Um incêndio de grandes proporções devastou aproximadamente 65% da Terra Indígena Maxakali, localizada no Vale do Mucuri, no nordeste de Minas Gerais, provocando graves prejuízos ambientais e comprometendo as condições de vida de mais de 2,5 mil indígenas. O fogo atingiu cerca de 3.500 hectares dos 5.300 hectares que compõem o território, entre os dias 7 e 15 de outubro.
Segundo reportagem publicada pela Mongabay Brasil na sexta-feira (23), dois focos de incêndio avançaram sobre a área indígena a partir de fazendas vizinhas, destruindo trechos de mata nativa, nascentes, plantações destinadas à subsistência das famílias e áreas que estavam em processo de recuperação ambiental.
Além dos danos à vegetação, as chamas comprometeram estruturas utilizadas no abastecimento de água e no fornecimento de energia elétrica. A fumaça intensa também provocou problemas respiratórios entre os moradores, agravando a situação de vulnerabilidade das comunidades atingidas.
A extensão da destruição foi estimada pelo Projeto Hãmhi – Terra Viva, iniciativa que desenvolve ações de restauração florestal no território.
Comunidades indígenas enfrentaram incêndios durante a madrugada
O combate às chamas mobilizou brigadistas indígenas, moradores das aldeias, equipes do Corpo de Bombeiros de Teófilo Otoni e integrantes do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo), vinculado ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Entretanto, as dificuldades de acesso e a falta de infraestrutura agravaram os trabalhos, especialmente durante a noite.
De acordo com Marilton Maxakali, integrante da comunidade e participante das ações de combate, os próprios indígenas permaneceram tentando conter o avanço do fogo durante as madrugadas, quando as equipes externas já haviam deixado o território.
A ausência de energia elétrica e de conexão com a internet dificultou ainda mais a comunicação e a organização das atividades emergenciais.
Em algumas localidades, os moradores precisaram utilizar os recursos disponíveis para proteger suas casas, plantações e áreas de vegetação próximas às aldeias.
O episódio evidencia a importância das brigadas comunitárias no enfrentamento dos incêndios florestais, sobretudo em territórios onde o deslocamento de equipes especializadas pode ser demorado.
Incêndio destruiu plantações e comprometeu abastecimento de água
Entre as localidades atingidas estão as aldeias Pradinho e Água Boa, onde a destruição de tubulações, fios e bombas prejudicou o acesso à água, à energia elétrica e aos meios de comunicação.
As chamas também atingiram roças de subsistência e áreas utilizadas pelas famílias para o cultivo de alimentos, ampliando as preocupações com a segurança alimentar das comunidades.
A perda dessas plantações representa um impacto que ultrapassa os prejuízos ambientais imediatos, pois compromete atividades fundamentais à sobrevivência e à autonomia das famílias indígenas.
Além disso, a fumaça provocou crises respiratórias entre moradores, aumentando a necessidade de atendimento médico.
Diante da situação, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) adotou medidas para exigir providências emergenciais do poder público municipal.
Ministério Público exigiu água potável e alimentos para famílias atingidas
Em 15 de outubro, o Ministério Público de Minas Gerais expediu uma recomendação à Prefeitura de Bertópolis, município onde está localizada parte da Terra Indígena Maxakali, determinando a adoção de medidas emergenciais de assistência às comunidades.
O órgão estabeleceu prazo de 24 horas para o fornecimento contínuo de água potável e a distribuição de alimentos, kits de higiene e agasalhos às famílias afetadas.
A recomendação também contemplou a necessidade de atendimento médico às vítimas de intoxicação por fumaça ou queimaduras, além de apoio logístico às equipes responsáveis pelo combate aos incêndios.
Outra medida solicitada foi a instalação de um gabinete de crise, com participação dos órgãos públicos envolvidos e das lideranças indígenas.
Segundo o Ministério Público, a administração municipal havia informado que não possuía caminhões-pipa nem equipes capacitadas para combater o fogo, aguardando apoio dos governos estadual e federal.
O órgão ressaltou, entretanto, que a necessidade de cooperação entre diferentes esferas governamentais não afasta a responsabilidade do município de adotar providências para proteger a população.
O descumprimento injustificado da recomendação poderá resultar na adoção de medidas judiciais, inclusive ação civil pública com pedido de tutela de urgência.
Na ocasião da recomendação, o Ministério Público trabalhava com uma estimativa preliminar superior a 800 hectares queimados. O levantamento posteriormente divulgado pela Mongabay apontou uma área atingida significativamente maior, de aproximadamente 3.500 hectares.
Áreas de reflorestamento também foram destruídas
Parte da vegetação atingida pelos incêndios integrava iniciativas de recuperação ambiental desenvolvidas pelo Projeto Hãmhi – Terra Viva.
A organização atua na restauração de áreas degradadas e no fortalecimento de práticas de manejo ambiental conduzidas pelas próprias comunidades indígenas.
Segundo Rosangela Pereira de Tugny, coordenadora do projeto, o avanço histórico do capim-colonião, espécie de gramínea utilizada em pastagens, contribuiu para a propagação das chamas.
A vegetação seca funcionou como combustível, favorecendo a expansão do fogo sobre diferentes áreas do território.
Apesar da destruição, aproximadamente 56 hectares de mata remanescente foram preservados graças à construção prévia de aceiros, faixas de terreno destinadas a dificultar a passagem das chamas.
A experiência demonstra a relevância de medidas preventivas para reduzir os danos provocados por incêndios florestais, especialmente em regiões com vegetação degradada e maior vulnerabilidade às condições climáticas extremas.
A perda de áreas reflorestadas também representa um retrocesso nos esforços de recuperação da biodiversidade e de recomposição das condições ambientais necessárias à vida das comunidades.
Recuperação do território dependerá de apoio às comunidades
Com a redução da atividade do fogo, as atenções se voltam para a reconstrução das estruturas danificadas e para a recuperação das áreas de produção de alimentos.
Entre as necessidades apontadas pelo Projeto Hãmhi – Terra Viva estão a recomposição das plantações, o fortalecimento dos quintais florestais e a aquisição de equipamentos que auxiliem os trabalhos de restauração.
A participação dos agentes agroflorestais indígenas será fundamental nesse processo, uma vez que essas equipes já desenvolvem atividades de recuperação da vegetação e possuem conhecimento sobre as características ambientais do território.
A reconstrução, entretanto, envolve desafios que vão além do replantio de árvores. Será necessário restabelecer condições adequadas de abastecimento de água, garantir assistência às famílias e recuperar estruturas comunitárias prejudicadas pelas chamas.
O episódio também reforça a necessidade de investimentos permanentes em prevenção de incêndios, formação de brigadistas indígenas e fortalecimento das ações de proteção territorial.
Para os Maxakali, a recuperação da vegetação representa não apenas a restauração de um patrimônio ambiental, mas também a preservação das condições necessárias à continuidade de seus modos de vida.
Apesar das perdas, as comunidades demonstram disposição para reconstruir as áreas atingidas e retomar os projetos de recuperação florestal.
Fonte: Reportagem de Mariana Martins, publicada pela Mongabay Brasil em 23 de outubro de 2026, com informações do Projeto Hãmhi – Terra Viva e do Ministério Público de Minas Gerais.

