Na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Piranha, em Manacapuru, moradores enfrentam dificuldades para realizar atividades básicas e chegam a pagar R$ 8 por apenas 20 litros de água.
A seca dos rios amazônicos tem provocado dificuldades no cotidiano de famílias que vivem na comunidade Braga, localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Piranha, no município de Manacapuru, no Amazonas. Com a redução do nível das águas e a mortandade de peixes, moradores relatam problemas para utilizar a água do rio até mesmo em atividades domésticas, como tomar banho e lavar utensílios.
A situação foi constatada durante uma visita técnica realizada pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS) na semana anterior à divulgação do levantamento, publicado em 21 de outubro. Os relatos evidenciam a vulnerabilidade das comunidades ribeirinhas diante das alterações nas condições ambientais e das limitações na infraestrutura de abastecimento.
Segundo o morador Noé Marques, a presença de peixes mortos compromete as condições da água, que passa a apresentar odor desagradável e se torna inadequada para diversas atividades cotidianas.
Diante da dificuldade, algumas famílias precisam comprar água para atender às necessidades básicas. Na comunidade, um balde de 20 litros chega a custar R$ 8, valor que representa uma despesa adicional para os moradores durante o período de estiagem.
Mortandade de peixes agrava dificuldades de abastecimento
A diminuição do nível dos rios não é o único problema enfrentado pelos moradores da RDS do Piranha. A mortandade de peixes e as alterações nas condições da água também dificultam sua utilização.
De acordo com os relatos colhidos pela FAS, a água disponível no rio apresenta cheiro desagradável, comprometendo atividades que fazem parte da rotina das famílias.
A compra de água tornou-se uma alternativa para parte da população, mas a quantidade adquirida é insuficiente para atender às necessidades domésticas por períodos prolongados.
Considerando o preço informado pelos moradores, a aquisição de cinco baldes de 20 litros, equivalentes a 100 litros de água, representa um gasto de R$ 40.
O valor ilustra o impacto financeiro que a escassez pode provocar, especialmente em comunidades que dependem diretamente dos recursos naturais e enfrentam dificuldades logísticas para obter produtos e serviços essenciais.
A situação revela um contraste recorrente em determinadas localidades amazônicas: mesmo vivendo em territórios cercados por rios durante boa parte do ano, famílias podem enfrentar sérias dificuldades de acesso à água em condições adequadas de uso durante a seca.
Poço antigo já não atende às necessidades da comunidade
Além das alterações nas condições do rio, a comunidade enfrenta limitações em sua infraestrutura de abastecimento.
Segundo Valcléia Lima, superintendente-geral adjunta da Fundação Amazônia Sustentável, existe na localidade um poço perfurado há mais de duas décadas, mas a estrutura já não atende adequadamente às condições atuais.
Durante a visita técnica, a representante da organização constatou que a dificuldade de acesso à água se tornou uma das principais preocupações dos moradores.
A situação demonstra a necessidade de soluções de abastecimento que considerem as características ambientais das áreas de várzea e as mudanças nas condições dos rios.
Para as famílias, o problema ultrapassa a disponibilidade de água para consumo. A escassez interfere no preparo de alimentos, na higiene pessoal, na limpeza doméstica e em outras atividades essenciais à qualidade de vida.
Fumaça e temperaturas elevadas ampliam preocupação ambiental
A equipe da Fundação Amazônia Sustentável também observou outros sinais de pressão ambiental durante a visita à região.
Segundo a organização, foram identificadas temperaturas elevadas na água do rio e presença de peixes mortos nas proximidades da comunidade.
Durante o deslocamento entre Manaus e Manacapuru, os representantes da instituição também observaram fumaça intensa.
Embora a publicação não identifique a origem da fumaça nem estabeleça uma relação causal direta entre os fenômenos observados, os registros demonstram que as famílias enfrentam diferentes dificuldades ambientais simultaneamente.
A combinação de estiagem, alterações nas condições da água e limitações de abastecimento reforça a importância de medidas de prevenção e adaptação voltadas às comunidades ribeirinhas.
Essas ações precisam considerar as particularidades dos territórios amazônicos, onde os rios desempenham papel fundamental no transporte, na alimentação e na realização das atividades cotidianas.
Fundação propõe articulação para enfrentar eventos climáticos extremos
Diante dos desafios observados, a Fundação Amazônia Sustentável trabalha na elaboração da Aliança Adaptação El Niño 2026–27, iniciativa que pretende reunir comunidades, instituições de pesquisa, empresas, organizações sociais e representantes do poder público.
A proposta busca antecipar riscos associados a eventos climáticos extremos e desenvolver soluções adequadas às necessidades dos territórios amazônicos.
Entre os objetivos estão o fortalecimento da capacidade de adaptação das comunidades e a construção de respostas que contribuam para proteger os modos de vida das populações locais.
Segundo a FAS, o desenvolvimento dessas alternativas deve considerar a participação direta dos moradores, além da cooperação entre diferentes setores.
A articulação com universidades e instituições de pesquisa também pode contribuir para o desenvolvimento de tecnologias de abastecimento e outras soluções adaptadas às condições ambientais da região.
Acesso à água exige respostas imediatas e planejamento de longo prazo
A situação enfrentada pelas famílias da comunidade Braga evidencia que a adaptação às mudanças ambientais precisa ocorrer paralelamente ao atendimento das necessidades mais urgentes da população.
Enquanto iniciativas de planejamento buscam reduzir os impactos de futuras estiagens, os moradores continuam enfrentando dificuldades para obter água em quantidade suficiente para o consumo e as atividades domésticas.
A experiência da RDS do Piranha também chama atenção para a importância de investimentos em infraestrutura comunitária, especialmente em localidades onde o abastecimento depende das condições naturais dos rios.
Para a Fundação Amazônia Sustentável, a construção de soluções duradouras exige o envolvimento das próprias comunidades e a integração de conhecimentos técnicos e tradicionais.
A expectativa é que iniciativas como a Aliança Adaptação El Niño 2026–27 contribuam para fortalecer a preparação dos territórios amazônicos diante de eventos climáticos extremos, sem deixar de considerar as dificuldades já enfrentadas pelas famílias.

