Dia da Árvore: um em cada quatro hectares de vegetação nativa da Mata Atlântica cresceu após desmatamento

Levantamento do MapBiomas mostra que 24% da vegetação nativa atual do bioma é secundária; apesar da regeneração, 60% da supressão registrada nos últimos cinco anos ocorreu justamente nessas áreas

A Mata Atlântica apresenta atualmente um cenário marcado por regeneração e perda de vegetação. Um em cada quatro hectares de vegetação nativa existente no bioma corresponde a áreas que voltaram a crescer depois de terem sido desmatadas desde 1985, segundo novos dados divulgados pelo MapBiomas neste domingo (21), Dia da Árvore.

A chamada vegetação secundária já representa 24% da vegetação nativa da Mata Atlântica. São áreas onde a cobertura natural voltou a se estabelecer depois de episódios anteriores de supressão.

Ao mesmo tempo, parte significativa dessa vegetação recuperada está sendo novamente perdida. Entre 2021 e 2025, 60% de toda a supressão de vegetação nativa registrada no bioma ocorreu em áreas de vegetação secundária.

Os dados integram a Coleção 11 dos mapas anuais de cobertura e uso da terra do Brasil do MapBiomas, que acompanha as transformações ocorridas entre 1985 e 2025.

Mata Atlântica perdeu 9,7 milhões de hectares de vegetação madura

Nas últimas quatro décadas, a Mata Atlântica perdeu 9,7 milhões de hectares de vegetação madura, classificação utilizada no levantamento para as áreas que permaneciam mapeadas como vegetação nativa desde 1985.

No caminho inverso, mais de 8 milhões de hectares de vegetação secundária se estabeleceram em locais que haviam perdido anteriormente sua cobertura natural.

A regeneração, portanto, compensou parte das perdas, mas não foi suficiente para impedir uma redução líquida da vegetação nativa.

Considerando toda a cobertura nativa, a Mata Atlântica perdeu 5 milhões de hectares desde 1985, uma redução de 12%.

Em 2025, a vegetação nativa ocupava apenas 32% do território do bioma, enquanto a agropecuária respondia por 63%. Entre os estados abrangidos pela Mata Atlântica, Rio de Janeiro e São Paulo foram os únicos que não apresentaram perda de vegetação nativa nos últimos 41 anos.

Regeneração é fundamental, mas novas perdas preocupam

Para Natalia Crusco, coordenadora técnica da Mata Atlântica do MapBiomas, a recuperação de áreas anteriormente desmatadas desempenha papel importante na restauração do bioma.

Ela ressalta, entretanto, que a regeneração precisa ser acompanhada pela conservação das áreas que já existem.

Segundo Crusco, é fundamental evitar novas perdas tanto da vegetação madura quanto da secundária, principalmente em um bioma historicamente submetido à ocupação humana e marcado por forte fragmentação.

A própria metodologia do MapBiomas define vegetação secundária como uma área que apresenta trajetória de recuperação depois de um evento anterior de supressão.

Isso significa que uma área desmatada pode, ao longo do tempo, voltar a apresentar cobertura vegetal nativa — seja pela regeneração natural, seja por processos de restauração.

700 mil hectares recuperados voltaram a ser suprimidos

Os números dos últimos cinco anos mostram a vulnerabilidade dessas áreas em recuperação.

Entre 2021 e 2025, a Mata Atlântica perdeu 1,2 milhão de hectares de vegetação nativa.

Desse total:

  • 700 mil hectares eram de vegetação secundária;
  • 500 mil hectares eram de vegetação madura.

Assim, as áreas que já haviam passado anteriormente por desmatamento e voltado a desenvolver vegetação responderam por 60% de toda a supressão registrada no período.

Apesar disso, a tendência histórica de supressão apresenta redução. A partir dos anos 2000, a área de vegetação nativa perdida ficou abaixo de 2 milhões de hectares em cada intervalo de cinco anos analisado pelo levantamento.

Agricultura ganhou cerca de 11 milhões de hectares

Enquanto a vegetação nativa perdeu espaço, a agricultura apresentou forte expansão.

Foi a classe de uso da terra que mais cresceu na Mata Atlântica durante os 41 anos analisados.

A área agrícola passou de 9,7 milhões de hectares em 1985 para 20,5 milhões em 2025 — crescimento de aproximadamente 11 milhões de hectares.

Atualmente, a agricultura ocupa 19% do território do bioma.

Em 2025, a Mata Atlântica concentrava ainda 31% de toda a área agrícola do Brasil.

A maior parte dessa expansão, entretanto, não ocorreu diretamente sobre vegetação nativa.

Segundo o levantamento, 79% do aumento da agricultura aconteceu sobre áreas anteriormente ocupadas por pastagens, que perderam aproximadamente 11 milhões de hectares ao longo do período.

A conversão de pastagens em agricultura respondeu por 19% das mudanças de cobertura e uso da terra identificadas entre o início e o fim da série histórica.

Soja avançou 8,7 milhões de hectares

Entre as culturas agrícolas, a soja apresentou uma das expansões mais expressivas.

A cultura ganhou 8,7 milhões de hectares entre 1985 e 2025 e passou a ocupar 11,11 milhões de hectares na Mata Atlântica.

A área atual é 4,6 vezes maior que a registrada no início da série histórica.

A cana-de-açúcar também avançou: foram 5 milhões de hectares adicionais, chegando a 6,15 milhões de hectares em 2025 — área 5,3 vezes superior à existente em 1985.

No último ano analisado, a Mata Atlântica concentrava:

25% da soja, 50% da cana-de-açúcar, 68% do café e 34% dos citrus das áreas mapeadas no Brasil.

Silvicultura quadruplicou em quatro décadas

A silvicultura também ampliou significativamente sua presença no território.

Sua área tornou-se quatro vezes maior desde 1985, com acréscimo de 3,8 milhões de hectares.

Em 2025, a atividade ocupava 4,9 milhões de hectares na Mata Atlântica, equivalente à metade de toda a silvicultura mapeada no país.

Paraná e Santa Catarina concentravam, juntos, 46% dessa área dentro do bioma.

Para Luís Fernando Guedes Pinto, diretor-executivo da SOS Mata Atlântica, a relação entre agropecuária, desmatamento e regeneração mudou ao longo das últimas décadas.

Ele observa que, depois de um período marcado pelo avanço agrícola sobre vegetação nativa, mais recentemente a agricultura passou a ocupar principalmente áreas de pastagem, enquanto parte das pastagens passou a ceder espaço para vegetação secundária.

Na avaliação de Guedes Pinto, essa dinâmica é relevante para o objetivo de alcançar o desmatamento zero e ampliar a restauração necessária à manutenção dos serviços ecossistêmicos utilizados pela população e pela economia.

Área urbanizada cresceu 2,5 vezes

As transformações da Mata Atlântica não estão restritas ao campo.

A área urbanizada do bioma cresceu 2,5 vezes entre 1985 e 2025.

Foram incorporados aproximadamente 1,3 milhão de hectares, levando a superfície urbanizada total a 2,3 milhões de hectares.

Em 2025, 52% de toda a área urbanizada do Brasil estava dentro da Mata Atlântica.

Apesar da forte concentração populacional existente no bioma, mais de 80% dos municípios possuíam menos de mil hectares urbanizados.

Somente São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba ultrapassavam a marca de 30 mil hectares.

São Paulo, Paraná e Minas Gerais registraram os maiores aumentos absolutos de urbanização ao longo das quatro décadas.

Ilhabela teve área urbanizada multiplicada por 14,5

O MapBiomas também analisou separadamente as ilhas costeiras da Mata Atlântica.

Segundo dados do IBGE utilizados no levantamento, o bioma possui 195 ilhas costeiras. As dez maiores concentram 78,5% da área insular e estão localizadas principalmente nas regiões Sul e Sudeste.

As três maiores são Ilha de Santa Catarina, com 42,1 mil hectares; Ilhabela, com 34,2 mil hectares; e Ilha de São Francisco, com 26,9 mil hectares. Entre as dez maiores, somente Itaparica, na Bahia, está no Nordeste.

Em 2025, 70% da área conjunta dessas ilhas ainda era coberta por vegetação nativa.

Mesmo assim, seis das dez maiores perderam vegetação nativa desde 1985.

Em quatro delas, a área urbanizada mais que dobrou. O caso mais expressivo ocorreu em Ilhabela, onde a urbanização cresceu 14,5 vezes.

O aumento foi de 6,4 vezes em Itaparica, 3,6 vezes na Ilha de São Francisco e 2,4 vezes na Ilha de Santa Catarina.

Quatro grandes ilhas conseguiram ampliar vegetação nativa

A trajetória não foi igual em todas as áreas insulares.

Quatro das dez maiores ilhas registraram aumento de vegetação nativa durante os 41 anos analisados: Ilha das Peças, no Paraná; Ilha do Cardoso, em São Paulo; Ilha do Superagui, no Paraná; e Ilha Grande, no Rio de Janeiro.

Consideradas conjuntamente, elas apresentaram crescimento de 1,7% das áreas naturais entre 1985 e 2025.

Recuperação revela uma Mata Atlântica em transformação

Os novos dados mostram que a atual cobertura da Mata Atlântica não é composta apenas pelos remanescentes que atravessaram as últimas décadas sem serem desmatados.

Uma parcela significativa é formada por vegetação que está retornando.

Ao mesmo tempo em que 24% da vegetação nativa atual é secundária, essas mesmas áreas respondem pela maior parte da supressão recente — um sinal de que regeneração e desmatamento continuam ocorrendo simultaneamente no território.

O levantamento faz parte da Coleção 11 do MapBiomas, que mapeia 33 classes de cobertura e uso da terra entre 1985 e 2025. Os dados, mapas, métodos e códigos produzidos pela iniciativa são disponibilizados gratuitamente ao público.

A plataforma do MapBiomas permite ainda acompanhar anualmente as áreas de vegetação secundária, distinguindo aquelas já consolidadas das que se encontram em recuperação.

O retrato de quatro décadas revela, assim, uma Mata Atlântica profundamente transformada: enquanto agricultura, silvicultura e cidades ganharam espaço, milhões de hectares anteriormente desmatados também começaram a recuperar sua cobertura natural. O desafio apontado pelos pesquisadores é fazer com que essas áreas em regeneração tenham tempo para permanecer e se desenvolver — em vez de ingressarem novamente no ciclo de supressão.

By emprezaz

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