Pirão no Prato pretende conectar mais de 10 mil famílias produtoras à alimentação escolar em dez municípios, incluindo comunidades indígenas e tradicionais; iniciativa tem apoio do Fundo Amazônia
Alimentos produzidos por agricultores familiares, indígenas e comunidades tradicionais da Amazônia deverão chegar com maior frequência às refeições servidas a milhares de estudantes da rede pública do Amazonas.
Essa é a proposta do Pirão no Prato, projeto executado pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS) com apoio do Fundo Amazônia, administrado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
A iniciativa pretende beneficiar cerca de 68 mil estudantes e mais de 10 mil famílias produtoras em dez municípios amazonenses, aproximando quem produz alimentos nos territórios de quem organiza, compra, prepara e consome as refeições nas escolas.
O projeto tem investimento de R$ 47.758.979, integralmente apoiado pelo Fundo Amazônia. A execução está prevista até 2029.
Além de melhorar a alimentação escolar, a proposta pretende criar mercado para a agricultura familiar, incentivar sistemas agroflorestais e outras práticas de produção sustentável e movimentar as economias locais.
Dez municípios serão atendidos
Segundo o material divulgado pela FAS, o Pirão no Prato terá duração de quatro anos e atuará nos municípios de Beruri, Carauari, Eirunepé, Fonte Boa, Itapiranga, Manacapuru, Maraã, Manicoré, Novo Aripuanã e Uarini.
As áreas de atuação incluem também Unidades de Conservação e territórios indígenas.
O objetivo é construir uma ligação mais eficiente entre a produção existente nesses territórios e a demanda gerada diariamente pelas redes públicas de ensino.
Para Eduardo Rizzo, engenheiro florestal e coordenador do projeto, a iniciativa pretende fazer com que alimentos nutritivos e culturalmente adequados cheguem aos estudantes ao mesmo tempo em que a agricultura familiar ganha acesso ao mercado institucional.
Segundo Rizzo, mais de 87% das escolas abrangidas pelo território de atuação funcionam em zonas rurais ou ribeirinhas, onde as dificuldades logísticas tornam mais complexo o abastecimento. A estratégia inclui ainda incentivar práticas de agricultura de baixo carbono, como sistemas agroflorestais.
Mais de 10 mil famílias produtoras poderão ser beneficiadas
O alcance esperado não se restringe aos alunos.
A estimativa da FAS é beneficiar mais de 10 mil famílias produtoras, criando oportunidades para que agricultores familiares consigam inserir sua produção no mercado de compras públicas.
Para Valcléia Lima, superintendente-geral adjunta da FAS, os efeitos esperados incluem tanto a segurança alimentar das crianças quanto a geração de renda nos territórios e nas diferentes calhas de rios do Amazonas.
O projeto inclui a produção oriunda de Povos Indígenas e demais Povos e Comunidades Tradicionais, além de outros agricultores familiares.
Agricultura familiar ainda está abaixo do percentual previsto para alimentação escolar
Um dos desafios apontados pelo projeto está na participação dos alimentos da agricultura familiar nas refeições das escolas.
De acordo com o release, a legislação atual estabelece que pelo menos 45% das compras destinadas à alimentação escolar sejam provenientes da agricultura familiar.
No Amazonas, os dados mais recentes do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) citados pela FAS, referentes a 2022, mostram que esse percentual chegou a apenas 31,5%.
O Pirão no Prato pretende contribuir para diminuir essa diferença.
O projeto foi selecionado dentro da chamada pública Amazônia na Escola, iniciativa articulada no âmbito do Fundo Amazônia para fortalecer a produção sustentável e sociobiodiversa e ampliar sua participação na alimentação escolar da Amazônia Legal.
Do agricultor até o prato dos estudantes
Para enfrentar as dificuldades existentes entre produção e consumo, o projeto foi organizado em duas grandes frentes.
A primeira acontece no início da cadeia.
Os agricultores deverão receber apoio para estruturação, licenciamento e beneficiamento da produção, além de equipamentos para transporte e assessoria técnica.
A segunda frente acontece nas escolas.
Estão previstas melhorias na estrutura para armazenamento dos alimentos, revisão dos cardápios escolares, implantação de hortas e agroflorestas e capacitação de merendeiras.
A proposta é atuar, portanto, nos dois lados do sistema: criar condições para que agricultores consigam produzir, organizar e comercializar os alimentos e, simultaneamente, preparar as escolas para receber e utilizar essa produção.
Frutos, tubérculos e sistemas agroflorestais terão apoio científico
O projeto também terá participação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
A FAS e a instituição formalizaram, em 18 de setembro, um acordo para ampliar a colaboração em iniciativas de desenvolvimento sustentável na Amazônia.
A cooperação permitirá incorporar conhecimento científico e técnico ao trabalho realizado nos territórios, especialmente em experiências relacionadas à diversidade de frutos e tubérculos e aos sistemas agroflorestais.
Para Ana Euler, diretora de Inovação Social e Transferência de Tecnologia da Embrapa, a instituição deverá contribuir com o conhecimento acumulado em genética de frutos e tubérculos e em sistemas agroflorestais para aproximar a produção das comunidades da merenda escolar nos dez municípios.
Essa integração também pode ajudar produtores a ampliar e diversificar a oferta de alimentos disponíveis para as compras públicas.
Manacapuru estará entre os primeiros municípios
A implementação começará com a formalização de acordos de cooperação técnica entre o projeto e as prefeituras participantes.
Depois disso, serão realizados diagnósticos locais para conhecer a situação da alimentação escolar, a estrutura disponível nas escolas e as condições da produção agrícola.
Essas informações serão utilizadas para determinar quais unidades de ensino e organizações produtivas receberão apoio e quais intervenções serão necessárias em cada município.
Manacapuru estará entre os primeiros municípios a passar por esse processo.
Entre setembro e outubro, a equipe deverá realizar visitas de campo para mapear escolas, associações e cooperativas e identificar as necessidades locais.
Eduardo Rizzo explica que o diagnóstico permitirá avaliar tanto a estrutura física quanto a qualidade da alimentação oferecida aos estudantes antes de definir a execução do projeto.
Município quer ampliar conhecimento técnico
A subsecretária municipal de Educação de Manacapuru, Mara Regina, avalia a chegada do projeto como uma oportunidade para aperfeiçoar o trabalho já desenvolvido pela rede.
Segundo ela, embora o município já possua uma estrutura, há interesse em fortalecer a capacidade técnica e incorporar novos conhecimentos à alimentação escolar.
A experiência em Manacapuru deverá ajudar a orientar as ações antes da expansão das atividades nos demais territórios contemplados.
Fundo Amazônia investe R$ 47,7 milhões
A dimensão financeira do Pirão no Prato ajuda a mostrar o alcance pretendido.
De acordo com a base oficial do Fundo Amazônia, o projeto possui valor total de R$ 47.758.979, todo financiado pelo fundo.
A iniciativa foi aprovada em setembro de 2025 e contratada em novembro daquele ano. Até agora, foi registrado um primeiro desembolso de R$ 4.872.049, realizado em 31 de julho de 2026, equivalente a aproximadamente 10% do apoio contratado.
O financiamento é não reembolsável e tem como finalidade apoiar a produção sustentável da agricultura familiar, incluindo indígenas e outras comunidades tradicionais, e ampliar a aquisição desses alimentos pelas redes públicas de ensino do Amazonas.
Alimentação escolar pode abrir mercado para produção da floresta
O Pirão no Prato utiliza uma demanda que já existe — milhares de refeições servidas diariamente nas escolas — para tentar estruturar um mercado mais regular para quem produz alimentos nos territórios amazônicos.
A lógica é fazer com que parte do dinheiro destinado à alimentação escolar também circule entre agricultores familiares, associações, cooperativas, indígenas e comunidades tradicionais.
Ao mesmo tempo, produtos locais podem ganhar maior espaço nos cardápios, aproximando as refeições escolares dos hábitos alimentares e da produção disponível em cada território.
É nesse encontro entre alimentação escolar, agricultura familiar e desenvolvimento local que está a principal proposta do projeto.
Até novembro de 2029, o desafio será transformar o investimento de R$ 47,7 milhões em uma cadeia capaz de funcionar do início ao fim: da produção sustentável nos territórios, passando por beneficiamento e transporte, até a chegada do alimento ao prato de aproximadamente 68 mil estudantes amazonenses.

