A Amazônia entra nos próximos meses diante da perspectiva de enfrentar uma combinação particularmente perigosa de seca, temperaturas elevadas, redução dos níveis dos rios e aumento do risco de incêndios florestais. Cientistas alertam que o El Niño em desenvolvimento pode produzir impactos significativos sobre a floresta e sobre milhões de pessoas que dependem dos rios para água, alimentação, transporte e geração de renda.
O fenômeno vem sendo informalmente chamado de “El Niño Godzilla” diante da possibilidade de alcançar elevada intensidade. O termo, entretanto, não integra a classificação científica oficial e especialistas recomendam cautela enquanto ainda não é possível estabelecer definitivamente a força que o evento atingirá.
O alerta ganha dimensão especial porque a floresta ainda sofre os efeitos da seca de 2023 e 2024, quando rios chegaram a níveis historicamente baixos, comunidades ficaram isoladas e houve mortalidade de peixes e botos.
Agora, pesquisadores ouvidos pela Sumaúma avaliam que a região precisa se preparar antecipadamente para evitar que uma nova crise ambiental também se transforme em emergência humanitária.
Família indígena ficou sem água durante a última seca
A dimensão humana do problema aparece na experiência de Mauyra Asurini, professor indígena que vive com a família em uma pequena comunidade na região da bacia do Xingu.
Durante a seca de 2023-2024, o curso d’água utilizado para chegar à localidade perdeu tanta água que nem mesmo pequenas canoas conseguiam navegar.
Além do isolamento, surgiu um problema ainda mais grave: a escassez de água potável.
Mauyra precisou cavar um poço, mas, à medida que a estiagem avançava, era necessário aprofundá-lo. Depois de alguns meses, a alternativa deixou de funcionar.
A família passou então a percorrer quilômetros pela floresta para conseguir água em outro ponto. Era necessário sair ainda de madrugada, antes que o calor reduzisse novamente a disponibilidade de água. Em alguns momentos, o recurso precisou ser racionado.
O relato exemplifica uma vulnerabilidade existente em milhares de localidades amazônicas: quando os rios e igarapés secam, não desaparece apenas uma fonte de água, mas também a principal infraestrutura de transporte dessas populações.
El Niño pode coincidir com período crítico de incêndios
A preocupação aumenta por causa do calendário.
O evento deverá ganhar força justamente no período em que diferentes áreas da Amazônia atravessam meses de menor precipitação e maior ocorrência de incêndios.
A expectativa apresentada pelos especialistas é de que o El Niño alcance seu auge entre outubro e dezembro, embora seus efeitos possam continuar posteriormente.
O Pará decretou estado de alerta climático e ambiental em 24 de agosto, como preparação para o risco de agravamento das secas e dos incêndios.
As projeções indicam possibilidade de atraso na chegada da estação chuvosa à Amazônia, temperaturas mais elevadas e redução da vazão dos rios.
O resultado pode ser uma vegetação mais seca e suscetível à propagação do fogo.
Carlos Nobre alerta para possibilidade de seca grave
O climatologista Carlos Nobre, professor da Universidade de São Paulo (USP) e uma das principais referências científicas sobre a Amazônia, defende que as medidas de preparação sejam adotadas imediatamente.
Segundo o pesquisador, a região precisa manter elevado grau de preparação pelo menos até março de 2027, diante da possibilidade de o El Niño provocar uma seca severa.
A preocupação também encontra precedentes históricos.
Os eventos de 1998-1999, 2015-2016 e 2023-2024 produziram fortes impactos na Amazônia, incluindo redução dos níveis dos rios e aumento dos incêndios.
Para Jos Barlow, pesquisador especializado na Amazônia no Lancaster Environment Centre, a perspectiva de um fenômeno ainda mais intenso preocupa justamente porque os episódios anteriores já provocaram consequências severas para a região.
Floresta está mais vulnerável ao fogo
O El Niño não atua isoladamente.
Os efeitos do fenômeno climático se somam ao aquecimento provocado pelas emissões de gases de efeito estufa e às alterações causadas pelo desmatamento e pela degradação florestal.
Uma pesquisa publicada recentemente na revista Science encontrou evidências de que o aquecimento global provocado pela atividade humana está contribuindo para intensificar a variabilidade associada aos eventos de El Niño.
Na Amazônia, essa combinação pode ser particularmente perigosa.
Áreas degradadas apresentam maior vulnerabilidade ao fogo porque perdem parte das características de umidade que dificultam naturalmente a propagação das chamas dentro de florestas preservadas.
A pesquisadora Erika Berenguer, da Universidade de Oxford, tem trabalhado com brigadistas locais na elaboração de orientações específicas para quatro tipos de floresta amazônica: densa, aberta, inundável e degradada.
Berenguer reconhece avanços importantes na preparação para os incêndios, com melhoria dos equipamentos e do treinamento nos últimos quatro anos. O receio, entretanto, é que um evento climático excepcional possa superar a capacidade disponível para enfrentá-los.
Comunidades tradicionais organizam brigadas
O Brasil chega ao novo El Niño em condições diferentes das existentes há alguns anos.
A redução recente do desmatamento e o reforço das operações de fiscalização diminuíram algumas pressões sobre a floresta. O país também ampliou investimentos na capacidade de combate aos incêndios, enquanto comunidades tradicionais estruturaram suas próprias brigadas.
A preparação precisa, porém, ultrapassar o combate às chamas.
O governo federal já trabalha com estoques de alimentos para enfrentar eventuais situações de escassez, especialmente diante do aumento do risco em Terras Indígenas.
Em áreas protegidas, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) começou a distribuir suprimentos emergenciais para comunidades isoladas.
Ainda existe, contudo, uma lacuna importante.
Famílias que vivem em pequenos povoados fora de áreas diretamente atendidas por estruturas federais também podem ficar isoladas pela redução dos rios, sem acesso adequado a água, alimentos e transporte.
Seca também ameaça produtores rurais
Os impactos não ficam restritos às comunidades tradicionais.
O setor agropecuário começa a se preparar para possíveis consequências sobre pastagens, criação de animais e produção agrícola.
Temperaturas elevadas podem provocar estresse térmico no gado, enquanto a falta de água e a redução da qualidade das pastagens aumentam a necessidade de alimentação complementar e os custos dos produtores.
Culturas agrícolas também podem sofrer com alterações na distribuição das chuvas.
O fenômeno, porém, não produz os mesmos efeitos em todo o Brasil. Enquanto a Amazônia tende a enfrentar condições mais secas, o Sul pode registrar aumento das chuvas, ampliando o risco de extremos em direções diferentes dentro do mesmo país.
“Godzilla” não é classificação científica
A dimensão dos riscos exige também cuidado com a comunicação.
Embora a expressão “El Niño Godzilla” tenha ganhado espaço para descrever um possível evento excepcionalmente intenso, cientistas ressaltam que o termo não pertence à nomenclatura meteorológica.
O climatologista Paulo Artaxo afirma que ainda é necessário acompanhar a evolução do fenômeno antes de estabelecer precisamente sua intensidade e recomenda cautela com adjetivos alarmistas.
Em análise anterior, o climatologista José Marengo também advertiu que expressões como “Mega El Niño” ou “El Niño Godzilla” não possuem base na classificação científica e que previsões de consequências inevitavelmente catastróficas devem ser evitadas.
A incerteza, entretanto, não significa ausência de risco.
O consenso entre os pesquisadores é justamente o contrário: há informações suficientes para justificar preparação antecipada, ainda que a magnitude final do fenômeno continue sendo monitorada.
Risco é de crise ambiental se transformar em humanitária
O principal desafio para os próximos meses será impedir que a redução dos rios e o avanço dos incêndios produzam consequências sociais semelhantes — ou superiores — às observadas durante a seca anterior.
Na Amazônia, rios não representam apenas recursos naturais. São estradas, fontes de alimento e água, meios de transporte para escolas e hospitais e elementos essenciais para a economia de milhares de comunidades.
Quando desaparecem temporariamente trechos navegáveis, populações podem ficar isoladas.
A experiência de Mauyra Asurini demonstra o extremo dessa vulnerabilidade: uma família vivendo na maior floresta tropical do planeta precisou percorrer quilômetros antes do amanhecer para conseguir água potável.
Por isso, pesquisadores defendem que os planos de contingência considerem não apenas incêndios, mas também água potável, segurança alimentar, saúde, transporte e acesso a comunidades remotas.
A intensidade definitiva do El Niño de 2026 ainda será determinada pelos próximos meses. O risco, entretanto, já é suficiente para justificar preparação.
E, em uma Amazônia que ainda carrega as consequências das últimas secas extremas, esperar os rios baixarem e o fogo avançar para somente então reagir pode significar chegar tarde demais.

