Uma das maiores descobertas arqueológicas dos últimos anos na Amazônia acaba de ampliar significativamente o conhecimento sobre os povos que habitaram a região antes da chegada dos europeus. Pesquisadores identificaram quase 400 novos geoglifos ocultos sob a cobertura florestal da Amazônia por meio de sobrevoos com tecnologia LiDAR (Light Detection and Ranging), elevando para mais de 20 mil a estimativa de estruturas de terra que podem existir na Amazônia Ocidental. O estudo foi publicado na revista científica Nature e tem o Acre como principal área de investigação.
A pesquisa foi conduzida por uma equipe internacional liderada pelo arqueólogo Martti Pärssinen, da Universidade de Helsinque, em parceria com pesquisadores brasileiros, entre eles o arqueólogo acreano Alceu Ranzi, um dos pioneiros no estudo dos geoglifos do Acre desde o início dos anos 2000. Segundo os cientistas, a utilização do LiDAR permitiu identificar estruturas que permaneciam invisíveis sob a floresta densa, revelando uma ocupação humana muito mais extensa do que se imaginava.
Tecnologia permitiu “enxergar” sob a floresta
Os levantamentos foram realizados em aproximadamente 4,5 mil quilômetros quadrados de floresta preservada no Acre. Diferentemente das imagens de satélite, que identificavam geoglifos apenas em áreas desmatadas, o LiDAR emite pulsos de laser capazes de atravessar parcialmente o dossel da floresta e reconstruir digitalmente o relevo do terreno.
Foi assim que os pesquisadores localizaram 394 novas estruturas, entre geoglifos e outros movimentos de terra, muitos deles completamente encobertos pela vegetação. A descoberta demonstra que o patrimônio arqueológico amazônico é muito mais amplo do que o registrado até agora.
Acre permanece como referência mundial em geoglifos
O Acre já concentra a maior quantidade conhecida de geoglifos da Amazônia. Antes da nova pesquisa, eram conhecidos cerca de 1.300 geoglifos identificados principalmente em áreas abertas pelo desmatamento.
Com os novos levantamentos, os pesquisadores estimam que possam existir entre 24 mil e 30 mil estruturas arqueológicas em toda a região estudada, sendo aproximadamente 20 mil relacionadas à chamada civilização Aquiry, que ocupou parte da Amazônia Ocidental entre os séculos I e IV da Era Cristã.
Pesquisa muda compreensão sobre a ocupação da Amazônia
Para Martti Pärssinen, os resultados representam uma mudança profunda na forma como a história da Amazônia é compreendida.
“Antes pensávamos que nessa região viviam cerca de 100 mil pessoas ou menos. Agora falamos em milhões. Demonstrar isso foi surpreendente porque não esperávamos números dessa magnitude”, afirmou o pesquisador da Universidade de Helsinque.
Com base na distribuição das estruturas, a equipe estima que a sociedade Aquiry ocupou uma área de aproximadamente 183 mil quilômetros quadrados, três vezes maior do que se imaginava anteriormente.
Alceu Ranzi destaca protagonismo do Acre
O arqueólogo Alceu Ranzi, pesquisador acreano que há mais de duas décadas estuda os geoglifos da região, participou da pesquisa e lembra que os primeiros levantamentos foram realizados com imagens de satélite.
Segundo ele, esses estudos iniciais permitiram identificar cerca de 1.300 geoglifos, mas havia a convicção de que a floresta ainda escondia milhares de estruturas desconhecidas. O uso do LiDAR confirmou essa hipótese e abriu uma nova etapa para a arqueologia amazônica.
Especialistas defendem cautela sobre estimativas populacionais
Embora a descoberta tenha sido recebida com entusiasmo, alguns pesquisadores ressaltam que ainda são necessárias novas escavações para compreender a função dessas estruturas e confirmar as estimativas demográficas.
O arqueólogo José Iriarte, da Universidade de Exeter, classificou o estudo como “importante e ambicioso”, mas observou que o número de habitantes proposto pelos autores dependerá de novas evidências arqueológicas.
Já o arqueólogo Eduardo Góes Neves, diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP) e um dos principais especialistas em arqueologia amazônica, considera os resultados plausíveis.
Para Neves, pesquisas como essa ajudam a romper a visão histórica de que a Amazônia era uma região pouco ocupada antes da colonização europeia.
“Esses estudos são muito importantes porque trazem novas evidências de que esses territórios possuem uma longa história indígena”, afirmou.
Descoberta fortalece candidatura dos geoglifos do Acre
Os geoglifos acreanos já integram a Lista Indicativa brasileira ao Patrimônio Mundial da UNESCO e são considerados um dos principais patrimônios arqueológicos da Amazônia.
Os novos levantamentos reforçam a importância científica dessas estruturas e podem impulsionar novas pesquisas sobre organização social, engenharia, manejo da paisagem e formas de ocupação desenvolvidas pelos povos amazônicos muito antes da chegada dos colonizadores.
Para os pesquisadores, a descoberta também evidencia que a floresta preservada ainda guarda milhares de vestígios arqueológicos desconhecidos, capazes de transformar a compreensão sobre a história da Amazônia e de seus povos originários

