Mudanças climáticas podem agravar disputa pela água de Belo Monte no rio Xingu

Dez anos após sua inauguração, a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, enfrenta um desafio que tende a se tornar ainda mais complexo nas próximas décadas: como dividir uma quantidade potencialmente menor de água entre a geração de energia e a manutenção dos ecossistemas e das comunidades da Volta Grande do Xingu.

Pesquisadores ouvidos pela revista Pesquisa FAPESP alertam que as mudanças climáticas e o desmatamento podem reduzir significativamente as chuvas sobre a bacia do rio Xingu. O cenário agravaria uma disputa que já existe em torno do regime de vazões adotado pela hidrelétrica.

Belo Monte é a segunda maior hidrelétrica em operação no Brasil e, dependendo da época do ano e das condições climáticas, responde por cerca de 5% a 10% da eletricidade consumida no país. Para gerar energia, o empreendimento desvia aproximadamente 80% da água do Xingu por barragens e canais artificiais na região de Altamira.

O desvio afeta especialmente a Volta Grande do Xingu, trecho de aproximadamente 100 quilômetros que abriga comunidades indígenas e ribeirinhas e ecossistemas de florestas alagáveis.

Cheias passaram de 80 para apenas nove dias, aponta monitoramento

Dados apresentados pelo Monitoramento Ambiental Territorial Independente (Mati) indicam uma profunda alteração do regime hidrológico da Volta Grande após o início da operação de Belo Monte.

O grupo comparou dados oficiais da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) referentes aos períodos anterior e posterior à instalação da hidrelétrica.

Segundo o levantamento, houve meses em que a vazão média caiu quase 90% em relação à série histórica anterior à barragem. A duração média dos períodos de cheia passou de aproximadamente 80 para apenas nove dias por ano, enquanto os períodos classificados como seca extrema aumentaram de 45 para 104 dias.

O cenário mais crítico ocorreu em 2024, quando a região enfrentou seis meses consecutivos de seca extrema em meio a um forte El Niño.

As alterações não envolvem apenas a quantidade de água. O momento em que ocorrem as cheias e a duração das inundações são fundamentais para os ciclos ecológicos do Xingu.

Mudanças climáticas podem retirar até 500 milímetros de chuva

É justamente nesse cenário já alterado que os pesquisadores inserem os efeitos futuros das mudanças climáticas.

Projeções realizadas pelo professor Nicolás Stríkis, do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP), indicam que a redução das precipitações sobre a bacia do Xingu poderá chegar a 500 milímetros por ano até o fim deste século, dependendo da intensidade do aquecimento global.

Atualmente, a precipitação média na bacia gira em torno de 1.800 milímetros anuais. Pelas projeções apresentadas, o volume poderia cair para 1.500 a 1.300 milímetros por ano em diversas áreas.

Em anos de seca extrema, a precipitação poderia chegar à faixa de 800 a 900 milímetros anuais, aproximando determinadas condições climáticas daquelas encontradas no Cerrado.

Além de chover menos, temperaturas maiores elevam a evapotranspiração, fazendo com que mais água retorne à atmosfera. A combinação dos dois fatores tende a piorar o balanço hídrico da bacia.

Os pesquisadores destacam que o desmatamento da Amazônia também participa desse processo ao contribuir para o aumento das temperaturas e a redução das precipitações.

Menos água ameaça ecossistemas e comunidades

A alteração do pulso natural de inundação possui consequências que se espalham por todo o ecossistema.

Antes da regulação da vazão, as águas normalmente começavam a subir em novembro, atingiam o pico da cheia em abril e depois recuavam até a seca de outubro.

Esse ciclo permitia a inundação dos igapós, áreas de floresta alagada essenciais para alimentação e reprodução de diferentes espécies de peixes.

Com a operação da usina, a vazão na Volta Grande passou a depender também das regras de funcionamento de Belo Monte.

Pesquisadores do Mati sustentam que áreas utilizadas como berçários naturais e locais de reprodução dos peixes deixaram de alagar ou permanecem inundadas por períodos insuficientes para completar os ciclos ecológicos.

Comunidades indígenas e ribeirinhas relatam ainda redução da pesca, dificuldades de navegação, problemas de acesso à água e prejuízos ao deslocamento para serviços essenciais. As estimativas apresentadas pela reportagem indicam que entre 3 mil e 6 mil pessoas vivem no Trecho de Vazão Reduzida afetado pela operação da usina.

Norte Energia contesta conclusões dos pesquisadores

A responsável pela operação de Belo Monte, a Norte Energia, contesta a avaliação apresentada pelo Mati.

Segundo a empresa, os estudos do grupo apresentam limitações metodológicas e não seriam suficientes para fundamentar alterações no atual regime de vazões.

A companhia afirma que seu próprio monitoramento não identifica ruptura ecológica, perda irreversível de habitats, extinção local de espécies ou interrupção de ciclos reprodutivos. Para a operadora, o que ocorre é uma reorganização do sistema compatível com aquilo que já havia sido previsto no Estudo de Impacto Ambiental.

A Norte Energia afirma ainda desenvolver programas socioambientais destinados a prevenir, mitigar e compensar impactos relacionados ao empreendimento.

A divergência entre os dados e interpretações está no centro da discussão sobre a renovação da licença de operação da usina.

Hidrograma de Belo Monte está no centro da disputa

A quantidade mínima de água que deve permanecer na Volta Grande é definida pelo chamado Hidrograma de Consenso.

O modelo originalmente possuía duas versões, A e B, que deveriam ser alternadas anualmente. Entretanto, o Hidrograma A nunca chegou a ser implementado por determinação do Ibama, devido ao baixo volume de água previsto.

Desde 2019, Belo Monte opera somente com o Hidrograma B. No mês de abril, período correspondente ao pico da cheia, esse regime determina uma vazão média mínima de 8 mil metros cúbicos por segundo para a Volta Grande.

O Mati argumenta que o volume é insuficiente. A vazão natural histórica do Xingu na região durante abril era de aproximadamente 19 mil metros cúbicos por segundo.

O grupo propõe alternativas, entre elas um hidrograma que elevaria gradualmente a quantidade de água destinada à Volta Grande a partir de novembro, alcançando 14 mil metros cúbicos por segundo em abril.

Outra proposta seria abandonar volumes mensais fixos e estabelecer uma divisão proporcional: 70% da água permaneceria na Volta Grande e 30% seria destinada à geração de energia, com os volumes variando conforme a vazão natural do rio.

Justiça determinou revisão das vazões

A disputa também chegou ao Judiciário.

Em dezembro de 2025, a Justiça Federal em Altamira condenou a Norte Energia e o Ibama a revisar o atual hidrograma e estabelecer um novo regime de vazões. Segundo a Pesquisa FAPESP, entretanto, o cumprimento da decisão deverá ocorrer somente após o trânsito em julgado.

A licença operacional de Belo Monte venceu em novembro de 2021, mas permanece válida por mecanismo de renovação automática enquanto o processo de licenciamento continua.

O Ibama também cobrou administrativamente da empresa a apresentação de uma nova proposta de hidrograma. A Norte Energia defende que uma eventual mudança precisa envolver outros órgãos do governo e argumenta que os impactos permanecem dentro daqueles previstos.

O Ministério de Minas e Energia (MME), por sua vez, defende a manutenção do regime atual em 2026 em razão da importância de Belo Monte para a segurança do sistema elétrico brasileiro.

Dilema também envolve segurança energética

A discussão ganha complexidade porque destinar mais água à Volta Grande significa potencialmente reduzir a quantidade disponível para geração de eletricidade.

Na virada de 2025 para 2026, durante uma forte onda de calor no Sudeste, Belo Monte chegou a responder por mais de 9% da eletricidade consumida no Brasil, segundo dados da própria Norte Energia citados pela Pesquisa FAPESP.

Ao mesmo tempo, as próprias mudanças climáticas podem comprometer a disponibilidade de água necessária para que grandes hidrelétricas mantenham sua capacidade de geração.

O problema, portanto, ultrapassa o debate ambiental sobre a Volta Grande.

Se as projeções de redução das chuvas e aumento das secas se confirmarem, o país poderá enfrentar simultaneamente maior pressão para preservar água nos ecossistemas e menor disponibilidade hídrica para geração de eletricidade.

A discussão sobre Belo Monte passa, assim, a antecipar um desafio mais amplo para o Brasil: adaptar um sistema elétrico fortemente dependente da hidreletricidade a um clima no qual os regimes de chuva podem se tornar cada vez mais instáveis.

Para os pesquisadores, esse cenário reforça a necessidade de ampliar a diversificação da matriz elétrica, com fontes como solar e eólica, reduzindo a pressão sobre os rios.

A Norte Energia afirma acompanhar os estudos sobre mudanças climáticas e seus possíveis impactos sobre os regimes hidrológicos amazônicos e diz considerar esses cenários no planejamento operacional de longo prazo e na gestão de riscos.

O futuro de Belo Monte, portanto, envolve um equilíbrio cada vez mais delicado entre energia, água, biodiversidade e os modos de vida das populações da Volta Grande do Xingu.

Reportagem original oriunda da Pesquisa FAPESP

By emprezaz

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