Pirarucu manejado da Amazônia ganha as passarelas em coleção com rastreabilidade por blockchain

O pirarucu manejado de forma sustentável na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá, no Amazonas, vai ganhar as passarelas da moda. Neste sábado, 29 de agosto, a coleção “Gigantio | Tempo-Memória em Nós” será apresentada no Amazon Poranga Fashion, reunindo bioeconomia, saberes tradicionais, design amazônico e tecnologia de rastreabilidade.

Idealizada pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS), a iniciativa foi desenvolvida em colaboração com os designers amazonenses Siodohi, da Siodohi Studio, e Regina Ramos, da Sapopema. As peças utilizam couro proveniente do manejo sustentável do pirarucu realizado em Mamirauá e incorporam tecnologia blockchain para acompanhar a origem do material ao longo da cadeia produtiva.

A proposta busca mostrar que um recurso proveniente da sociobiodiversidade amazônica pode percorrer um caminho que começa nos territórios e chega à moda autoral, agregando valor à produção regional e aproximando o consumidor das comunidades envolvidas no manejo.

Da floresta para a moda autoral

A coleção estabelece uma conexão entre conservação ambiental e criatividade ao apresentar o pirarucu para além de sua utilização como alimento. O couro do peixe se transforma em matéria-prima para peças que procuram expressar diferentes identidades e referências da Amazônia.

Para Wildney Mourão, gerente do programa de empreendedorismo da FAS e responsável pelo projeto, a iniciativa demonstra como inovação e criatividade podem transformar recursos da sociobiodiversidade em oportunidades econômicas.

Segundo Mourão, a combinação entre manejo sustentável, rastreabilidade e trabalho de designers da moda autoral permite fortalecer a bioeconomia, gerar renda e aproximar os consumidores das pessoas responsáveis por essa cadeia produtiva. A proposta, acrescenta, é valorizar a floresta em pé conectando tecnologia, território e populações que cuidam da Amazônia.

Regina Ramos leva saberes ribeirinhos à coleção

Uma das responsáveis pela criação é a estilista ribeirinha Regina Ramos, da Sapopema, que incorpora ao projeto conhecimentos e referências construídos a partir de sua própria relação com o território amazônico.

Para Regina, participar da coleção também representa uma nova etapa profissional e a realização de um sonho de infância.

A estilista ressalta que, para quem vive em territórios de populações tradicionais, os produtos estão relacionados a elementos que ultrapassam seu valor comercial. Há uma conexão com ancestralidade, permanência no território e respeito àquilo que a Amazônia oferece às comunidades.

Regina define os moradores desses territórios como “filhos das florestas e dos rios”, destacando que os elementos utilizados nas criações carregam consigo histórias e relações construídas com o ambiente.

Designer indígena conecta moda contemporânea e futurismo amazônico

A outra assinatura da colaboração é de Siodohi, designer de moda, diretor criativo e indígena do povo Waikhana (Piratapuya).

Em suas criações, o estilista trabalha elementos da moda contemporânea associados ao conceito de futurismo indígena amazônico. Para a coleção Gigantio, a proposta explora o encontro do couro de pirarucu com outros materiais, como a viscose.

A possibilidade de criar peças concebidas no próprio Amazonas e trabalhar com uma matéria-prima diretamente relacionada às comunidades esteve entre as razões que levaram Siodohi a participar da iniciativa.

Para o designer, o couro utilizado não deve ser compreendido apenas como material para confecção das roupas: possui história, origem, tecnologia e impactos sobre as comunidades envolvidas em sua produção.

Essa perspectiva, segundo ele, dialoga com valores da Siodohi Studio relacionados à responsabilidade coletiva, transparência e impactos produzidos no ecossistema da economia criativa do Amazonas e da Amazônia.

Couro vem do manejo sustentável em Mamirauá

O pirarucu utilizado na coleção é proveniente do manejo sustentável realizado na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.

O modelo de manejo do peixe tornou-se uma atividade associada à conservação dos recursos naturais e à geração de renda para populações que vivem na região.

Na coleção, a cadeia não termina com a utilização do couro pela indústria criativa. O projeto pretende tornar visível todo o percurso realizado pelo produto, desde sua origem até chegar às mãos do consumidor.

É justamente nesse ponto que a tecnologia passa a ocupar papel central.

Blockchain permite acompanhar origem do pirarucu

A rastreabilidade acompanha o pescado durante todas as etapas da cadeia produtiva.

As informações são registradas desde a captura do pirarucu, passando pelo processamento da carne e da pele, até a transformação do couro em artigos de moda.

Os dados são organizados em uma plataforma de gestão e posteriormente registrados por meio de blockchain, tecnologia utilizada para ampliar a transparência, a segurança das informações e o controle sobre a procedência do material.

O consumidor também poderá acessar essas informações.

Cada peça da coleção terá na etiqueta um QR Code exclusivo. Ao acessá-lo, será possível conhecer a origem do couro e acompanhar sua trajetória até a transformação em uma criação da Gigantio.

Dessa forma, a tecnologia funciona como uma ponte entre quem compra a peça e o território amazônico onde começa a cadeia produtiva.

Projeto conecta conservação, renda e tecnologia

A iniciativa de rastreabilidade faz parte do projeto “Sistema de Rastreabilidade: Inovação e Inteligência de Mercado na Cadeia Produtiva do Pirarucu da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá”, executado pela Fundação Amazônia Sustentável.

O projeto conta com apoio da Positivo Tecnologia, por meio do Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio), política pública da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) coordenada pelo Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam).

Também participam da iniciativa a Associação dos Moradores e Usuários da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá Antônio Martins (Amurmam), a Cooperativa de Pesca Manejada e de Produtores da Reserva Mamirauá (Coopmaprem) e a Nova Kaeru.

O PPBio foi criado pela Suframa em 2019 e busca direcionar recursos provenientes dos investimentos obrigatórios em Pesquisa e Desenvolvimento para novos produtos, serviços e negócios relacionados à bioeconomia amazônica.

Bioeconomia amazônica chega à passarela

Ao levar o couro de pirarucu manejado ao Amazon Poranga Fashion, a coleção procura demonstrar como cadeias produtivas baseadas na biodiversidade podem combinar conservação ambiental, geração de renda, conhecimentos tradicionais, design e inovação tecnológica.

A rastreabilidade também adiciona uma nova dimensão à experiência de consumo. Em vez de conhecer apenas a peça final, quem adquirir uma criação poderá acessar informações sobre a procedência da matéria-prima e o caminho percorrido pelo couro.

A proposta amplia ainda a visibilidade das populações tradicionais que participam da cadeia e dos conhecimentos relacionados ao manejo do pirarucu.

Com Regina Ramos e Siodohi levando diferentes experiências e identidades amazônicas às criações, a coleção transforma a passarela em espaço para discutir também território, ancestralidade e o potencial econômico da floresta conservada.

Neste sábado, o pirarucu que começa sua trajetória nas águas de Mamirauá chega à moda carregando não apenas uma nova função para seu couro, mas uma história que a tecnologia pretende permitir ao consumidor acompanhar desde a origem.

By emprezaz

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