Roraima poderá enfrentar chuvas abaixo da média histórica nos últimos meses de 2026 e uma intensificação dos incêndios florestais no primeiro semestre de 2027, em um cenário associado aos efeitos do El Niño.
A projeção reúne dados de monitoramento consolidados pelo Instituto Socioambiental (ISA) e análises do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).
Segundo o ISA, as chuvas devem permanecer abaixo da média em Roraima durante o último trimestre deste ano. A condição pode se estender até janeiro de 2027, embora previsões de prazo mais longo estejam sujeitas a mudanças.
O cenário mais crítico para os incêndios, por sua vez, deverá ocorrer no primeiro semestre do próximo ano.
Um dos territórios que despertam maior preocupação é a Terra Indígena Yanomami, onde a combinação entre estiagem, altas temperaturas e incêndios nas áreas próximas pode afetar a floresta, as roças indígenas e a qualidade do ar.
Período mais crítico deve ocorrer entre janeiro e março
Segundo Arthur Citó, pesquisador do Inpa, os efeitos mais intensos do El Niño em Roraima são esperados entre janeiro e março de 2027.
Caso os incêndios não estejam controlados nesse período, a fumaça poderá provocar níveis elevados de poluição atmosférica.
Crianças, idosos e pessoas com comorbidades aparecem entre os grupos especialmente vulneráveis, embora concentrações elevadas de poluentes possam produzir impactos sobre toda a população.
A preocupação ocorre em meio a um El Niño de intensidade elevada.
O Painel El Niño 2026–2027, elaborado conjuntamente por Inmet, Inpe, ANA, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil, Defesa Civil Nacional e Censipam, aponta que o fenômeno deve permanecer pelo menos até o início de 2027.
Para o trimestre de setembro a novembro, os modelos indicaram probabilidade superior a 90% de ocorrência de um evento muito forte.
Incêndios mudam de comportamento durante o El Niño
A análise do Inpa também mostra que a distribuição dos incêndios em Roraima muda durante anos influenciados pelo El Niño.
Em condições consideradas normais, o fogo tende a se distribuir pelo lavrado no nordeste do estado e avançar em direção ao sul ao longo das rodovias BR-432, BR-174 e BR-210.
Nos anos sob influência do El Niño, entretanto, os incêndios passam a se concentrar principalmente na fronteira leste da Terra Indígena Yanomami, em uma faixa situada entre a Perimetral Norte, Vila Apiaú, Vila Nova e o Rio Mucajaí.
A explicação está relacionada à perda de umidade da floresta durante estiagens intensas.
Normalmente, a própria umidade da vegetação funciona como uma barreira à propagação das chamas. Quando a seca se torna mais severa, essa capacidade é reduzida, deixando áreas florestais mais suscetíveis à entrada e ao avanço do fogo.
Terra Yanomami recebe fumaça produzida fora do território
Os impactos também ultrapassam os locais onde os incêndios começam.
De acordo com Arthur Citó, a localização da Terra Indígena Yanomami em relação à direção predominante dos ventos faz com que o território receba fumaça produzida por incêndios que ocorrem majoritariamente fora de seus limites.
A consequência é que comunidades indígenas podem sofrer os efeitos da deterioração da qualidade do ar mesmo quando o fogo não começou dentro da terra indígena.
A fumaça de incêndios florestais contém partículas finas capazes de penetrar profundamente no sistema respiratório, o que aumenta a preocupação com os efeitos sobre a saúde durante episódios prolongados de queimadas.
Além da população indígena, períodos intensos de fumaça podem afetar moradores de diferentes regiões de Roraima.
Roças Yanomami estão ameaçadas pela estiagem
Outro impacto potencial está na produção de alimentos.
Na região de Surucucu, dentro da Terra Indígena Yanomami, comunidades começaram a recuperar roças depois dos impactos provocados pelo garimpo ilegal e da crise humanitária enfrentada nos últimos anos.
Agora, a possibilidade de uma seca intensa trouxe uma nova preocupação.
Waihiri Hekurari, presidente da Urihi Associação Yanomami, relatou ao ISA que as lideranças já observam calor intenso no território e temem que as condições do solo prejudiquem o plantio.
Segundo ele, existe também preocupação com a redução do nível dos rios durante o verão.
As comunidades haviam ampliado as plantações neste ano, mas passaram a recuar diante das previsões de estiagem e do risco de incêndios.
Outubro já deve ter chuva abaixo da média
As projeções consolidadas pelo ISA mostram uma sequência de meses potencialmente mais secos.
Segundo Ricardo Abad, analista do Instituto Socioambiental, todo o território de Roraima apresenta previsão de chuva abaixo da média em outubro.
A situação tende a piorar em novembro e dezembro.
Em janeiro, a previsão continua indicando precipitação abaixo da média em grande parte do estado, embora o extremo norte possa apresentar volumes próximos aos padrões históricos.
A perspectiva muda a partir de fevereiro.
Os modelos analisados pelo ISA indicam possibilidade de chuvas acima da média em fevereiro e março, tendência que poderá alcançar todo o estado em abril.
Para maio, o cenário atualmente disponível é dividido: há previsão de precipitações acima da média no norte e abaixo da média no sul.
Abad ressalta, entretanto, que projeções para meses tão distantes possuem maior grau de incerteza e podem mudar conforme novos dados sejam incorporados aos modelos. O monitoramento é atualizado semanalmente.
Roraima já decretou situação de emergência
As previsões para os próximos meses chegam quando o estado já enfrenta os efeitos da estiagem.
No início de setembro, o Governo de Roraima decretou situação de emergência por 180 dias e criou o Gabinete Integrado da Operação El Niño 2026–2027, reunindo órgãos estaduais para coordenar medidas de prevenção e resposta à seca, à escassez de água e aos incêndios.
Os rios já apresentavam níveis excepcionalmente baixos no final de agosto.
Na estação de Boa Vista, o Rio Branco chegou a 1,38 metro, diante de uma média histórica de 4,64 metros para agosto — diferença de 70,3%.
Em Caracaraí, o nível registrado foi de 2,05 metros, 62,7% abaixo da média histórica de 5,50 metros para o mês.
A redução afeta navegabilidade, abastecimento de água e atividades produtivas, com consequências particularmente relevantes para comunidades rurais, ribeirinhas e indígenas.
Focos de calor já preocupavam em agosto
O fogo também já dava sinais de agravamento antes mesmo do período apontado como potencialmente mais crítico.
Até 27 de agosto, Roraima havia contabilizado 87 focos de calor, segundo dados do Inpe citados pelo governo estadual.
O número superou o recorde anterior para agosto, de 78 focos em 2023.
Na comparação com agosto de 2025, quando foram registrados 37 focos, o aumento chegou a 135%.
Para reforçar a resposta aos incêndios, 157 brigadistas já haviam sido contratados e outros 47 deveriam ser convocados pelo estado.
El Niño pode prolongar condições secas na Amazônia
O cenário de Roraima faz parte de uma alteração climática mais ampla prevista para a Região Norte.
O Painel El Niño aponta tendência de chuvas abaixo da média em áreas de Roraima, Amazonas, Acre, Pará, Amapá e Maranhão, além do norte de Mato Grosso. Ao mesmo tempo, temperaturas acima da média são esperadas em grande parte da Amazônia.
A combinação de menos chuva e temperaturas elevadas pode prolongar a estação seca, reduzir a disponibilidade hídrica e deixar a vegetação mais suscetível ao fogo.
Em Roraima, a preocupação é ampliada pelas características climáticas próprias do estado. O calendário de maior risco de incêndios não coincide necessariamente com o observado em outras áreas da Amazônia, e as projeções indicam que a ameaça poderá permanecer elevada quando 2027 começar.
Por isso, os próximos meses serão decisivos para prevenção.
As previsões ainda podem ser atualizadas, especialmente aquelas referentes ao primeiro semestre do próximo ano. Mas os diferentes indicadores atualmente disponíveis convergem para um cenário que exige acompanhamento: menos chuva no final de 2026, efeitos mais intensos do El Niño no início de 2027 e condições capazes de favorecer incêndios justamente nas proximidades da Terra Indígena Yanomami.

