Manaus reúne comunidades e investidores para discutir nova economia da Amazônia

Redação Planeta Amazônia

A Amazônia fornece alimentos, óleos, frutos, madeira, princípios ativos, conhecimento tradicional e uma extensa variedade de recursos naturais ao restante do Brasil e do mundo. O desafio colocado agora por organizações, comunidades e empreendedores é fazer com que uma parcela maior da riqueza gerada por esses recursos permaneça justamente onde ela se origina.

Essa discussão estará no centro da quarta edição do Festival de Investimentos de Impacto e Negócios Sustentáveis da Amazônia (FIINSA), que será realizada entre 3 e 5 de novembro, em Manaus, com o tema “O futuro aponta para o Norte”.

O evento reunirá investidores, empreendedores, pesquisadores e lideranças comunitárias para discutir caminhos para a chamada Nova Economia da Amazônia, baseada não apenas na exploração de matérias-primas, mas na geração de valor, inovação e desenvolvimento dentro da própria região.

Um dos princípios defendidos pela organização é que povos indígenas, comunidades tradicionais e outros grupos locais deixem de ocupar exclusivamente a posição de fornecedores ou de pessoas consultadas durante a construção dos projetos.

A proposta é ampliar a participação dessas populações também nas decisões e na condução dos negócios.

Amazônia produz, mas desafio é manter riqueza nos territórios

A discussão parte de uma contradição histórica.

A Amazônia possui uma das maiores biodiversidades do planeta e fornece matérias-primas utilizadas em diferentes cadeias produtivas. Isso, entretanto, não significa necessariamente que o valor econômico gerado por esses produtos permaneça nos territórios onde são produzidos.

Para Juliana Teles, cofundadora do Impact Hub Manaus e da Azô Capital de Impacto e coidealizadora do FIINSA, construir uma economia mais equilibrada exige aproximar negócios de tamanhos muito diferentes.

“Como é que a gente coloca um comprador de um grande negócio com um negócio menor, com um comunitário, com uma população que está ali fornecendo material para esse comprador?”, questiona.

Segundo ela, o festival busca colocar os diferentes atores em uma relação mais horizontal.

A estratégia envolve, de um lado, preparar pequenos empreendimentos para aumentar a qualidade e o valor agregado de seus produtos e, do outro, fazer com que compradores e investidores compreendam melhor a realidade encontrada nos territórios amazônicos.

Produzir mais não resolve sozinho

A lógica defendida pela organização vai além do aumento da produção.

“A Amazônia vende, mas ela só é recomprada se os produtos tiverem qualidade”, afirma Juliana.

Isso significa que fortalecer cadeias da bioeconomia envolve questões como processamento, qualidade, gestão, logística, acesso ao mercado, financiamento e capacidade de negociação.

O objetivo é fazer com que o valor agregado aos produtos seja construído, tanto quanto possível, dentro da própria região.

Na avaliação apresentada pela organização do FIINSA, a nova economia amazônica precisa criar relações comerciais capazes de melhorar as condições de vida das populações que estão na origem dessas cadeias produtivas.

Comunidades querem participar das decisões

Outro ponto central da quarta edição será a posição ocupada por povos indígenas e comunidades tradicionais.

Para Marcus Bessa, cofundador do Impact Hub Manaus e coidealizador do FIINSA, a participação dessas populações não deve acontecer apenas por meio de consultas.

“Eles têm que ser peça fundamental desde a discussão até a execução”, afirma.

Bessa destaca que já existem empreendimentos liderados pelas próprias comunidades tradicionais e pelos povos indígenas. O desafio seria criar condições para que essas iniciativas consigam crescer e para que novos negócios sejam desenvolvidos.

A mudança proposta é significativa: em vez de comunidades chamadas apenas para opinar sobre projetos concebidos por terceiros, elas participariam da própria construção dos modelos econômicos.

“Esse espaço não é só um espaço de consulta, é um espaço de uma construção coletiva”, afirma.

Indígenas, quilombolas e ribeirinhos terão trilha própria

Essa discussão estará concentrada especialmente na trilha Enraizar, uma das seis previstas para o festival.

O espaço será dedicado aos negócios comunitários e reunirá experiências desenvolvidas por associações, cooperativas, coletivos de produtores e empreendedores indígenas, quilombolas e ribeirinhos.

Entre os assuntos previstos estão modelos de governança, acesso a mercados e soluções financeiras adaptadas às características dos territórios amazônicos.

A ideia é considerar que empreendimentos comunitários possuem características distintas de startups ou empresas convencionais e, por isso, podem exigir mecanismos próprios de financiamento e organização.

Festival terá seis trilhas

A programação de 2026 será dividida em seis grandes trilhas: Enraizar, Escalar, Regenerar, Inovar, Estruturar e Encantar.

Os temas abrangem negócios comunitários, empreendimentos de impacto, clima, serviços ambientais, tecnologia, políticas públicas, economia criativa, turismo e cultura.

Mais do que organizar uma sequência tradicional de palestras, os idealizadores pretendem transformar o festival em um ambiente para gerar conexões, investimentos, negócios e parcerias.

A diversidade temática também reflete a amplitude da discussão sobre uma nova economia amazônica.

Bioeconomia não significa apenas comercializar produtos da biodiversidade. Tecnologia, serviços ambientais, turismo, cultura, pesquisa científica e negócios de impacto também podem integrar modelos econômicos vinculados à manutenção da floresta e à valorização dos territórios.

“Bodó na Sala” vai colocar questões incômodas em debate

Uma das novidades da edição será um espaço chamado “Bodó na Sala”.

A proposta é justamente colocar em discussão questões consideradas difíceis e que nem sempre aparecem nos ambientes convencionais de negócios.

Entre elas estão perguntas sobre quem gera, quem distribui e quem efetivamente fica com a riqueza produzida a partir dos recursos amazônicos.

“Uma coisa também que a gente tenta trazer no FIINSA é colocar as perguntas difíceis na mesa”, afirma Juliana Teles.

Para ela, o festival também possui o papel de mediar esses encontros e permitir que questões incômodas sejam discutidas pelos diferentes participantes.

Evento também quer quem ainda tem apenas uma ideia

O FIINSA não será voltado somente a empresas estruturadas ou empreendedores que já possuem faturamento e histórico de investimentos.

Pesquisadores e pessoas que ainda estão transformando uma ideia em negócio também fazem parte do público pretendido.

Segundo André Vianna, diretor técnico do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), engenheiro florestal e mestre em Ciências de Florestas Tropicais pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), haverá espaço para iniciativas em diferentes estágios de desenvolvimento.

“Há espaço para projetos saindo de fase inicial, pesquisadores ou pessoas que têm uma ideia, mas ainda não conseguiram transformá-la em negócio”, afirma.

A aproximação entre ciência e mercado também faz parte dessa estratégia.

Pesquisadores que desenvolvem soluções dentro de universidades e institutos poderão encontrar empreendedores, potenciais clientes, investidores e parceiros interessados em transformar conhecimento científico em produtos ou serviços.

Encontros informais também podem gerar negócios

A organização aposta ainda em algo difícil de medir em uma programação formal: as conexões construídas durante o próprio evento.

Para André Vianna, corredores, intervalos e espaços de convivência também podem funcionar como locais para iniciar parcerias, relações comerciais e trocas de conhecimento.

“Entendo que o evento como um todo permite oportunidades tanto de negócios quanto de investidores. De troca de conhecimentos, como possibilidade de interações, para que se inicie conexões, relações comerciais, oportunidades mais adiante”, afirma.

Essa característica ajuda a explicar por que o festival procura reunir atores que normalmente ocupam ambientes diferentes — de comunidades tradicionais a fundos de investimento.

FIINSA reuniu mais de 800 pessoas em 2024

O festival foi criado em 2018 e chegou à terceira edição, realizada em Manaus em 2024, com mais de 800 participantes.

Em 2025, o FIINSA realizou uma edição especial durante a COP30, em Belém, levando o debate sobre a economia amazônica para um ambiente internacional.

Agora, a quarta edição retorna a Manaus com o objetivo de aprofundar a relação entre negócios e território.

As imagens de divulgação encaminhadas junto à pauta também mostram essa diversidade de formatos: há registros de painéis, grandes rodas de conversa e espaços com exposição de produtos amazônicos nas edições anteriores.

Evento reúne organizações de diferentes setores

O 4º FIINSA é realizado pelo Idesam e Impact Hub Manaus.

Entre os patrocinadores estão Fundo Vale, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), The Climate and Land Use Alliance (CLUA), Grupo Trigo, Fundo Casa Socioambiental, CNP Seguradora e Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio).

A lista de apoiadores inclui Bezos Earth Fund, Amazon Investor Coalition, Bemol, VOX Capital, Natura, Agência Felicidad, Amaz Aceleradora de Negócios de Impacto, Instituto Arumã, Uma Concertação pela Amazônia, Climate Ventures e Manaus Plaza Centro de Convenções.

A presença simultânea de organizações financeiras, empresas, fundos ambientais e instituições ligadas à sustentabilidade demonstra a tentativa de aproximar diferentes fontes de capital dos negócios desenvolvidos na região.

Uma nova economia para evitar uma velha lógica

Por trás das discussões do festival existe uma questão maior.

Desenvolver a bioeconomia amazônica não significa apenas encontrar novas formas de transformar a biodiversidade em produtos comercializáveis. Se os territórios continuarem fornecendo matéria-prima enquanto processamento, tecnologia, financiamento e maior parte dos lucros permanecem fora da região, parte da estrutura econômica histórica poderá simplesmente ser reproduzida sob uma nova denominação.

É justamente essa lógica que o FIINSA pretende colocar em debate.

A proposta apresentada pelos organizadores é construir relações nas quais comunidades participem das decisões, pequenos empreendedores consigam agregar valor aos produtos, pesquisadores encontrem caminhos para levar suas soluções ao mercado e investidores compreendam as particularidades econômicas e sociais da Amazônia.

No centro dessa discussão está uma pergunta que ultrapassa o evento de novembro: se a riqueza nasce da floresta e do conhecimento de quem vive nela, quanto dessa riqueza consegue permanecer na Amazônia?

By emprezaz

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