White Solder exportou ao menos 525 toneladas para empresa que fornece soldas à fabricante de sistemas militares Raytheon; mineradora brasileira é acusada pelo MPF de integrar esquema de extração ilegal de cassiterita na Amazônia
Uma mineradora brasileira que se tornou ré sob acusação de participar de um esquema de garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, forneceu estanho para empresas dos Estados Unidos que mantêm relações comerciais com a indústria militar norte-americana.
A ligação foi identificada em investigação da Repórter Brasil, que analisou registros alfandegários e documentos relacionados às cadeias de fornecimento do mineral.
A empresa no centro do caso é a White Solder, uma das maiores produtoras brasileiras de estanho. Segundo a investigação, a companhia forneceu pelo menos 525 toneladas do metal à norte-americana Indium Corporation entre maio de 2023 e agosto de 2025.
A Indium, por sua vez, fornece soldas para a Raytheon, fabricante norte-americana de sistemas militares como radares e mísseis de alta precisão e que possui contratos com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos.
A cadeia coloca um mineral extraído e processado na Amazônia dentro de um mercado considerado estratégico internacionalmente. O estanho é utilizado em componentes eletrônicos presentes em celulares e computadores, mas também em satélites, sistemas militares, veículos elétricos e painéis solares.
Estanho amazônico chegou a fornecedores da indústria militar
O Pentágono considera o estanho importante para a produção de componentes eletrônicos empregados em equipamentos militares.
Além das 525 toneladas enviadas pela White Solder à Indium Corporation, a investigação identificou outro fluxo ainda maior.
Entre agosto de 2021 e agosto de 2025, a mineradora brasileira forneceu pelo menos 2,4 mil toneladas de estanho para a norte-americana Nathan Trotter, que se apresenta como a maior fabricante de estanho e ligas de solda da América do Norte.
Em setembro de 2024, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos concedeu US$ 19 milhões à Nathan Trotter para implantação de uma unidade de fundição, refino e reciclagem de estanho na Pensilvânia.
Segundo o governo norte-americano, o investimento buscava fortalecer a produção doméstica de minerais críticos e reduzir vulnerabilidades na cadeia de suprimentos diante da participação chinesa nesse mercado.
Empresa que recebeu estanho fornece para a Raytheon
A Indium Corporation, outra compradora identificada pela investigação, integra uma cadeia que alcança uma das principais fabricantes norte-americanas de equipamentos de defesa.
A empresa fornece soldas à Raytheon, que produz radares e sistemas de defesa e mantém contratos bilionários com o governo dos Estados Unidos.
Um desses contratos, firmado em 2020 por US$ 2,2 bilhões, envolve sete radares de defesa antimísseis destinados à Arábia Saudita, com entregas previstas até 2027.
Outro acordo, firmado em 2024 e válido até 2031, acrescentou US$ 2,9 bilhões para fornecimento aos Estados Unidos de unidades de um sistema avançado de radar para defesa aérea e antimísseis.
A existência dessas relações comerciais, entretanto, não significa que o estanho especificamente fornecido pela White Solder tenha sido empregado nesses equipamentos militares. O que a investigação documentou são os diferentes elos da cadeia de fornecimento.
White Solder virou ré por suspeita de garimpo ilegal
A conexão internacional ocorre enquanto a origem de parte da cassiterita adquirida pela White Solder é alvo de investigação no Brasil.
Em agosto deste ano, a Justiça Federal em Roraima aceitou denúncia do Ministério Público Federal (MPF) contra a mineradora e seu sócio-administrador.
Eles se tornaram réus por acusações relacionadas a organização criminosa, lavagem de dinheiro e extração ilegal de cassiterita na Terra Indígena Yanomami, a maior terra indígena do Brasil.
A abertura da ação penal significa que a Justiça considerou presentes os requisitos para processamento da denúncia. Não representa, por si só, condenação dos acusados.
MPF aponta movimentação de R$ 166 milhões
De acordo com a acusação do MPF relatada pela Repórter Brasil, a White Solder teria pago R$ 166 milhões à Coopertin — Cooperativa dos Produtores de Estanho do Brasil.
A cooperativa é acusada de funcionar como uma estrutura utilizada para conferir origem aparentemente legal a mais de 525 toneladas de cassiterita que teriam sido retiradas da Terra Indígena Yanomami entre 2021 e 2022.
Segundo o MPF, o minério proveniente da área indígena era enviado para uma unidade da White Solder em Ariquemes, Rondônia, onde a cassiterita era fundida e transformada em lingotes de estanho.
O procurador da República André Luiz Porreca, que conduziu a investigação, explicou à reportagem que esse processo possibilitaria inserir no mercado formal cassiterita extraída de locais não autorizados.
Cassiterita é transformada em estanho
A cassiterita é o principal minério utilizado para obtenção do estanho.
Depois de extraído e processado, o metal passa a integrar uma cadeia industrial muito mais ampla, funcionando principalmente como solda em componentes eletrônicos.
Essa característica faz com que o estanho seja encontrado em produtos tão diferentes quanto celulares, computadores, veículos elétricos, painéis solares, satélites e equipamentos militares.
A White Solder ocupa posição relevante nesse mercado. A empresa se apresenta como uma das maiores fabricantes mundiais de estanho e aparece em segundo lugar na arrecadação de royalties relacionados à exploração de cassiterita na Amazônia Legal, segundo dados da Agência Nacional de Mineração citados pela investigação.
Investigação encontrou mais de 2 mil toneladas atribuídas a “garimpos fantasmas”
As suspeitas sobre a cadeia de fornecimento da mineradora não estão limitadas ao processo envolvendo a Terra Indígena Yanomami.
Outra investigação da Repórter Brasil, realizada em colaboração com o Greenpeace Brasil, apontou que a White Solder comprou mais de 2,3 mil toneladas de cassiterita entre 2020 e 2025 atribuídas a duas áreas de Campo Novo de Rondônia.
A análise utilizou imagens de satélite de alta resolução, sobrevoos e investigação em campo.
Segundo o Greenpeace, as evidências disponíveis não apresentavam sinais espaciais e temporais compatíveis com a produção mineral declarada.
Esses locais são chamados de “garimpos fantasmas”: áreas que possuem autorização para produzir e comercializar minérios, mas nas quais não são encontrados indícios correspondentes de atividade extrativa. Esse tipo de estrutura pode ser utilizado para conferir documentação aparentemente regular a minério retirado ilegalmente de outras regiões.
MPF também investiga possíveis compradores
O caso avançou para outro elo da cadeia.
Além da denúncia criminal contra a White Solder, o MPF instaurou inquérito civil para investigar a eventual responsabilidade de empresas que teriam adquirido estanho da mineradora.
Subsidiárias brasileiras de dez multinacionais aparecem nos documentos, entre elas Amazon, Microsoft, Disney e Intel.
Parte dessas relações foi identificada durante a Operação Forja de Hefesto, deflagrada pela Polícia Federal em dezembro de 2023.
A investigação analisou documentos corporativos apresentados pelas próprias companhias à Securities and Exchange Commission (SEC), órgão regulador do mercado de capitais dos Estados Unidos.
Relatórios não provam que metal chegou aos produtos das multinacionais
A presença de uma mineradora nos relatórios apresentados por multinacionais à SEC exige uma ressalva importante.
Empresas de capital aberto nos Estados Unidos precisam prestar informações sobre possíveis fornecedores de ouro, tungstênio, tântalo e estanho, minerais que recebem atenção especial em razão do risco de associação a conflitos e violações em determinadas cadeias produtivas.
Segundo a Repórter Brasil, relatórios referentes a 2025 de pelo menos oito grandes empresas dos setores de tecnologia, entretenimento e aeroespacial mencionam a White Solder como possível fornecedora.
A lista inclui Amazon, Microsoft, Disney, Intel, NVIDIA, AMD, Rocket Lab e Sony.
Isso, entretanto, não significa que o estanho produzido pela White Solder tenha efetivamente sido utilizado nos produtos dessas empresas. Os relatórios trabalham com cadeias extensas de fornecedores e indicam que minerais provenientes das fundições relacionadas podem ter integrado essas cadeias.
Compradora diz seguir critérios internacionais
A Indium Corporation informou à Repórter Brasil que compra estanho de empresas que atendem aos critérios da Responsible Minerals Initiative (RMI), iniciativa internacional voltada a práticas responsáveis na cadeia mineral.
A White Solder constava como fundição em conformidade com os critérios da RMI durante o período em que forneceu o metal à companhia norte-americana.
A Indium não esclareceu se a empresa brasileira continua entre seus fornecedores.
A RMI, por sua vez, informou que analisará as evidências disponíveis e consultará as partes envolvidas para decidir sobre a manutenção ou retirada da White Solder de sua relação de empresas em conformidade.
Empresas foram procuradas pela investigação
A Repórter Brasil informou ter procurado White Solder, Nathan Trotter, Raytheon e o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, mas não recebeu respostas às perguntas enviadas até a publicação da reportagem.
A NVIDIA declarou que mantém compromisso com a aquisição responsável de minerais e revisa regularmente seus fornecedores.
A Panasonic afirmou adotar práticas de “Green Procurement”, relacionadas a critérios ambientais na aquisição de produtos, mas esclareceu que essas ações não constituem um programa de certificação. A empresa também disse não comentar relações comerciais específicas.
Microsoft e Intel disseram que não comentariam o caso. Amazon, Disney, AMD, Rocket Lab e Sony não responderam à reportagem.
Demanda internacional aumenta importância do rastreamento
A investigação evidencia a complexidade de rastrear minerais desde a extração na Amazônia até sua utilização pela indústria internacional.
Emily Iona Stewart, responsável por políticas e advocacy da Global Witness, alertou à Repórter Brasil que o crescimento da demanda norte-americana por matérias-primas destinadas ao setor militar pode ampliar impactos associados à mineração caso não existam salvaguardas e processos adequados de verificação das cadeias.
Já Bruno Milanez, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e coordenador do Grupo de Pesquisa e Extensão Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade (PoEMAS), chamou atenção para o fato de que minerais classificados como estratégicos por sua importância para a transição energética também possuem aplicações militares.
O caso mostra como a cadeia de um mineral extraído na Amazônia pode atravessar diferentes empresas e países até chegar a setores estratégicos da economia global.
Ao mesmo tempo, as acusações envolvendo a origem de parte da cassiterita reforçam o desafio de assegurar que a expansão da demanda internacional por minerais seja acompanhada por mecanismos capazes de rastrear onde e em quais condições a matéria-prima foi extraída.

