Encontro reúne 38 povos e fortalece protagonismo indígena na restauração ecológica no Brasil

Representantes de todos os biomas defendem participação desde a elaboração dos projetos, acesso direto a financiamento e reconhecimento dos conhecimentos tradicionais nas políticas de recuperação ambiental

Representantes de 38 povos indígenas de todos os biomas brasileiros se reuniram em Brasília para fortalecer uma agenda própria de restauração ecológica e ampliar a participação indígena nos espaços onde são definidas políticas, investimentos e estratégias para recuperação dos ecossistemas do país. O II Encontro Indígena de Restauração Ecológica (II EIRE) ocorreu nos dias 25 e 26 de julho e reuniu cerca de 100 participantes, dos quais 80 eram representantes indígenas.

Organizado em parceria com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), com apoio do Instituto Socioambiental (ISA), do Redário, da Rede de Sementes do Xingu e de outros parceiros, o encontro deu continuidade a uma articulação iniciada em 2024. O objetivo é fazer com que os povos indígenas não sejam tratados apenas como executores de projetos de restauração, mas participem desde a definição das prioridades até a gestão dos recursos e a formulação das políticas públicas.

Restaurar vai além de recuperar áreas degradadas

Durante dois dias, rituais, rodas de conversa, atividades culturais e cirandas de conhecimento permitiram a troca de experiências entre representantes de diferentes territórios.

Um dos principais pontos defendidos no encontro é que o conceito indígena de restauração não se limita ao plantio de árvores ou à recuperação física de áreas degradadas. Para os participantes, restaurar também significa fortalecer os territórios, revitalizar culturas, conservar a biodiversidade, garantir soberania alimentar e manter vivos conhecimentos ancestrais relacionados ao cuidado com a terra.

As discussões também avançaram sobre políticas públicas, governança e a construção do Programa Indígena de Restauração Ecológica (PIRE), além da necessidade de ampliar a representação dos povos indígenas nas instâncias nacionais que tomam decisões sobre o tema.

Participaram representantes de organizações como a Rede de Sementes do Xingu (RSX), de Mato Grosso; a Rede de Sementes da Bioeconomia da Amazônia (RESEBA), de Rondônia; e a Rede de Sementes Serra da Lua (RESSEL), de Roraima.

Mobilização começou no primeiro encontro, em 2024

O II EIRE é resultado de uma mobilização iniciada durante o primeiro Encontro Indígena de Restauração Ecológica, realizado em Juazeiro, na Bahia, em 2024.

Na ocasião, representantes de 41 povos produziram uma carta na qual defenderam que não existe restauração efetiva sem a participação dos povos indígenas.

Entre as reivindicações estavam presença em todas as etapas dos projetos, acesso direto aos recursos financeiros, reconhecimento dos conhecimentos tradicionais e maior representação indígena nos espaços responsáveis pela governança da restauração ecológica.

Dois anos depois, essas reivindicações permanecem no centro da articulação.

Povos indígenas querem participar das decisões e gerir recursos

Um dos pontos mais enfatizados pelas lideranças no segundo encontro foi a necessidade de superar um modelo no qual projetos são elaborados externamente e posteriormente apresentados às comunidades para execução.

Os participantes reivindicaram participação desde a concepção das iniciativas, com capacidade para estabelecer prioridades de acordo com as necessidades de cada território e administrar diretamente os recursos destinados à restauração.

Outra preocupação é garantir que os projetos produzam resultados que permaneçam depois do encerramento do financiamento.

Por isso, as iniciativas de recuperação ambiental devem, segundo os participantes, estar conectadas às economias da sociobiodiversidade, produção de alimentos, coleta e comercialização de sementes nativas, artesanato e outras atividades capazes de gerar renda e autonomia para as comunidades.

Durante o encontro, uma das participantes resumiu essa preocupação ao afirmar que os povos não querem permanecer “submissos aos editais”, dependendo continuamente da aprovação de novos projetos para manter iniciativas em seus territórios.

Conhecimentos indígenas são parte das soluções

As discussões também reforçaram o papel histórico dos povos indígenas na conservação dos ecossistemas brasileiros.

Seus sistemas de conhecimento, formas de manejo e modos de vida estão diretamente relacionados à conservação encontrada em muitas Terras Indígenas. Dessa perspectiva, restaurar áreas degradadas não significa apenas recuperar vegetação, mas também fortalecer as populações que historicamente mantêm florestas, águas e biodiversidade protegidas.

Essa compreensão procura colocar os conhecimentos indígenas no centro das políticas de restauração, e não apenas incorporá-los de maneira complementar a modelos previamente definidos por governos, organizações ou financiadores.

Carta “Nós Somos a Regeneração” apresenta reivindicações

A mobilização do II EIRE avançou para a VI Conferência Brasileira de Restauração Ecológica (SOBRE2026), realizada na semana seguinte, também em Brasília.

Em 31 de julho, durante a plenária de encerramento da conferência, representantes indígenas apresentaram a Carta dos Povos Indígenas do II Encontro Indígena de Restauração Ecológica, intitulada “Nós Somos a Regeneração”.

O documento defende que restauração ecológica, na perspectiva dos povos indígenas, é inseparável de cultura, espiritualidade e território. A carta também propõe reconhecer e fortalecer os chamados “ninhos da vida”, expressão utilizada para caracterizar territórios onde relações, conhecimentos e práticas responsáveis pela manutenção da vida continuam sendo cultivados.

Entre os principais encaminhamentos estão o fortalecimento das políticas ambientais, a criação de mecanismos que permitam acesso direto dos povos indígenas aos financiamentos, participação desde a concepção dos projetos e construção coletiva do Programa Indígena de Restauração Ecológica.

O documento reivindica ainda a continuidade da formação dos Multiplicadores Indígenas em Restauração Ecológica (MIRE) e o reconhecimento dos territórios indígenas como fundamentais para que o Brasil consiga cumprir suas metas nacionais de restauração.

Agenda busca transformar participação em poder de decisão

A realização do encontro e a apresentação da carta durante a SOBRE2026 mostram que a discussão indígena sobre restauração avança para além do reconhecimento simbólico dos conhecimentos tradicionais.

A reivindicação central é por participação efetiva na governança, no financiamento e na tomada de decisões, reconhecendo que os povos indígenas possuem experiências próprias de recuperação e conservação construídas ao longo de gerações.

Nesse sentido, a agenda consolidada em Brasília sustenta que políticas nacionais de restauração precisam combinar recuperação ambiental com autonomia territorial, geração de renda, proteção da biodiversidade e valorização cultural.

A mensagem apresentada pelos representantes indígenas é que o cumprimento das metas brasileiras de restauração dependerá não apenas de recursos, tecnologias e políticas públicas, mas também do reconhecimento daqueles que historicamente mantêm seus territórios e conhecimentos associados à conservação da natureza.

By emprezaz

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