio Ayari, na bacia do rio Içana, território predominantemente habitado pelos Baniwa.

A caça segue regras que garantem o equilíbrio da floresta

A produção acompanha o cotidiano das comunidades e demonstra que o manejo da fauna vai muito além da captura de animais. O documentário apresenta os rituais, os conhecimentos e os critérios que orientam cada caçada, desde a escolha do período adequado até o preparo dos instrumentos utilizados.

Entre os aspectos registrados estão o momento correto para sair em busca da caça, o preparo e armazenamento do curare — veneno tradicional utilizado nas flechas —, o respeito aos ciclos naturais das espécies, a orientação para não abater mais animais do que o necessário e a prática de repartir a caça entre as famílias da comunidade. Esses elementos fazem parte de um conjunto de normas culturais que busca garantir a continuidade dos recursos naturais para as gerações futuras.

Segundo o documentário, esse conhecimento tradicional integra um sofisticado sistema de manejo desenvolvido pelos povos indígenas do Alto Rio Negro, uma das regiões mais preservadas da Amazônia.

Patrimônio cultural reconhecido nacionalmente

As práticas documentadas fazem parte do Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro (SAT-RN), reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio cultural brasileiro.

Embora o sistema seja frequentemente associado ao cultivo agrícola, ele engloba um conjunto integrado de conhecimentos sobre manejo da floresta, da fauna, dos rios e dos alimentos, formando uma base essencial para a organização social e para a soberania alimentar das comunidades indígenas da região.

Para os realizadores, registrar esse patrimônio em audiovisual também representa uma estratégia de fortalecimento cultural, permitindo que as novas gerações tenham acesso aos conhecimentos transmitidos tradicionalmente pelos anciãos.

Emergência climática altera ciclos naturais e preocupa comunidades

Um dos principais eixos do documentário é mostrar que esse modo de vida enfrenta desafios cada vez maiores em razão das mudanças climáticas.

Os Baniwa relatam alterações no comportamento dos animais, mudanças nos períodos de reprodução, transformações nos ciclos da floresta e dificuldades crescentes para manter práticas tradicionais que dependem do equilíbrio ambiental. A intensificação de secas, cheias e outros eventos extremos modifica a disponibilidade da fauna e interfere diretamente nos conhecimentos acumulados ao longo de gerações.

Ao documentar essas transformações, o filme evidencia que a crise climática não ameaça apenas a biodiversidade amazônica, mas também o patrimônio cultural e os modos de vida dos povos indígenas.

Conhecimento indígena ganha reconhecimento científico

O educador, pesquisador e liderança indígena Dzoodzo Baniwa, que participou da produção do documentário, destaca que a obra busca valorizar um conhecimento construído por muitas gerações e demonstrar que o manejo indígena da fauna constitui uma importante estratégia de conservação ambiental.

Essa percepção também encontra respaldo em pesquisas científicas recentes. Um estudo publicado em 2025 na revista Nature, citado pelos produtores do documentário, concluiu que o manejo tradicional da fauna realizado por povos indígenas e comunidades tradicionais sustenta aproximadamente 11 milhões de habitantes da Amazônia, além de contribuir para a manutenção dos ecossistemas florestais.

Cinema como ferramenta de valorização dos saberes amazônicos

Ao reunir imagens do cotidiano das comunidades, depoimentos de lideranças indígenas e registros das práticas tradicionais de caça, “Eenonai: Conservação e manejo na casa dos animais” amplia a visibilidade de conhecimentos que, durante décadas, permaneceram restritos aos territórios indígenas.

Mais do que apresentar uma tradição cultural, o documentário propõe uma reflexão sobre o papel dos povos indígenas na conservação da Amazônia e reforça que proteger seus territórios significa também preservar conhecimentos fundamentais para enfrentar os desafios ambientais do século XXI.

By emprezaz

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