Depois de nove meses de criação, agricultores indígenas da comunidade Lago Grande, na zona rural de Boa Vista, em Roraima, retiraram mais de duas toneladas de tambaqui dos tanques na primeira despesca realizada pelo projeto na comunidade.
A produção terá dois destinos: uma parte ficará nas próprias famílias, contribuindo para a alimentação da comunidade, enquanto outra poderá ser comercializada e gerar renda aos produtores.
A iniciativa faz parte do Moro-Morí, projeto municipal de piscicultura criado em 2023 e desenvolvido em comunidades indígenas de Boa Vista. Em Lago Grande, aproximadamente 15 famílias participam da ação.
O resultado também demonstra a expansão da criação de peixes em comunidades onde a pesca tradicional nem sempre está facilmente disponível. Desde o ano passado, a iniciativa já alcançou uma produção de aproximadamente 11 toneladas de pescado.
Nove meses de trabalho até a primeira despesca
A despesca é o momento em que os peixes cultivados são retirados dos tanques depois de atingirem as condições previstas para consumo ou comercialização.
Em Lago Grande, esse momento chegou depois de nove meses de criação.
O peixe escolhido foi o tambaqui, espécie de grande importância alimentar e econômica na Amazônia e apontada pela reportagem como a mais consumida na região e a principal explorada no mercado de Roraima.
O resultado do primeiro ciclo foi superior a duas toneladas.
A produção é significativa não apenas pelo volume, mas pela proposta do projeto: utilizar a piscicultura como instrumento de segurança alimentar e geração de renda dentro das próprias comunidades indígenas.
Peixe será consumido e também comercializado
O secretário municipal de Agricultura e Assuntos Indígenas, Cezar Riva, explicou que a produção será dividida entre consumo interno e comercialização.
Segundo o secretário, essa combinação permite melhorar a qualidade nutricional da alimentação das famílias ao mesmo tempo em que cria uma possibilidade de renda.
A intenção é também estimular a autonomia dos participantes para que, havendo condições, as próprias comunidades consigam ampliar gradualmente a produção.
Esse modelo permite que o pescado cumpra duas funções: abasteça as famílias envolvidas e, quando houver excedente, possa ser transformado em receita e reinvestimento.
Segurança alimentar para as famílias indígenas
Para Manoel Serafim, coordenador do projeto na comunidade Lago Grande, a produção representa uma contribuição importante para uma alimentação sustentável.
Ele também destacou a participação dos moradores no cuidado com a criação e defendeu que outras famílias sejam incentivadas a participar da iniciativa.
A piscicultura pode ter importância ainda maior em comunidades que não possuem acesso próximo a rios com disponibilidade suficiente de pescado.
Essa situação já havia sido relatada por moradores atendidos pelo mesmo projeto em outras localidades.
Na comunidade Truaru da Cabeceira, por exemplo, o responsável local pelo Moro-Morí, Jucinei de Souza, explicou em 2025 que a ausência de rio próximo dificultava a pesca. Com os tanques, os moradores passaram a ter a possibilidade de utilizar o tambaqui em diferentes preparações, inclusive na damorida, comida tradicional indígena, além de comercializar parte da produção.
Projeto já produziu cerca de 11 toneladas
A experiência de Lago Grande integra uma iniciativa que já alcança outras comunidades indígenas de Boa Vista.
Desde o ano passado, o Moro-Morí produziu aproximadamente 11 toneladas de peixes.
Além de Lago Grande, a criação em tanques ocorre nas comunidades Ilha, Serra da Moça, Darôra, Campo Alegre e Vista Alegre.
A proposta municipal, entretanto, é mais ampla.
Informações divulgadas anteriormente pela Prefeitura de Boa Vista indicam que o projeto pretende atender 17 comunidades indígenas, sendo 13 localizadas na região do Baixo São Marcos e quatro na região do Murupu.
Lago Grande, onde ocorreu a despesca mais recente, está justamente no Baixo São Marcos.
Prefeitura fornece estrutura para criação
O Moro-Morí é executado pela Secretaria Municipal de Agricultura e Assuntos Indígenas (SMAAI).
O modelo adotado envolve desde a preparação da estrutura até o acompanhamento do ciclo produtivo.
A Prefeitura informou anteriormente que realiza a escavação dos tanques e fornece alevinos, ração e equipamentos necessários ao manejo dos peixes.
Entre os equipamentos disponibilizados estão rede de arrasto, balança, kit reagente e conjunto motor-bomba. Os participantes também recebem assistência para acompanhar alimentação, qualidade da água e desenvolvimento dos animais.
Os tanques de engorda construídos nas comunidades possuem 20 metros por 150 metros.
A escavação é realizada durante o verão, aproveitando o período mais adequado para preparar a estrutura para retenção de água durante o inverno amazônico.
Conhecimento deve permanecer nas comunidades
Um dos objetivos do projeto é fazer com que a experiência não dependa permanentemente da assistência externa.
O técnico da SMAAI responsável pelas comunidades indígenas, Ariosto Aparecido, explicou anteriormente que a participação direta dos moradores é um dos diferenciais da iniciativa.
Além dos insumos, os participantes recebem orientação sobre manejo para adquirir conhecimento necessário à continuidade da criação.
Na avaliação do técnico, o objetivo final é permitir que os próprios participantes ampliem a produção e melhorem o acesso ao pescado, sobretudo nas localidades mais afastadas dos rios.
Moro-Morí significa “peixe bom”
O próprio nome do projeto está relacionado à cultura indígena de Roraima.
Segundo a Prefeitura de Boa Vista, Moro-Morí significa “peixe bom”, em macuxi.
A escolha do tambaqui também aproxima o projeto dos hábitos alimentares da região.
Nativo da bacia amazônica, o peixe ocupa posição relevante tanto na alimentação quanto na piscicultura regional.
Dentro das comunidades participantes, a produção pode assumir ainda outra dimensão: além do aspecto econômico, o pescado passa a integrar preparações tradicionais e contribui para ampliar a disponibilidade local de proteína.
Meta é chegar a 40 toneladas a cada dez meses
A expansão prevista para o projeto pode elevar consideravelmente a produção.
Quando todas as comunidades planejadas forem atendidas, a estimativa divulgada pela Prefeitura é alcançar 40 toneladas de tambaqui a cada dez meses.
O volume projetado considera o funcionamento dos tanques nas diferentes localidades e está associado à estratégia de melhorar a alimentação e ampliar as possibilidades de renda das famílias participantes.
A primeira despesca de Lago Grande representa mais uma etapa desse processo.
As mais de duas toneladas retiradas depois de nove meses mostram, na prática, como a criação em tanques pode complementar outras atividades desenvolvidas nas comunidades indígenas de Roraima.
Entre consumo próprio e comercialização, o tambaqui passa a cumprir simultaneamente funções de alimento, geração de renda e fortalecimento da autonomia produtiva, enquanto o conhecimento sobre a criação permanece com os próprios moradores.

